Tinha chegado há pouco tempo ao Zimbábue quando me foi proferido um ditado local: "os europeus são donos dos relógios e os africanos são donos do tempo." Vou confessar que, na altura, isto pareceu-me uma tentativa de desculpa romântica para os constantes atrasos dos africanos. Afinal de contas, pensei eu, o tempo é uma coisa que se partilha: quanto mais do "meu tempo" eu retiver, menos tempo eu concederei ao outro.
Ao fim de três anos e tal no Continente, começo a ver que não é bem como eu tinha inicialmente julgado. Não é fora de comum chegar a casa de amigos africanos à hora marcada e nada estar preparado. Para além disso, seremos os primeiros a chegar e esperaremos por todos os demais. No entanto, isso não é uma espécie de "egoísmo temporal" porque a chegada é só o início do muito tempo que estaremos juntos. Teremos mesmo tempo para conviver, debater, comer, beber... Tempo não faltará a ninguém.
Ser pai de um recém nascido põe toda a questão do tempo em perspetiva. Mais do que qualquer africano neste enorme continente, o recém-nascido é dono do tempo. O tempo de mamar é o seu tempo e pode demorar 15 como pode demorar 50 minutos. O tempo de adormecer também é seu: às vezes a questão está despachada em 10 minutos, outras vezes o primeiro endormecimento é apenas o primeiro de muitos. Nestes casos, os pais lá terão de voltar uma e outra vez a embalar até que este decida adormecer.
Mas não será isso uma intromissão no tempo dos pais? Qualquer mãe ou pai responderá a esta pergunta com outra pergunta: qual tempo dos pais? Eu prefiro perguntar: mas há alguma coisa mais importante neste momento que alimentar ou adormecer o bébé? E das profundezas da minha falta de experiência como pai, vem esta conclusão: não, nada é mais importante do que isso.
Pelo menos, por enquanto, durante a licença de paternidade. E sobre este ponto, há que louvar o legislador português que, recentemente, decidiu aumentar o tempo que os pais podem destinar aos filhos. Os pais agradecem poderem ter estes 25 dias úteis dedicados exclusivamente ao recém nascido (mais um mês no fim da licença da mãe, caso a mãe trabalhasse, o que não é o caso neste momento). Parece-me que as mães agradecerão tanto quanto os pais - francamente, não sei como seria possível a sucessão de períodos de amamentação, seguidos dos períodos de endormecimento sem descanso. Por último, parece-me que daqui a muitos anos, os agora recém nascidos também agradecerão a ligação aos pais, que as gerações que os precederam não tiveram direito.
E agora, tenho de ir dar tempo à MM, que acaba de acordar... Acaba-se o post!