Certos amigos de longa data, que já conhecem bem os meus traumas de infância, consideram uma falta de respeito pelos meus estimadíssimos leitores eu nunca aqui ter escrito sobre a Augusta e o Augusto, personagens que se relacionam directamente com o meu maior trauma de infância...
Comecemos então pelo princípio da estória.
Como qualquer criança saudável e normal, eu era perdido por animais: não podia ver um à frente que queria logo ter. Mil vezes um animal a um saco de 20Kgs de doces! Queria ser veterinário, queria ser São Francisco d'Assiz, queria ser qualquer coisa que fosse ligada a animais...
Sabendo disto o meu Tio Zé Manel, por ocasião da minha Primeira Comunhão, deu-me uma lindíssima hamster dourada que eu baptizei (sim, com água e tudo que eu não queria lá gentios a viver em casa) com o nome de Augusta.
Ora eu tinha pela Augusta um amor como de um pai por uma filha. Enquanto estudava, lia ou via televisão, a Augusta passeava-se alegremente pelos meus ombros. Se eu ia de férias, fosse para a Figueira da Foz, fosse para a Mesquitela, fosse para onde quer que fosse, a Augusta ia sempre comigo. Certa vez na Figueira ela fez um cortezinho na orelha o que deu convulsão geral e direito à consulta de um veterinário que me tranquilizou, dizendo-me que ela ia sobreviver.
Ora, certo Natal fui para Ourém, como em todos os Natais, e deixei a Augusta em Lisboa. Era só por um dia e ela tinha uma quente bota de lã que a minha Tia Loló tinha feito para mim e que já não me servia, mas que dava para uma bela cama para a Augusta. Tinha água, comida... Tinha tudo!
Fui descansado mas quando no dia seguinte voltei a Augusta estava estática, fria, não se mexia nem respirava... Eu tentei tudo, desde massagens cardíacas a respiração boca-a-focinho mas nada funcionou. O golpe neste coração de pai fui rudíssimo, mas ainda consegui compor um poema e improvisar um caixão com uma caixa de sapatos para enterrar a pobre Augusta no quintal. Pus-lhe uma cruz por cima, para mostrar bem que ali estava um animal baptizado, e deixei o poema como epitáfio.
Como a estória é longa, terei que acabar noutra ocasião, ou ainda sou despedido por incumprir os meus deveres laborais!











