sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Vou maratonar!

Depois de chatear os amigos para irem votar em mim no site da EDP, lá ganhei o dorsal que me permite ir maratonar de graça no dia 2 de Outubro. Vá, maratonar totalmente não, só meio maratonar. Mas uma meia maratona ainda são 21,1 kms a correr! Tendes noção que cerca de 1/5 dos Portugueses reside a menos do que essa distância de Espanha?

Quanto aos preparativos... O meu caro con-cunhado Zé João conseguiu arrastar-me para o meu primeiro treino. Ao fim de 7 kms tive que andar durante uns 10 minutos mas depois lá completei mais 3 kms. Desde aí já por duas vezes corri 10 kms sem grande problema. Amanhã de manhã vou tentar os 15 kms.

Estou a gostar tanto de todo este treino quanto gostaria de ir passar uma semana a Pyongyang em companhia do Líder Supremo. No entanto, todavia, contudo o meu ironman friend* dizia-me: "cria carácter e ficas-te a conhecer melhor"!  

Quanto aos meus objectivos para esta meia maratona: fazer os 21,1kms sempre a correr como se fosse o Forrest Gump. Porque... My mother always told me "life is like a half-marathon (forget about boxes with chocolates), when you complete one, you always want another twice as long".

* Sim, eu tenho um ironman friend, o Nuno. Ele já participou em várias provas de ironman, incluindo uma no Árctico. Fazer uma prova de ironman no Árctico para mim já seria como ir para a Coreia do Norte, jurar aliança ao Líder Supremo, ir ao barbeiro dele e desistir da nacionalidade Portuguesa para lá ficar para sempre.

A Democracia e as Democracias

Saiu hoje no Público uma entrevista a um Professor de Yale, Ian Shapiro. A entrevista está muito interessante porque fala sobre a internacionalização e a "exportação" da Democracia. Esta surge numa altura em que o crescimento de movimentos ou atitudes não democráticas nos bastiões da Democracia (Europa e América do Norte) nos leva a pensar se tal modelo é bom para exportação.

Podemo-nos fazer uma pergunta existencial sobre Democracia é mesmo este o melhor dos sistemas?Parece haver um tabu em certas pessoas de se perguntar isto. Há quem considere, principalmente nos países em que parte da população ainda viveu em sistemas não Democráticos (como em Portugal) que nem se deve questionar se a Democracia é a melhor alternativa política existente ou não.

Ora eu considero que esta abordagem leva ao crescimento de movimentos não democráticos. Eu não tenho dúvidas de que um sistema democrático de governo será sempre melhor do que quaisquer alternativas. Mas também considero que se não debatermos as vantagens da Democracia, vão ser debatidas as vantagens das suas alternativas. Ora eu vejo três principais vantagens na Democracia que a torna sempre superiores às alternativas:

- O sistema de controlos e balanços (o que os nossos velhos aliados chamam "checks and balances") de poderes permitem que não haja abusos do poder político para benefício de apenas uma pessoa ou um órgão. Assim, é necessário que o parlamento, governo e tribunais seja suficientemente independentes entre si para se controlarem uns aos outros. Para além disso é necessário que sejam criadas outras entidades, também suficientemente independentes, que possam investigar e certificar-se da legalidade de actuação de certos agentes da sociedade que têm uma importância especial, como sejam as forças armadas e de segurança, o sistema financeiro, os serviços de transporte ou fornecimento de bens essenciais, etc.

Com as Democracias, estes sistemas de controlos e balanços vão-se aperfeiçoando. Com os regimes não democráticos eles vão caindo nas mãos de uma elite que abusa deles para proveito próprio. Em Portugal as pessoas acham que há cada vez maior corrupção e abusos porque cada vez mais casos são descobertos. Pois eu acho que o que há é cada vez melhores controlos e é por isso que os casos surgem. E nos casos dos "descontrolos", vão sendo revelados e aperfeiçoados.

- O carácter temporário do poder político é considerado por muitos como um dos defeitos da Democracia. Dizem esses que num sistema não Democrático é mais possível planear a longo prazo. Mas eu considero-o uma vantagem. De facto há umas quantas decisões políticas que devem ser planeadas a longo prazo. Mas numa Democracia isso pode ser resolvido com métodos consensuais. No entanto, a maior parte das decisões políticas não devem ser de longo prazo, devem responder rapidamente a conjunturas que mudam. E como mudam as conjunturas, podem também mudar as vontades dos interessados.

Ora, é em Democracia que melhor funcionam mecanismos de consulta principalmente porque é em Democracia que as pessoas se sentirão mais à vontade para exprimir as suas opiniões. Vemos em Portugal o crescimento dos mecanismos de consulta: sobre obras públicas, sobre certos regimes legais e sobre decisões que afectam de forma diferenciada diferentes sectores da população, etc. Estas consultas potenciam novas soluções que permitem que beneficiem mais pessoas e prejudiquem menos.

- A terceira das três maiores vantagens que eu vejo nos sistemas Democráticos é a valorização das opiniões dos indivíduos. O mero facto de que um indivíduo possa ser ouvido e a sua opinião avaliada é em si uma vantagem, independentemente da bondade da decisão final. Quem defende os sistemas não democráticos diz que as opiniões podem ser mais eficazes e céleres quando tomadas por um restrito grupo de elite do que pelas massas. Mas há nisto logo três problemas. O primeiro é que as massas podem não compreender nem aceitar as decisões dessa elite, o que torna o resultado final, mesmo que intelectualmente melhor, menos eficiente. O segundo é que a satisfação de contribuir para o resultado final é em si mesmo uma vantagem. O terceiro é que ninguém nos pode garantir que a elite é mesmo a melhor ou que não vai piorando com os anos no poder e depois é muito fácil removê-la.

Este argumento a favor da Democracia é, porventura o mais contestado em Portugal por motivos históricos. Muitos Portugueses olham para aquela que foi a alternativa histórica (o Estado Novo) como um regime encimado por académicos impolutos e patrióticos que, trabalhando abnegadamente "a bem de A Nação", não enriqueceram em cargos de poder. Mas o problema deste regime de "académicos patrióticos" foi precisamente que das suas cátedras eles não se aperceberam de quanto o mundo mudou. Podemos ver dois exemplos que estiveram na génese da queda do regime. O primeiro foi que a economia começou a ser liberalizada em 1961 (adesão à OMC e EFTA) quando deveria ter sido logo após a IIGG. O segundo foi que as infraestruturas essenciais que permitiriam ao ultramar ganhar maior autonomia foram criadas principalmente depois do início da luta armada em três das províncias. Isto mostra que os regimes não democráticos podem fazer planos de longo prazo mas têm maior dificuldade em adaptar-se à mudança dos tempos. 

domingo, 11 de setembro de 2016

Tudo o que não se dá...

Esta história começa na Missa de hoje. Foi uma Missa particularmente inspiradora nas suas leituras. Começou com o pedido de misericórdia de Moisés a Deus, continuou com o testemunho dado a Timóteo da misericórdia que Paulo sentiu receber de Deus e acabou com chave de ouro com as parábolas da ovelha perdida, do dracma perdido e do(s) filho(s) pródigo(s). Talvez tão inspiradoras leituras tenham dado maior alento ao meu prior que, apesar de novo (julgo que mais novo que eu) tem normalmente umas homilias ligeiramente desalentadas.

Tanta inspiração levou-me a que eu saísse de lá pronto para mudar o mundo. "É desta!" No fundo o único mundo que eu tenho que mudar é o meu mundo interior, pelo que eu achei que essa tarefa estava cumprida...

Tão Cristianamente inspirado lá fui ao lidl fazer umas compras. Coisa mundana, não é no lidl que eu vou mudar o mundo, certo? À entrada estava um miúdo com os seus 15 anos bem vestido e com um caniche branco sentado num degrau. Primeiro pensamento: "um caniche branco! a sério!? um miúdo destes devia ter um pastor alemão ou outro cão de jeito para poder ir atirar uma bola para o parque". Presumi que o miúdo estava à espera dos pais porque o cão não podia entrar no supermercado e lá entro eu sem pensar mais nem no miúdo nem no caniche branco. Se  ainda fosse um pastor alemão...

Quando saí, já por outra porta, estava o miúdo do caniche, já de pé nessa outra porta. "Olhe, desculpe...", chamou-me ele com um tom educado. Fiquei chocado! O miúdo do caniche não estava à espera dos pais , estava a pedir dinheiro! Quer dizer, nem tenho a certeza que fosse isso porque pura e simplesmente o ignorei. Com um sorriso e um aceno, mas ignorei e passei em frente com um saco em cada braço a caminho de casa.

E foi aí que se desabou a minha certeza de conseguir mudar o mundo.  "Devia voltar para trás e perguntar ao miúdo o que ele me quer! Mas eu não dou dinheiro a ninguém porque ainda acaba em álcool ou droga..." E enquanto pensava isto continuava a andar. "Mas devia voltar para trás e perguntar se o miúdo quer almoçar" - afinal de contas tinha o almoço já preparado em casa.

"E se o miúdo me ataca e me rouba a casa? Já sei! Quando chegar a casa vejo se o G está lá  e se ele estiver volto ao lidl e vou convidar o miúdo para almoçar!" E continuo a andar... Quando chego a casa o G não estava. Decidi telefonar-lhe e perguntar se ele voltava a tempo do almoço. Se ele voltasse eu ia chamar o miúdo para almoçar. Telefonei. Não, não voltava a casa a tempo de almoçar. "Então nem pensar! O miúdo ainda tem uma faca, esfaqueia-me e leva a minha aparelhagem meio avariada (o leitor de CDs não funciona). Ou o meu computador também meio avariado (a bateria também não funciona, tem de estar ligado à corrente). Ou o micro-ondas - que funciona lindamente..."

Arrumo as compras, vou servir-me e apercebi-me que me servi exatamente de metade da comida que tinha. Dava lindamente para o miúdo almoçar e sempre tinha uma refeição nutritiva e saudável... "Mas e a faca na algibeira?"

"Que se dane a faca, eu fiz tae-kwon-do!" Escondo a minha carteira numa gaveta (ainda ontem à noite levantei dinheiro e tenho lá quase uns €20) e saio de casa de volta para o lidl sem sequer aquecer no meu ótimo micro-ondas a comida que já tinha posto no prato. Chego lá e nem sinal do miúdo do caniche. Procurei nas diferentes entradas, ele tinha ido embora. Perdi uma boa ocasião de fazer uma boa ação e talvez mudar um bocadinho o mundo. Pelo menos o mundo do miúdo.

Já a voltar para casa lembrei-me de uma frase da Santa Teresa de Calcutá: "tudo o que não se dá, perde-se!" Completando essa frase: "tudo o que não se dá LOGO, perde-se!"

sábado, 10 de setembro de 2016

Guterres a SGNU

Uma amiga minha colocou esta  pergunta no facebook:
Expliquem-me por que é bom que o António Guterres seja o secretário-geral da ONU? (Que não seja o provincianismo de que é português.)
Ora, houve muitas respostas a falar das qualidades do candidato e do seu bom desempenho como ACNUR. Isto porque a minha amiga tem muitos amigos não provincianos. Mas como também me tem a mim, um bucólico provinciano que anseia pela reforma passada a aquecer os pés à lareira numa casinha de granito perdida no meio da Serra da Estrela (isto é o meu blog, eu minto se eu quiser), como amigo, eu decidi responder porque é que considero que o nosso Estado deve mesmo gastar o dinheiro que está a gastar com a candidatura de Guterres a SGONU. E com as candidaturas de tantos outros a outras posições dirigentes de organizações internacionais...
Para além de todas as qualidades aqui já apontadas eu vou recorrer ao provincianismo de que ele é Português (desculpa Mariana!). Mas a realidade é que acho a tua pergunta muito boa. Até podia ser formulada de forma mais reivindicativa: "porque é que o nosso Estado está a gastar dinheiro dos contribuintes numa candidatura de um Português?"
A diplomacia Portuguesa (bem como as diplomacias de todos os países do mundo) faz um enorme esforço para colocar os seus nacionais em cargos dirigentes das organizações internacionais a que pertence. Ora os motivos para isso são muitos:
- Comecemos pelo mais básico: prestígio do país. Ter um Português a fazer um bom trabalho num cargo muito visível traz prestígio para o país. Assim, ter tido o Guterres como ACNUR a fazer um trabalho excelente e a possibilidade de o ter a fazer um trabalho excelente como SGNU, traz visibilidade e prestígio a Portugal.
- Há ainda a exportação da visão Portuguesa do que deve ser o mundo. O povo Português, o governo de Portugal e a sua diplomacia têm uma mundividência que querem "exportar". Nesta inclui-se a prioridade aos direitos humanos, relações internacionais baseadas no direito (e não na força) e promoção do estado de direito.
- Por último: acesso. Termos Portugueses como dirigentes em organizações internacionais dá-nos um acesso a centros de poder que, dada a nossa dimensão dificilmente teríamos de outra forma.
Francamente acho que o investimento que tem sido feito por Portugal no último ano com esta candidatura é um ótimo investimento. Não apenas por todas as qualidades pessoais que já foram apontadas em cima ao Eng. Guterres mas principalmente por ele ser Português.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Google-se a União Europeia II

A propósito do meu post anterior, a minha amiga Paula mandou-me um muito bom artigo que ela escreveu com um outro exemplo de transparência, o TTIP. Nunca a negociação de uma acordo de comércio foi tão transparente. Vale a pena ler.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Google-se a União Europeia!

Faz agora 6 meses que trabalho com assuntos da União Europeia. Antes disto era um leigo nestas matérias e pouco sabia do que a UE fazia. Claro que já antes ensinava Direito da UE, mas uma coisa é o direito e outra coisa é a prática, a forma de trabalhar, os assuntos em que a UE se envolve...

Ora, como leigo nestes assuntos, uma coisa que me apercebi é que a UE, como todos os órgãos que dirigem Estados, Organizações Internacionais, etc. tem uma linguagem e um jargão muito próprios. Muitos departamentos, políticas e mecanismos que eu desconhecia, cada qual com as suas próprias siglas (que por vezes me aparecem em Português e outras em Inglês). Para além disso, as áreas de actuação da UE são imensas: desde as tradicionais económicas até às ambientais, passando pela cooperação, relações internacionais, direitos humanos... Tanta coisa!

Como é óbvio, ao princípio andava a "patinar" por estes assuntos. Mas no que toca aos assuntos Europeus, não vale a pena "patinar", basta googlar. O que um cidadão pode querer saber sobre prioridades, iniciativas, políticas, departamentos, instrumentos ou mecanismos da UE está no site da própria UE. Porque é que se decidiu fazer assim, como é que evoluiu, o que faz, quanto custa, quem é o responsável...? Tudo bem transparente!

Se surge uma pergunta é quase certo que a resposta está lá. Basta googlar! Muito me admira, por isto, que haja tanta gente a acusar a UE de não ser transparente, de estar afastada dos cidadãos Europeus, de ser dirigida por uns quantos tecnocratas tão cinzentos quanto Bruxelas que só falam uns com os outros. A UE quase que anda aos gritos sobre o que faz. O mal é que a comunicação social ignora por completo estes gritos a não ser quando têm a ver com sanções ao nosso país.

Agora está na moda...

Um dos motivos que me levam a gostar de transportes públicos é poder ouvir a conversa dos outros. Desde interjeições engraçadas, a formas de falar a, e isto é o melhor, ouvir a opinião de pessoas que eu não conheço de lado nenhum sobre os mais variados temas.
Hoje de manhã as únicas faladoras no meu autocarro eram duas professoras dos seus 50-60 anos. Estavam a queixar-se sobre a relação entre os miúdos e os telemóveis, sobre os pais que permitem a miúdos de 14-15 anos já ter TMs, etc. A conversa até era bastante interessante mas, infelizmente, eu só consegui ouvir parte porque ia sentado duas filas atrás delas. Ao contrário de tantas outras pessoas, elas não faziam aquele esforço de falar um bocadinho mais alto para todo o autocarro ouvir as suas opiniões... Uma pena!
Mas houve uma frase que eu apanhei e que achei deliciosa: "o facebook, que é uma coisa que agora está na moda..." Tão queridas!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Burkini... Or the life of others

O burkini foi de um momento para o outro catapultado para a ribalta por um Presidente da Câmara Francês o ter proibido. Já li tantos artigos a favor e contra o burkini que já não sei o que pensar.

De um lado temos o respeito pelas liberdades mais básicas, como a liberdade religiosa e até (porque não?) a própria liberdade de aparência. Do outro lado temos certos governos estrangeiros a promover o conservadorismo Islâmico (de que o burkini é apenas um sinal) com finalidades políticas. Entre uma coisa e outra não gosto nem que se comprometa as liberdades na Europa nem que esta se deixe conduzir por governos estrangeiros com más intenções.

Racionalmente não consegui tomar nenhuma decisão. Mas neste Domingo, na praia, tomei uma decisão mais emocional. Uma decisão baseada numa experiência vivida em vez de uma teoria pensada.

Fui à praia com uma família de amigos Muçulmanos: pai, mãe e dois filhos pequenos. Enquanto o pai e eu passámos horas na água com os miúdos, a mãe ficou ou à torreira do sol ou à sombra das rochas, mas em qualquer dos casos não veio para a água porque estava vestida. Apesar dela não ser, de todo, uma fundamentalista (aliás, eles estão cá em Portugal porque fugiram dos fundamentalistas), não se sente confortável em destapar a cabeça em público nem em mostrar o corpo. Se não pudesse sequer ficar vestida na praia, teria que esperar fora da praia pelo marido e filhos, vendo-os a divertir-se à distância. Já se ela tivesse um burkini, é bem possível que estivesse a brincar na água com as crianças...

Isto fez-me ver que o burkini não é assim tão mau. Eu não estava com nenhuns fundamentalistas e claramente não era o marido a impor que ela usasse o véu. O véu não lhes vem como afirmação política e nos três meses que eles já levam em Portugal, vejo que gostam do nosso país e de cá estar. Bem sei que não há justificação racional para a diferença entre sexos (pai de calções de banho, mãe coberta) e que aquela indumentária pode ser vista como uma bandeira política. Mas aquela mulher devia poder sentir-se à vontade de brincar com os filhos na água.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Televisão em casa

Desde que me mudei para a minha casa nova que não tenho televisão em casa. Já muitas vezes antes vivi sem televisão, mas agora sinto que a pressão para ter televisão se adensa com diversos amigos a perguntar se eu não fico "isolado do mundo", se não tenho "medo de não estar a par com as notícias" ou ainda se não me sinto sozinho porque, aos olhos de muitos, a televisão é "uma companhia".

Então vamos por pontos:

1. Não, não me sinto isolado do mundo. Pelo contrário. Noto que não ter televisão em casa me leva a convidar mais vezes pessoas para lá jantar ou beber um copo. Também me leva a sair mais de casa para ir correr, para ir ao LX factory ou outro sítio ao pé de casa beber um copo com um amigo ou um livro. E por vezes até me apetece estar sozinho em casa - sem barulho de televisão, com uma música de fundo a consultar a net ou a ler um livro. Julgo até que não ter televisão promove que o meu flatmate e eu jantemos mais vezes juntos e fiquemos ali à mesa a falar até ir dormir em vez de estarmos a embrutecer em frente àquela caixa sem inteligência.

2. Estou a par das notícias que me interessam através da leitura diária de vários jornais e sítios online que eu considero de qualidade. Já os telejornais estão cheios de notícias que não me interessam para nada e que eu até considero estupidificantes. Claro que há programas de debate na televisão mas os mais interessantes até estão online.

3. Devo confessar que considero deprimente ver-se a televisão como uma "companhia." Quando alguém me pergunta se eu não sinto falta dessa "companhia", fico logo com pena dessa pessoa. Convido para que apareça lá em casa quando precisar de companhia em vez de se sentar a ver umas pessoas que apenas se interessam de serem vistas para poderem ganhar dinheiro.

Ao reler o que escrevi, dá a ideia que sinto alguma superioridade moral ou intelectual por não ter televisão. Devo confessar que estaria a ser falsamente humilde se negasse que isso acontece. Mas a verdade é que estou em condições muito próprias. Para começar estou no centro de Lisboa num bairro giro e cheio de coisas para fazer quando chego a casa. Para além disso tenho um trabalho que gosto e que partilho com pessoas interessantes e intelectualmente estimulantes pelo que o meu dia-a-dia já é cheio de debate e informação. Por último tenho o passe e muitos autocarros e eléctricos à porta que me permitem ir onde quiser em vez de ficar em casa a ver televisão. Se eu vivesse no meio do nada, passasse o dia sozinho e tivesse dificuldade em deslocar-me, talvez então quisesse ter televisão. Ou isso ou fazia tudo por tudo para mudar de vida. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Natureza humana

Ontem tive uma estória muito gira, que aqui gostaria de partilhar. Trata-se de um episódio que julgo que revela muito sobre a natureza humana.

Tudo começou com o convite de um amigo de Macau. Ele estava em Lisboa muito pouco tempo e organizou um copo com os amigos de Lisboa às 10 da noite no Clube de Rugby do Direito, em Monsanto

Eu aceitei pelo que, seguindo as instruções do google, lá fui apanhar o autocarro 724 que me deixaria lá à porta. Mas esta informação googliana estava errada! Ao chegar à paragem vi que àquela hora já o dito cujo autocarro não parava lá à porta. Depois de um diálogo com o motorista, houve um rapaz que me sugeriu sair numa paragem diferente do que o motorista me sugeria e ofereceu-se acompanhar lá. Eu aceitei e só quando estávamos a sair do autocarro é que eu percebi que ele não tinha planeado sair nessa paragem porque a mulher e o filho continuaram para a próxima.

Foi então que ele me explicou que era "ali do bairro", que sabia que havia ali muitos assaltos e que achou que havia uma probabilidade de eu ser assaltado se ele não fosse comigo. Até eu, que sou em geral optimista em relação às pessoas, fiquei surpreendido com tanta simpatia desinteressada. Mas esta era real: ele lá me levou à entrada do Clube de Rugby e depois de se despedir voltou atrás para andar bastante mais do que teria andado se tivesse saído na paragem com a mulher e o filho.

Estas estórias não saem tanto nas notícias como aquelas sobre a maldade humana. Mas a verdade é que esta estória é tão real e revela tanto sobre a natureza humana como a do rapaz de 14 anos que foi deixado em coma por um de 17 e tantas outras que pululam na nossa comunicação social...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Brexit II

Escrevi há dois dias um email ao meu único amigo que votou a favor do Brexit. Precisava que ele me desse alguns motivos para me animar. Em vez disso, o mail dele desanimou-me ainda mais.

Diz-me ele que votou pelo Brexit para que os Britânicos aprendessem uma lição (ele é Italiano naturalizado Britânico). Ele sabe que este resultado é  pior para as Ilhas mas não se importa porque, supostamente, segundo ele, agora a UE ficará mais forte sem um país sempre com um pé dentro e outro fora. Esquece-se que a saída do RU, a 5ª economia mundial, é má para a UE. Para além disso, o eventual prejuízo para o RU também o é para a UE, dada a importância das relações económicos entre o RU e os outros Estados membros.

Como ele vive na Escócia, tem também a esperança que a desgraça dos Ingleses seja o benefício dos Escoceses porque as empresas se transferirão para a Escócia para beneficiar da pertença à UE. O que ele não mencionou é que se a Escócia se tornar independente, terá que se candidatar à UE. Nessa altura terá que adotar o €uro, o que é uma coisa que nenhum país neste momento quereria. Em qualquer dos casos, dado que a alternativa seria continuar na Libra mas não ter qualquer controlo sem a mesma, nem sei qual é a pior opção. Para além disso, mais facilmente as empresas se mudarão para a Holanda, Irlanda ou Luxemburgo, países com panoramas fiscais bem mais atrativos, do que para a Escócia.

No fundo o email dele não me animou. Continuo a sentir que os meus amigos Britânicos (quer os Ingleses quer os  Escoceses) sairão prejudicados e com eles sairá prejudicada toda a UE.  Só espero que este prejuízo seja de curto prazo (10-15 anos) e que depois, quando eu já estiver quase na idade da reforma, as coisas melhorem. Mild optimism...?

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit

Os eleitores Britânicos decidiram, está decidido! Não gosto de como eles decidiram, é certo. E se eu tivesse votado não teria votado como a maioria. E, pior ainda, o voto desta maioria dos Britânicos vai afectar a minha vida de Português...

Mas... No entanto, todavia, contudo...

Acho bem que o referendo tenha sido convocado. Há muitos anos que o RU tinha um pé dentro e outro fora da UE e há muitos anos que os Britânicos (ou, pelos vistos, os Ingleses) guardavam constantes ressentimentos face à "Europa" (como eles gostam de dizer, pondo-se a si mesmos de fora).

Sendo assim, concordei com David Cameron quando convocou o referendo. Aliás, a certa altura a pressão dentro dos Conservadores era tão grande que ela não podia não convocar o dito cujo.

Já no que toca à sua demissão, fico mais céptico. Por um lado compreendo que ele queira que seja alguém que apoia a saída a negociar a mesma. Por outro lado, tendo ele tido a coragem política de convocar o referendo, esperava que ele agora também tivesse a coragem política de negociar as suas consequências.

Quanto ao futuro... A UE não vai ser meiga com o RU e por motivos óbvios. Se o RU quiser continuar a usufruir das vantagens do mercado comum (e ambos os lados reconheceram que eram muitas) tem também de arcar com os custos. Durante meses os Brexiters insistiam que era possível ter "sol na eira e chuva no nabal": não ter custos no comércio de bens ou capitais mas poder adoptar as próprias normas sobre esses bens e capitais. A UE vai provar (espero eu) que não é.

Acima de tudo... Estou triste com este divórcio entre as duas margens da Mancha!

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Please stay!

Stay with us, Brits! We need you for a more Atlantic Europe! Without you, Europe will become ever more "Uralian" - and we all now that the Atlantic is more democratic, free and economically sound than the Urals.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Marxismo e Fascismo

Interrompo aqui os meus posts sobre educação, os quais hei-de retomar em breve, para escrever uma breve nota sobre a polémica em volta do que José Rodrigues dos Santos escreveu: que o Fascismo advém do Marxismo. Prometo depois voltar à educação.

No seu artigo de hoje, o historiador António Araújo vem argumentar contra isto. Em primeiro lugar uma nota de repúdio pelo tom agressivo que Araújo usa. Infelizmente este tipo de tom já se tornou hábito na discussão política e jornalística mas eu nem gosto nem me quero habituar a isso. No que toca seus argumentos, estes passam principalmente pela prova de que historicamente Hitler não foi influenciado pelo Marxismo e que Mussolini se "converteu" de socialista revolucionário em sindicalista nacionalista.

O que me apetece perguntar a António Araújo é, em bom yankee: so what? É que visto de hoje em dia e sem grandes pruridos históricos, nota-se que as duas ideologias têm mais em comum do que de diferente. Por muito que Marxistas odiassem Fascistas e vissem o seu ódio reciprocado, "deste lado da barricada", ou seja, vistos de um ponto de vista Democrático, eles são, como diriam os nossos irmãos Brasileiros, "farinha do mesmo saco". Senão, note-se:

i) Por muito que Marxistas e Fascistas se odeiem, eles surgem mesmo é como contra-resposta ao Liberalismo Democrático;

ii) Ambos consideram que o Estado deve modelar os indivíduos para que estes passem a caber num protótipo ideal de homem bom, seja este o ariano dos Nazis ou o bom revolucionário dos marxistas;

iii) São, por isso, avessos às liberdades e direitos individuais, que incluem a auto-determinação de cada indivíduo;

iv) Concordam ainda em que apenas eles podem ter a razão neste modelamento de uma sociedade ideal que leve os indivíduos a ser estes indivíduos ideais, pelo que qualquer outra opinião deva ser calada.

Sendo assim, se o Fascismo surgiu do Marxismo ou não, é-me indiferente do ponto de vista Democrático. O que me interessa é que ambos partem dos mesmos pressupostos e mantém uma discordância de base com o modelo Democrático Liberal.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Educação - diferentes opções III

Nos posts anteriores escrevi que na génese do desentendimento atual sobre o modelo de educação está o debate entre Igualdade e Liberdade. E está! Infelizmente, julgo que os seus interlocutores nem sempre levam este debate a fundo.

Note-se a seguinte situação. Na Vila Nova de Algum Sítio (VNAS) existem, lado a lado, duas escolas de tipos diferentes. Uma é pública, sendo, como tal, gerida e financiada pelo Estado (em Portugal, o financiamento do Estado é feito pelo erário público que, lembre-se, vem na sua maioria do bolso dos contribuintes, seja diretamente dos indivíduos, seja das suas empresas, ou seja, indiretamente também vem dos indivíduos). A outra é privada, sendo gerida por uma empresa privada, mas sendo financiada pelo Estado.

Numa altura em que as pessoas têm menos filhos em VNAS, não há alunos suficientes para justificar a existência de duas escolas. Dadas que ambas são pagas pelo Estado, este decide acabar com o financiamento da escola que não gere. E é aqui que nasce o problema...

Note-se que qualquer pessoa veria como racional que o Estado, que está a duplicar os seus gastos, faça alguma coisa para poupar dinheiro. Afinal de contas, aquele dinheiro é de todos os contribuintes. o que causa controvérsia é o porquê de o Estado privilegiar a escola que gere em detrimento da que tem gestão privada.

Note-se em primeiro lugar que questão só se coloca quando a escola privada é preferida à pública. Caso seja a privada a não ter alunos, esta é obrigada a fechar porque o Estado só paga pelos alunos que ela tem. Logo, nós temos o Estado a querer cortar o financiamento à escola preferida pelos habitantes de VNAS. Partindo do princípio que estamos numa Democracia e que o governo que quer fazer isto vai ganhar o desagrado dos habitantes de VNAS que nas próximas eleições não vão querer votar nele, porquê este aparente tiro no pé? (Digo tiro no pé porque é irracional a um governo que queira ser reeleito desagradar aos seus eleitores)

No próximo post escreverei sobre os motivos pelos quais um governo poderá, apesar do desagrado provocado em VNAS, querer deixar de financiar uma escola privada. Depois escreverei ainda um outro post sobre os motivos que poderiam levar o governo a, em vez disso, reduzir o número de turmas na escola pública para a adaptar à sua procura.

Educação - diferentes opções II

Conforme eu disse no meu post de ontem, o grande debate que se dá hoje em dia na nossa sociedade não é entre aqueles que defendem a existência de outros modelos de escolas que não as públicas e os que defendem a sua proibição. Estes últimos são uma pequena minoria. O grande debate a que agora se assiste está em quem deve pagar a existência e a frequência de escolas não públicas.

E aqui se esgrime o velho debate entre Igualdade e Liberdade. Como é óbvio não pode haver Igualdade sem Liberdade nem o contrário. E como também é óbvio a Democracia não pode viver sem os dois. Mas dentro do normal funcionamento Democrático, as diferentes opções tomam-se acerca de qual dos dois valores se quer defender mais.

Tomando o exemplo daquilo que nós já considerámos consensual na sociedade Portuguesa hodierna. Toda a gente concorda em alguma repressão da Liberdade dos pais ao tornar o ensino obrigatório em favor da Igualdade. Isto é assim porque há um consenso que a educação universal é condição sine qua non para igualdade de oportunidades. Também toda a gente concorda em reprimir um bocadinho mais a Liberdade ao ter de se pagar impostos para que mesmo os mais pobres tenham acesso a um ensino de qualidade. Mais uma vez, em prol da Igualdade. Por último, toda a gente concorda com uma certa diminuição da Igualdade ao permitir a existência de colégios com diferentes modelos de financiamento, dado que nem todos os poderão pagar. O contrário, todavia, seria altamente lesivo da Liberdade pelo que não se poderia admitir numa Democracia.

To be continued...

domingo, 29 de maio de 2016

Educação - diferentes opções I

No meu último post escrevi sobre duas premissas que considero basicamente consensuais na sociedade Portuguesa hodierna: que a educação deva ser obrigatória até certa idade e que deva ser acessível, com qualidade, a todas as bolsas.

Neste vou continuar a escrever sobre outra ideia que a maioria das pessoas concorda: a coexistência do ensino público com o privado e o cooperativo. Assim, ao lado do ensino público deve poder estar o ensino privado ou cooperativo. Ou até outro de que se não tem falado que é o ensino internacional - gerido por entidades públicas (estrangeiras) ou privadas que seguem modelos e línguas de ensino estrangeiras.

Mesmo assim, esta ideia já não é tão consensual como as anteriores. Na base da discordância está a ideia tida por uma pequena minoria de que todos devem ter uma educação igual que não seja moldada nem pelas condições económicas dos pais nem pelas suas convicções religiosas, ideológicas ou pedagógicas. Para estas pessoas todas as crianças e jovens devem receber uma educação igual pertencendo quaisquer convicções dos pais apenas à esfera privada familiar.

No entanto, como disse em cima, a grande maioria defende a possibilidade de coexistência de vários tipos de ensino. Na minha opinião: ainda bem!

Assim, a grande maioria dos Portugueses hodiernos concordará que se eu for Católico possa pôr os meus filhos num colégio Católico. Ou se eu for Muçulmano, ponha os meus filhos naquele que julgo ser o único colégio Islâmico do país, em Palmela.* Ou ainda, se eu gostar mais do modelo de educação do Colégio Moderno (pertencente à família Soares), do Liceu Francês, da Escola Alemã de Lisboa, etc. seja aí que ponha os meus filhos a estudar.

Este é um mínimo sobre o qual a maioria dos Portugueses concordam. Os colégios privados, cooperativos ou internacionais devem ter a liberdade de existir. Ainda estamos a falar de um consenso bastante alargado, já que, mais uma vez, ainda bem, quem julgue que todos as escolas não públicas e nacionais deviam fechar é uma pequena minoria.

* Confessando a minha ignorância, desconheço a existência de escolas de outras Igrejas Cristãs (a Escola Alemã começou por ser Evangélica mas já não é), Judaicas, Hindus ou outras.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Educação - o consenso

No que toca à polémica sobre reformas educativas, pode-se dizer que ainda a procissão vai no adro. dado que é uma matéria à qual dou especial importância, proponho-me a escrever aqui alguns posts sobre o assunto. É infinitesimamente possível que tragam algum contributo novo ao debate mas é muito mais provável que sejam chover no molhado. Enfim, ossos do ofício de blogger.

Hoje escrevo sobre um aspeto que, não sendo novo, tem sido esquecido no debate. É que há na sociedade Portuguesa um amplo consenso sobre dois pontos em especial deste debate:

1. O primeiro ponto é que a educação deve ser obrigatória até certa idade. Pelo menos nunca ouvi ou li alguém defender que nós todos, como comunidade, deveríamos dar a liberdade aos pais de decidir se permitem ou não que os seus filhos acedam a uma educação formal. Acho que há um amplo consenso em Portugal (Europa, Atlântico Norte...) que até certa idade as crianças e jovens devem ser enviados à escola.

2. O segundo ponto é que me parece também consensual que, para que seja obrigatória, a educação deve ser acessível a todas as bolsas. Mais do que isso, chocaria qualquer Português (qualquer pessoa bem formada) que as crianças não pudessem frequentar escolas de qualidade só porque os seus pais não têm condições financeiras para lhes proporcionar isso.

Pode parecer que estou a dizer verdades de La Pallice. No entanto, estas duas ideias nem sempre foram consensuais. Ainda há hoje no mundo quem não concorde com elas. Quem não concorde, por exemplo, que as raparigas devam ter acesso à mesma educação que os rapazes.

Os meus próximos posts sobre a matéria serão baseados em que este consenso existe. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Corpo de Deus

Hoje fui à procissão do Corpo de Deus, provavelmente o maior evento religioso anual na cidade de Lisboa. Ao longo de todo o percurso alinhavam-se o que terá sido com certeza milhares de fieis mais uns quantos milhares de turistas espantados a olhar para este exotismo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Let's go Dutch...

Uma das coisas que separa os diferentes povos desta União Europeia é a forma de pagamento das contas em refeições de grupos. Neste ponto, encontrei três formas que para efeitos de conveniência vou generalizar a três países: a Grega, a Portuguesa e a Holandesa.

GREGA
Chega o fim da refeição e um dos convivas agarra a conta furiosamente, declarando de forma emocional e muito sonora: "I PAY!" (Eu sei, os Gregos falam Grego, mas eu reporto-me a experiências observadas em Edimburgo, onde a malta fala em Inglês). Segue-se um coro de protestos dos demais convivas até que outro Grego lhe consegue sacar a conta da mão com um enfático "NO, I PAY!" O sacar a conta da mão não foi feito de forma amistosa mas sim como se aquela conta se tratasse de uma bola de râguebi e nós estivéssemos perante os All Blacks. Claro que nenhum dos convivas não-Gregos se oferece para pagar a conta inteira mas os Gregos degladiam-se por este "privilégio" durante alguns minutos. Passados alguns minutos de intensa algazarra (o que acontece sempre que Gregos estão presentes), os Gregos acabam por aceitar o método Holandês (ver em baixo).

PORTUGUESA
Chega ao fim da refeição e há sempre um engenheiro que pega na conta e declara quanto fica a divisão aritmética da conta. Sim, é certo que há sempre uns abusadores que pedem o que nunca pediriam se tivessem que pagar a conta sozinhos (já alguém notou o abuso do preço dos whiskies nos restaurantes?) e há aquelas meninas que comem uma saladinha de dieta e nem bebem álcool, mas algures na mentalidade Lusitana isso não parece ser injusto para ninguém.

HOLANDESA
Porque os Britânicos, ao quererem pagar, dizem "lets go Dutch!" Esta é a forma mais complicada matematicamente mas provavelmente a mais justa. Vai-se ver o que cada um comeu e cada um paga isso. Como é óbvio isso não serve para jantares de petiscos e há sempre o problema das coisas partilhadas (vinho, couvert, etc.).

Dependendo das situações, eu prefiro ou uma ou outra das três situações. Sim, já aconteceu eu fazer o papel de Grego, por muito que custe acreditar a todos aqueles que conhecem a minha natural parcimónia...

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Casa nova

Mudei de casa.
Comprei um magnífico palácio com quinta e tudo o mais no centro de Lisboa. Bem, talvez esteja a exagerar.. É mais uma casa com um jardim brutal. Bem, talvez isto também seja um exagero... É assim mais um apartamento de 75m2 de área bruta mesmo em frente a um jardim que eu chamo meu mas no fundo é público. Isso até dá jeito porque não tenho que pagar a manutenção do jardim e posso usá-lo como se fosse meu. No fundo, não vejo grandes vantagens em ter um jardim só para mim, tirando ir para lá nu apanhar banhos de sol mas isso podia provocar um cancro de pele, pelo que se eu não morrer aos 40 anos com um melanoma já sei que terá sido por o meu jardim ser público.

Ressurreição?

Ele há pessoas que me pediram para voltar a blogadissimar. Que eu já não blogadissimava há muito tempo, que o blogadíssimo estava moribundo, etc. Tive que fazer um balanço dos prós e contras de ressuscitar o blogadíssimo. E depois de muito balançar e quase ficar mareado, decidi que o bicho valia um esforço. Afinal de contas, já lá vão uns 13 anos desde que fundei o blogadíssimo. Sinto-me mal de o deixar morrer.
Sendo assim, este é o post da ressurreição!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Natal... Uma charada?

O Papa Francisco disse, de forma muito dura, que devido ao estado do mundo, entre guerras civis, terrorismo e milhares de refugiados, este Natal seria uma charada. E fui aí que eu me perguntei: "este Natal? Qual Natal?"
Quando há 2015 anos Jesus Cristo nasceu na Palestina, esta estava sob jugo estrangeiro. Bem sei que nos habituámos a pensar nos Romanos como "colonizadores benignos". E, de fato, eram. Um exemplo disso era que a sua nacionalidade não era rácica mas cultural: ao longo dos séculos os  povos colonizados que aceitavam a assimilação foram sendo adotados como nacionais Romanos. Para além disso há o direito, a arquitetura e esta língua que de forma deturpada é ainda hoje a língua mais falada do planeta, o Latim (através do Espanhol, Português, Francês, etc...).
No entanto, com todas as virtudes que ainda hoje exaltamos no Império Romano, não nos podemos esquecer que este era aumentado através de um exército que era o mais eficaz instrumento de guerra alguma vez criado.  Era mantido à custa da repressão dos que contra ele se levantavam (veja-se Barrabás). A escravatura era prática comum e eram os escravos que remavam as galés deste grande exército e mantinham os povos entretidos no circo. Por último, as penas no  sistema criminal eram humilhantes: tomemos o exemplo da crucificação...
Os maiores inimigos dos Romanos eram os Persas e as guerras entre os dois sucediam-se. E os Persas no seu território estavam longe de serem mais meigos que os Romanos. Também a Oriente, o Império Han comportava-se da mesma forma, atacando os seus vizinhos de forma muito pouco simpática. Não sei se há formas simpáticas de se fazer guerras de conquista... Estes são apenas exemplos de como há 2015 o mundo também estava mergulhado em guerra e sofrimento, provavelmente maior do que hoje.
No meio de todo este caos no mundo deu-se o Natal. O Natal é quando Deus se une à humanidade e se faz homem. Esta criança nascida na Palestina não nasceu numa altura de paz e conciliação. Nasceu, sim, quando a humanidade mais precisava do Seu nascimento. Hoje, como nessa altura, precisamos de celebrar o Natal para que nos lembremos desta história de amor de Deus pela humanidade e por toda a criação.
Então a que Natal se poderia estar o Papa a referir? A resposta é óbvia: o Natal do consumismo. O Natal que já começa a inundar as cidades com  montras recheadas e luzes... (Um pequeno aparte para lembrar que essas luzes consomem energia e é a energia que está na base dos conflitos no Médio Oriente). Desse Natal não precisamos. Até parece egoísmo fazê-lo. Mas do Natal do amor de Deus por nós... Desse precisamos tanto quanto sempre precisámos quando Jesus Cristo nasceu numa era tão ou mais atribulada que a nossa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Crise política

Obama, Putin, Cameron, Merkel, Dilma... Todos eles não me largam a querer saber qual a minha opinião sobre a crise política atual em Portugal. Ora, aqui vai ela a ver se eles me deixam em paz e eu consigo voltar à minha vidinha.
Ora, como é óbvio para qualquer destes líderes mundiais, bem como para quaisquer outros leitores deste humilíssimo blog, eu preferia que o duo Passos-Portas tivesse obtido uma maioria absoluta e pudesse prosseguir com o seu governo. Mesmo tendo em conta que o governo anterior tomou muitas medidas que eu não teria tomado caso o PFB (Partido do Fabuloso Blogadíssimo) estivesse no poder (aumentar impostos em tempo de crise! seriously? que  tal cortarem mais na despesa?), mesmo assim acho que fizeram um bom trabalho num mau período.
Só que a coligação no poder perdeu a maioria. Vai daí, a minha segunda escolha preferida era que esta coligação tivesse formado um entendimento com o outro partido democrático no Parlamento, o PS. O acordo podia ser uma coligação ou apenas um acordo parlamentar, o importante é que permitisse governar com estabilidade e de forma manterem-se a estabilidade interna e os compromissos internacionais de Portugal. No entanto, depois das eleições, nem uma semana foi necessária para se entender que o Dr. Costa nem morto aceitaria tal coisa.
Chegámos então à pior opção possível: o PS, partido que sempre defendeu uma democracia de estilo Ocidental, com economia de mercado e integrada na Europa e no espaço Atlântico foi-se colocar nas mãos dos lobos maus e vermelhos à sua esquerda. Os tais que se deliciam com pequenos almoços vindos do infantário.
Eu, o eterno otimista, mesmo assim não estou demasiado preocupado pelo futuro (até porque não tenho filhos a que os lobos esquerdunços possam deitar as patas ao acordar). E os motivos para tal são os seguintes:
O Estado está na miséria. Quer dizer, está menos na miséria do que estava há 4 anos, mas mesmo assim está miserável. Sendo assim, eles não o podem levar muito mais à miséria. Os nossos credores não vão permitir muito mais endividamento, pelo que a esquerda e a extrema esquerda têm um limite para poderem gastar. Nem que isso implique o regresso da troika. Falando nela:
- A troika governa-nos melhor que os nossos políticos nativos. Vejam que a maior parte das boas reformas que este governo fez foram impostas pela troika: direito laboral, arrendamento urbano, privatizações, etc. Ora, com o programa Costa-Centeno, modificado pelo BE e a CDU, em menos de um ano temos os nossos amigos do FMI, CE e BCE de regresso.
- Os dois partidos de extrema esquerda (2+1, se considerarmos o PEV um partido e não um apêndice do PCP) estão tão radiantes com chegarem à esfera do poder que não vão querer deixar cair o Santo António (Costa) do seu pedestal. Ao menos temos alguma estabilidade política... Bem sei que se eu fosse uma pessoa pessimista estaria a pensar que no Orçamento de Estado para 2017 o verniz já estala todo e o Costa terá então legitimidade para pedir uma maioria absoluta em eleições antecipadas. Mas eu não sou pessimista.
- O Euro está baixíssimo face ao US$ e à GB£. Isto tem a vantagem que as pessoas não vão começar já a tirar o dinheiro para as suas contas fora da zona €uro. Hummmm... O problema número 1 é que não custa nada tirar dinheiro para a zona €uro. O problema número 2 é que as minhas contas fora de Portugal estão na zona US$ ou na zona GB£. Ou seja, eu é que estou tramado. Lá se vai o otimismo...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Noite de insatisfação... Ou talvez não!

A minha primeira reação aos resultados de ontem à noite é que não pode ter havido quem tenha ficado satisfeito. Escrevo, é claro, acerca dos resultados eleitorais, não do resultado do Sporting, que deixou muita gente satisfeita.

Quem, como eu, queria a continuação de uma política de austeridade, quer dizer contenção da despesa pública e boa gestão dos nossos impostos, apenas ficaria satisfeita com uma maioria absoluta do PàF. Quando, com as primeiras projeções da UCP para a RTP se viu que os 116 eram o limite máximo e improvável, eu fiquei logo pessimista.

Quem, pelo contrário, barafusta contra a austeridade e quer ou um maior endividamento das gerações futuras ou uma subida de impostos para que o estado possa voltar ao regabofe pré-2011 também não ficou satisfeito. Afinal de contas o PàF manteve a maioria, mesmo que relativa.

Poder-se-ia dizer que o crescimento do Bloco de Esquerda teria agradado, ao menos, a esses Sryzicos Portugueses. Esses podiam sonhar um governo de coligação com o PS e a maior Helenização de Portugal. No entanto, dado que PS + BE juntos não atingem uma maioria absoluta e nem mesmo eles consideram possível levar um partido Estalinista como o PCP para o governo (espero eu que eles considerem isso), esse projeto bloquista também caiu por terra.

Mas ao longo da noite dois pontos positivos me foram fazendo mais otimista.

O primeiro ponto positivo é que a abstenção desceu muito. A abstenção é, normalmente, sinal de um completo desinteresse pelo gestão do bem comum. Digo normalmente porque como já aqui disse antes, tudo no nosso sistema eleitoral dificulta as pessoas votarem. Conheço muita gente que queria votar e não pode pelas mais variadas dificuldades. Mesmo assim, apesar das dificuldades, a abstenção caiu.

O segundo ponto positivo é que o Costa I, o radical extremista que afirmou que nunca aprovaria o programa de governo ou um orçamento de estado feito pela coligação PSD/CDS-PP, morreu na noite das eleições para renascer em seu lugar o Costa II que diz que, satisfeitas quatro condições pode negociar uma viabilização do governo. Nada como uma boa derrota para tornar as pessoas mais flexíveis.

Agora esperamos as conversações dentro dos partidos para que possa haver uma solução governativa para os próximos tempos. Dificilmente para os próximos quatro anos, mas enfim...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Uma Casa Comum: o Pressuposto II

Aquele leitor que ocasionalmente entra neste inteligentíssimo, fabulosíssimo mas, acima de tudo, humilíssimo blog por engano perguntou-me: "mas oh cidadão, então não será o pressuposto base da Encíclica estarmos a destruir a terra?"
Ora aqui está uma pertinentíssima pergunta. Sim, a Laudato Si menciona as opiniões científicas que demonstram que é a atividade humana que maximiza as alterações climáticas, leva à deterioração das águas e à perda da biodiversidade (Caps. II e III). Menciona também como isso afeta a vida de uma grande parte da humanidade, principalmente aquela que já era mais vulnerável à partida por não só ser pobre como nascer em países em desenvolvimento.
Mas eu vejo um problema nas teses científicas que demonstram que somos nós a destruir a terra, tesas que, já agora, considero que estão certas. O problema está antes em que quem rebate estas teses é normalmente identificado com sectores mais religiosos, nomeadamente dos EUA. Ora, o bom de trazer um pressuposto Bíblico para o centro da discussão, é que este muda o discurso. Não interessa então se o homem contribui ou não para as alterações climáticas. O que interessa é que o homem deve cuidar da terra como Deus cuida do homem.
Será, então, que isto quer dizer que a encíclica é só relevante para Cristãos? Não, não é. Aliás, o Papa Francisco começa por dizer que esta encíclica, ao contrário da sua encíclica anterior, a Evangelii gaudium, não é dirigida apenas aos Católicos mas a todas as pessoas de boa vontade (par. 3). Sendo assim, o pressuposto que eu escolhi para começar a minha série de posts sobre a Encíclica e a conferência a que assisti na Gulbenkian não é o único pressuposto da Encíclica. Esta tem também outros dois pressupostos. Um deles é o pressuposto científico de que é a humanidade quem mais contribuiu para o presente (mau) estado do planeta. O segundo é o pressuposto de equidade moral, sendo os mais marginalizados quem mais sofre com a destruição da terra, todos temos que fazer um esforço para parar essa destruição. Escreverei sobre estes mais à frente.

sábado, 12 de setembro de 2015

Uma Casa Comum: o pressuposto

Ontem fui a uma conferência sobre a última encíclica do Papa Francisco, a Laudato Si, na Fundação Calouste Gulbenkian. Esta foi organizada pela associação fundada pelas minhas "primas da Casa Velha". Muito de bom foi dito nesta conferência e na próxima semana vou tentar escrever aqui sobre a conferência e sobre a encíclica do Papa.
A Laudato Si parte de um pressuposto muito simples, que reflete lindamente o pensamento Cristão que se tem desenvolvido desde os tempos do Antigo Testamento. Esse pressuposto é que nós somos criaturas, o que quer dizer que fomos criados. Fomos criados à imagem e semelhança do nosso Criador, mas Ele não nos criou só a nós, mas a tudo o que nos rodeia. Isto quer dizer que nós fazemos parte de uma obra mais geral que temos, mais do que respeitar, amar.
Não amar a criação é não amar o Criador. Não cuidar dela, é desobedecer à Sua ordem: "dominai a terra". Ora "dominar" é uma palavra que vem do Latim Dominus,i (Senhor) e que quer dizer "ser senhor sobre". Nós, humanidade, devemos ser senhores sobre a terra como Deus é senhor sobre nós (a isso se chama ter sido criados à sua imagem e semelhança). E se Deus nos ama e quer o nosso melhor, é esse domínio que ele pede que exerçamos sobre a terra.
Dominar à maneira de Deus é diferente de dominar à maneira dos déspotas. Dominar à maneira dos déspotas é usar o domínio para proveito próprio sem que o destino do domínio inquiete o dominador. Dominar à imagem e semelhança de Deus é amar inteira e incondicionalmente o domínio. Se o nosso Criador cuida de nós, sabendo até quando um só dos nossos cabelos se perde, também nós devemos dominar assim a terra.
Assim, o pressuposto fundamental da Laudato Si, vem na continuação do que tem sido a doutrina da Igreja nos últimos dois milénios. Vem também na continuação do que os nossos "pais de Israel" desenvolveram no Antigo Testamento, nomeadamente no Deuteronómio. A terra foi dada em domínio à humanidade mas este domínio deve ser exercido como Deus exerce o seu domínio sobre a humanidade. Devemos cuidar dela, amá-la, preservá-la e, neste momento, restaura-la porque ela já está muito destruída.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Crónica de uma morte anunciada?

Fruto dos meus estudos recentes, muito tenho lido sobre a crise do €uro. Destas muitas leituras já concluí uma coisa: agora, no ano 2015 ou ainda em 2014 ou 2013, os autores são bastante unânimes em concordar que a moeda única estava inquinada à partida. Apontam para literatura dos anos 60 que desenvolviam o que seria uma união monetária perfeita. Citam autores Americanos tão diferentes como Krugman (Keynesiano) e Friedman (liberal) que diziam que nos moldes em que foi feita, a moeda única só podia dar errado.
Então e porquê? Porque é que que estas pessoas achavam que este projeto não podia dar certo? Basicamente porque a zona €uro não tinha três condições fundamentais:
1. É necessário que na zona haja perfeita circulação de fatores de produção. Ora na UE, por motivos culturais, linguísticos, etc. há muito pouca circulação de trabalhadores. Isso parece óbvio para quem vê os altíssimos níveis de desemprego em países como Espanha, Grécia e Portugal por oposição a baixíssimos níveis como na Áustria, na Alemanha ou até no Reino Unido.
2. É necessário que haja um orçamento comum que acorra às economias que sofram choques assimétricos. Ora o orçamento da UE é de cerca de 1% do PIB da UE.  Baixíssimo! Nem pouco mais ou menos dá para fazer este equilíbrio.
3. É necessário que haja alguma homogeneidade económica. Também isso não se verifica com enormes disparidades de rendimentos, produtividade e salários.
Se isto parece tão simples, o que me parece difícil de entender é só uma coisa: como é que nos inícios dos anos de 1990 se gerou uma unanimidade tão grande, em Portugal e em quase toda a UE sobre as vantagens da moeda única e de ser tudo feito a uma só velocidade?
Conclui que a ambição de uma Europa federal cegou os nossos políticos. Estes não se importaram de comprometer o nosso futuro económico (ou seja, o nosso presente).
Mas não conclui ainda o que se pode fazer agora. As minhas parcas noções de economia ainda não me permitiram chegar a respostas sobre o futuro. Mas começo a considerar que o que sempre considerei, que o erro que já fizemos tornar-se-ia ainda pior com uma saída do €uro, afinal pode não ser assim. Talvez (um talvez muito cuidadoso e cheio de dúvidas) uma saída do €uro fosse o menor dos males quer para os Portugueses, Espanhóis e Gregos que saíssem quer para os Alemães, Austríacos e Holandeses que ficassem.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ceticismo

Devo confessar que sou um cético em relação a todas as novas teorias de saúde, de vida, de educação que não têm a mínima relação com a minha experiência empírica. Eu sei, sou um conservador.
Claro que por vezes (bastantes vezes até) me engano. Mas muitas mais vezes se vem a provar que afinal "os antigos é que sabiam". Os antigos diziam que se devia comer de tudo. Os modernos cortam nas mais variadas coisas que sempre comemos substituindo-as pelas coisas mais estapafúrdias substâncias que alguma suposta tribo da Amazónia ou antiga civilização extinta entre os Rios Tigre e Eufrates sempre comeram. Normalmente umas sementes sem sabor nenhum cujo único efeito é levar-nos mais vezes à casa de banho.
Vem este texto a propósito deste vídeo do TedX. Este senhor vem dizer umas coisas como se fossem muito novas mas estas mais não são do que o regresso às teorias antigas combatidas durante décadas. Note-se que eu concordo com ele a 100%. Apenas acho que estamos perante mais uma saudável tentativa de regresso ao passado.
Que as crianças precisam de estar "lá fora" parece-me uma coisa óbvia. Já nos idos de 80 o meu pai, que está longe de ser a pessoa mais moderna no mundo, todos os fins-de-semana nos levava aos jardins (zoológico, da Estrela, etc.) ou a algum lugar perto da natureza. As férias eram passadas entre a praia e o campo para ter "um bocadinho de tudo".
Que as crianças precisam de autoridade e de comer coisas variadas e saudáveis também não me é estranho. Passei a infância a ouvir "quem não gosta come mais". Bem como, é claro, a ouvir que a cenoura era boa para os olhos, o peixe e a carne para crescer, os espinafres para ficar forte como o Popeye e sei lá que mais teorias sobre tudo o que vinha à mesa.
Já outro vem dizer outra coisa que não é nova: deem tempo e espaço às crianças para serem crianças.
Afinal... Alguma coisa do que eles dizem é  novo? Nada!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Os parlamentos e a UE


No Reino Unido muito se tem debatido sobre a relação entre as instituições nacionais e as Europeias (veja-se a título de exemplo, este muito bom relatório do CER). Os Britânicos preocupam-se, nomeadamente, com o papel do seu parlamento na actividade legislativa das instituições Europeias. Esta preocupação é perfeitamente compreensível tendo em conta a importância de Westminster no sistema constitucional Britânico. Afinal de contas, é no parlamento que reside a soberania do povo.

Dito assim parece quase que não há grande diferença entre o Reino Unido e Portugal. Tal, no entanto, é errado. Dizer-se que a soberania reside no Parlamento quer dizer que este tem o poder legislativo livre das amarras constitucionais que prendem o legislador Português. Claro que há princípios fundamentais que o parlamento não pode revogar de um momento para o outro. Mas pode ir mudando de acordo com a vontade da maioria parlamentar.

Mesmo que o sistema constitucional Português não reconheça a mesma importância fulcral ao seu parlamento (a AR), não seria mal avisado que nós também tivéssemos este debate. Parece fulcral nos dias que correm, aproximar as instituições da UE e o seu trabalho dos povos da Europa. Sendo assim, nada mais natural do levar as questões da UE às casas que representam os povos da Europa, os seus parlamentos.

Um exemplo óbvio é o actual resgate à Grécia. Este foi decidido numa maratona negocial em Bruxelas pelos chefes de estado e governos, pelo chamado “Eurogrupo”, BCE, etc. Todos estas instituições têm, obviamente, alguma legitimidade democrática. Mas se o assunto não for debatido no Parlamento pelos partidos que representam diferentes sensibilidades políticas nacionais, como é que os cidadãos (cujo dinheiro irá ser direccionado para este resgate) poderão entender as vantagens e desvantagens do mesmo bem como a real posição dos partidos em relação a ele?

Tornar os parlamentos nacionais como casa do debate sobre as questões Euroopeias, é trazer a UE para o seio dos povos que a compõem. Reservar todas as informações a umas declarações numas conferências de imprensa que dão a decisão por consumada, independentemente da opinião dos representantes dos cidadãos, leva ao cada vez maior divórcio entre as instituições e os povos da União Europeia.