segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Natal... Uma charada?

O Papa Francisco disse, de forma muito dura, que devido ao estado do mundo, entre guerras civis, terrorismo e milhares de refugiados, este Natal seria uma charada. E fui aí que eu me perguntei: "este Natal? Qual Natal?"
Quando há 2015 anos Jesus Cristo nasceu na Palestina, esta estava sob jugo estrangeiro. Bem sei que nos habituámos a pensar nos Romanos como "colonizadores benignos". E, de fato, eram. Um exemplo disso era que a sua nacionalidade não era rácica mas cultural: ao longo dos séculos os  povos colonizados que aceitavam a assimilação foram sendo adotados como nacionais Romanos. Para além disso há o direito, a arquitetura e esta língua que de forma deturpada é ainda hoje a língua mais falada do planeta, o Latim (através do Espanhol, Português, Francês, etc...).
No entanto, com todas as virtudes que ainda hoje exaltamos no Império Romano, não nos podemos esquecer que este era aumentado através de um exército que era o mais eficaz instrumento de guerra alguma vez criado.  Era mantido à custa da repressão dos que contra ele se levantavam (veja-se Barrabás). A escravatura era prática comum e eram os escravos que remavam as galés deste grande exército e mantinham os povos entretidos no circo. Por último, as penas no  sistema criminal eram humilhantes: tomemos o exemplo da crucificação...
Os maiores inimigos dos Romanos eram os Persas e as guerras entre os dois sucediam-se. E os Persas no seu território estavam longe de serem mais meigos que os Romanos. Também a Oriente, o Império Han comportava-se da mesma forma, atacando os seus vizinhos de forma muito pouco simpática. Não sei se há formas simpáticas de se fazer guerras de conquista... Estes são apenas exemplos de como há 2015 o mundo também estava mergulhado em guerra e sofrimento, provavelmente maior do que hoje.
No meio de todo este caos no mundo deu-se o Natal. O Natal é quando Deus se une à humanidade e se faz homem. Esta criança nascida na Palestina não nasceu numa altura de paz e conciliação. Nasceu, sim, quando a humanidade mais precisava do Seu nascimento. Hoje, como nessa altura, precisamos de celebrar o Natal para que nos lembremos desta história de amor de Deus pela humanidade e por toda a criação.
Então a que Natal se poderia estar o Papa a referir? A resposta é óbvia: o Natal do consumismo. O Natal que já começa a inundar as cidades com  montras recheadas e luzes... (Um pequeno aparte para lembrar que essas luzes consomem energia e é a energia que está na base dos conflitos no Médio Oriente). Desse Natal não precisamos. Até parece egoísmo fazê-lo. Mas do Natal do amor de Deus por nós... Desse precisamos tanto quanto sempre precisámos quando Jesus Cristo nasceu numa era tão ou mais atribulada que a nossa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Crise política

Obama, Putin, Cameron, Merkel, Dilma... Todos eles não me largam a querer saber qual a minha opinião sobre a crise política atual em Portugal. Ora, aqui vai ela a ver se eles me deixam em paz e eu consigo voltar à minha vidinha.
Ora, como é óbvio para qualquer destes líderes mundiais, bem como para quaisquer outros leitores deste humilíssimo blog, eu preferia que o duo Passos-Portas tivesse obtido uma maioria absoluta e pudesse prosseguir com o seu governo. Mesmo tendo em conta que o governo anterior tomou muitas medidas que eu não teria tomado caso o PFB (Partido do Fabuloso Blogadíssimo) estivesse no poder (aumentar impostos em tempo de crise! seriously? que  tal cortarem mais na despesa?), mesmo assim acho que fizeram um bom trabalho num mau período.
Só que a coligação no poder perdeu a maioria. Vai daí, a minha segunda escolha preferida era que esta coligação tivesse formado um entendimento com o outro partido democrático no Parlamento, o PS. O acordo podia ser uma coligação ou apenas um acordo parlamentar, o importante é que permitisse governar com estabilidade e de forma manterem-se a estabilidade interna e os compromissos internacionais de Portugal. No entanto, depois das eleições, nem uma semana foi necessária para se entender que o Dr. Costa nem morto aceitaria tal coisa.
Chegámos então à pior opção possível: o PS, partido que sempre defendeu uma democracia de estilo Ocidental, com economia de mercado e integrada na Europa e no espaço Atlântico foi-se colocar nas mãos dos lobos maus e vermelhos à sua esquerda. Os tais que se deliciam com pequenos almoços vindos do infantário.
Eu, o eterno otimista, mesmo assim não estou demasiado preocupado pelo futuro (até porque não tenho filhos a que os lobos esquerdunços possam deitar as patas ao acordar). E os motivos para tal são os seguintes:
O Estado está na miséria. Quer dizer, está menos na miséria do que estava há 4 anos, mas mesmo assim está miserável. Sendo assim, eles não o podem levar muito mais à miséria. Os nossos credores não vão permitir muito mais endividamento, pelo que a esquerda e a extrema esquerda têm um limite para poderem gastar. Nem que isso implique o regresso da troika. Falando nela:
- A troika governa-nos melhor que os nossos políticos nativos. Vejam que a maior parte das boas reformas que este governo fez foram impostas pela troika: direito laboral, arrendamento urbano, privatizações, etc. Ora, com o programa Costa-Centeno, modificado pelo BE e a CDU, em menos de um ano temos os nossos amigos do FMI, CE e BCE de regresso.
- Os dois partidos de extrema esquerda (2+1, se considerarmos o PEV um partido e não um apêndice do PCP) estão tão radiantes com chegarem à esfera do poder que não vão querer deixar cair o Santo António (Costa) do seu pedestal. Ao menos temos alguma estabilidade política... Bem sei que se eu fosse uma pessoa pessimista estaria a pensar que no Orçamento de Estado para 2017 o verniz já estala todo e o Costa terá então legitimidade para pedir uma maioria absoluta em eleições antecipadas. Mas eu não sou pessimista.
- O Euro está baixíssimo face ao US$ e à GB£. Isto tem a vantagem que as pessoas não vão começar já a tirar o dinheiro para as suas contas fora da zona €uro. Hummmm... O problema número 1 é que não custa nada tirar dinheiro para a zona €uro. O problema número 2 é que as minhas contas fora de Portugal estão na zona US$ ou na zona GB£. Ou seja, eu é que estou tramado. Lá se vai o otimismo...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Noite de insatisfação... Ou talvez não!

A minha primeira reação aos resultados de ontem à noite é que não pode ter havido quem tenha ficado satisfeito. Escrevo, é claro, acerca dos resultados eleitorais, não do resultado do Sporting, que deixou muita gente satisfeita.

Quem, como eu, queria a continuação de uma política de austeridade, quer dizer contenção da despesa pública e boa gestão dos nossos impostos, apenas ficaria satisfeita com uma maioria absoluta do PàF. Quando, com as primeiras projeções da UCP para a RTP se viu que os 116 eram o limite máximo e improvável, eu fiquei logo pessimista.

Quem, pelo contrário, barafusta contra a austeridade e quer ou um maior endividamento das gerações futuras ou uma subida de impostos para que o estado possa voltar ao regabofe pré-2011 também não ficou satisfeito. Afinal de contas o PàF manteve a maioria, mesmo que relativa.

Poder-se-ia dizer que o crescimento do Bloco de Esquerda teria agradado, ao menos, a esses Sryzicos Portugueses. Esses podiam sonhar um governo de coligação com o PS e a maior Helenização de Portugal. No entanto, dado que PS + BE juntos não atingem uma maioria absoluta e nem mesmo eles consideram possível levar um partido Estalinista como o PCP para o governo (espero eu que eles considerem isso), esse projeto bloquista também caiu por terra.

Mas ao longo da noite dois pontos positivos me foram fazendo mais otimista.

O primeiro ponto positivo é que a abstenção desceu muito. A abstenção é, normalmente, sinal de um completo desinteresse pelo gestão do bem comum. Digo normalmente porque como já aqui disse antes, tudo no nosso sistema eleitoral dificulta as pessoas votarem. Conheço muita gente que queria votar e não pode pelas mais variadas dificuldades. Mesmo assim, apesar das dificuldades, a abstenção caiu.

O segundo ponto positivo é que o Costa I, o radical extremista que afirmou que nunca aprovaria o programa de governo ou um orçamento de estado feito pela coligação PSD/CDS-PP, morreu na noite das eleições para renascer em seu lugar o Costa II que diz que, satisfeitas quatro condições pode negociar uma viabilização do governo. Nada como uma boa derrota para tornar as pessoas mais flexíveis.

Agora esperamos as conversações dentro dos partidos para que possa haver uma solução governativa para os próximos tempos. Dificilmente para os próximos quatro anos, mas enfim...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Uma Casa Comum: o Pressuposto II

Aquele leitor que ocasionalmente entra neste inteligentíssimo, fabulosíssimo mas, acima de tudo, humilíssimo blog por engano perguntou-me: "mas oh cidadão, então não será o pressuposto base da Encíclica estarmos a destruir a terra?"
Ora aqui está uma pertinentíssima pergunta. Sim, a Laudato Si menciona as opiniões científicas que demonstram que é a atividade humana que maximiza as alterações climáticas, leva à deterioração das águas e à perda da biodiversidade (Caps. II e III). Menciona também como isso afeta a vida de uma grande parte da humanidade, principalmente aquela que já era mais vulnerável à partida por não só ser pobre como nascer em países em desenvolvimento.
Mas eu vejo um problema nas teses científicas que demonstram que somos nós a destruir a terra, tesas que, já agora, considero que estão certas. O problema está antes em que quem rebate estas teses é normalmente identificado com sectores mais religiosos, nomeadamente dos EUA. Ora, o bom de trazer um pressuposto Bíblico para o centro da discussão, é que este muda o discurso. Não interessa então se o homem contribui ou não para as alterações climáticas. O que interessa é que o homem deve cuidar da terra como Deus cuida do homem.
Será, então, que isto quer dizer que a encíclica é só relevante para Cristãos? Não, não é. Aliás, o Papa Francisco começa por dizer que esta encíclica, ao contrário da sua encíclica anterior, a Evangelii gaudium, não é dirigida apenas aos Católicos mas a todas as pessoas de boa vontade (par. 3). Sendo assim, o pressuposto que eu escolhi para começar a minha série de posts sobre a Encíclica e a conferência a que assisti na Gulbenkian não é o único pressuposto da Encíclica. Esta tem também outros dois pressupostos. Um deles é o pressuposto científico de que é a humanidade quem mais contribuiu para o presente (mau) estado do planeta. O segundo é o pressuposto de equidade moral, sendo os mais marginalizados quem mais sofre com a destruição da terra, todos temos que fazer um esforço para parar essa destruição. Escreverei sobre estes mais à frente.

sábado, 12 de setembro de 2015

Uma Casa Comum: o pressuposto

Ontem fui a uma conferência sobre a última encíclica do Papa Francisco, a Laudato Si, na Fundação Calouste Gulbenkian. Esta foi organizada pela associação fundada pelas minhas "primas da Casa Velha". Muito de bom foi dito nesta conferência e na próxima semana vou tentar escrever aqui sobre a conferência e sobre a encíclica do Papa.
A Laudato Si parte de um pressuposto muito simples, que reflete lindamente o pensamento Cristão que se tem desenvolvido desde os tempos do Antigo Testamento. Esse pressuposto é que nós somos criaturas, o que quer dizer que fomos criados. Fomos criados à imagem e semelhança do nosso Criador, mas Ele não nos criou só a nós, mas a tudo o que nos rodeia. Isto quer dizer que nós fazemos parte de uma obra mais geral que temos, mais do que respeitar, amar.
Não amar a criação é não amar o Criador. Não cuidar dela, é desobedecer à Sua ordem: "dominai a terra". Ora "dominar" é uma palavra que vem do Latim Dominus,i (Senhor) e que quer dizer "ser senhor sobre". Nós, humanidade, devemos ser senhores sobre a terra como Deus é senhor sobre nós (a isso se chama ter sido criados à sua imagem e semelhança). E se Deus nos ama e quer o nosso melhor, é esse domínio que ele pede que exerçamos sobre a terra.
Dominar à maneira de Deus é diferente de dominar à maneira dos déspotas. Dominar à maneira dos déspotas é usar o domínio para proveito próprio sem que o destino do domínio inquiete o dominador. Dominar à imagem e semelhança de Deus é amar inteira e incondicionalmente o domínio. Se o nosso Criador cuida de nós, sabendo até quando um só dos nossos cabelos se perde, também nós devemos dominar assim a terra.
Assim, o pressuposto fundamental da Laudato Si, vem na continuação do que tem sido a doutrina da Igreja nos últimos dois milénios. Vem também na continuação do que os nossos "pais de Israel" desenvolveram no Antigo Testamento, nomeadamente no Deuteronómio. A terra foi dada em domínio à humanidade mas este domínio deve ser exercido como Deus exerce o seu domínio sobre a humanidade. Devemos cuidar dela, amá-la, preservá-la e, neste momento, restaura-la porque ela já está muito destruída.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Crónica de uma morte anunciada?

Fruto dos meus estudos recentes, muito tenho lido sobre a crise do €uro. Destas muitas leituras já concluí uma coisa: agora, no ano 2015 ou ainda em 2014 ou 2013, os autores são bastante unânimes em concordar que a moeda única estava inquinada à partida. Apontam para literatura dos anos 60 que desenvolviam o que seria uma união monetária perfeita. Citam autores Americanos tão diferentes como Krugman (Keynesiano) e Friedman (liberal) que diziam que nos moldes em que foi feita, a moeda única só podia dar errado.
Então e porquê? Porque é que que estas pessoas achavam que este projeto não podia dar certo? Basicamente porque a zona €uro não tinha três condições fundamentais:
1. É necessário que na zona haja perfeita circulação de fatores de produção. Ora na UE, por motivos culturais, linguísticos, etc. há muito pouca circulação de trabalhadores. Isso parece óbvio para quem vê os altíssimos níveis de desemprego em países como Espanha, Grécia e Portugal por oposição a baixíssimos níveis como na Áustria, na Alemanha ou até no Reino Unido.
2. É necessário que haja um orçamento comum que acorra às economias que sofram choques assimétricos. Ora o orçamento da UE é de cerca de 1% do PIB da UE.  Baixíssimo! Nem pouco mais ou menos dá para fazer este equilíbrio.
3. É necessário que haja alguma homogeneidade económica. Também isso não se verifica com enormes disparidades de rendimentos, produtividade e salários.
Se isto parece tão simples, o que me parece difícil de entender é só uma coisa: como é que nos inícios dos anos de 1990 se gerou uma unanimidade tão grande, em Portugal e em quase toda a UE sobre as vantagens da moeda única e de ser tudo feito a uma só velocidade?
Conclui que a ambição de uma Europa federal cegou os nossos políticos. Estes não se importaram de comprometer o nosso futuro económico (ou seja, o nosso presente).
Mas não conclui ainda o que se pode fazer agora. As minhas parcas noções de economia ainda não me permitiram chegar a respostas sobre o futuro. Mas começo a considerar que o que sempre considerei, que o erro que já fizemos tornar-se-ia ainda pior com uma saída do €uro, afinal pode não ser assim. Talvez (um talvez muito cuidadoso e cheio de dúvidas) uma saída do €uro fosse o menor dos males quer para os Portugueses, Espanhóis e Gregos que saíssem quer para os Alemães, Austríacos e Holandeses que ficassem.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ceticismo

Devo confessar que sou um cético em relação a todas as novas teorias de saúde, de vida, de educação que não têm a mínima relação com a minha experiência empírica. Eu sei, sou um conservador.
Claro que por vezes (bastantes vezes até) me engano. Mas muitas mais vezes se vem a provar que afinal "os antigos é que sabiam". Os antigos diziam que se devia comer de tudo. Os modernos cortam nas mais variadas coisas que sempre comemos substituindo-as pelas coisas mais estapafúrdias substâncias que alguma suposta tribo da Amazónia ou antiga civilização extinta entre os Rios Tigre e Eufrates sempre comeram. Normalmente umas sementes sem sabor nenhum cujo único efeito é levar-nos mais vezes à casa de banho.
Vem este texto a propósito deste vídeo do TedX. Este senhor vem dizer umas coisas como se fossem muito novas mas estas mais não são do que o regresso às teorias antigas combatidas durante décadas. Note-se que eu concordo com ele a 100%. Apenas acho que estamos perante mais uma saudável tentativa de regresso ao passado.
Que as crianças precisam de estar "lá fora" parece-me uma coisa óbvia. Já nos idos de 80 o meu pai, que está longe de ser a pessoa mais moderna no mundo, todos os fins-de-semana nos levava aos jardins (zoológico, da Estrela, etc.) ou a algum lugar perto da natureza. As férias eram passadas entre a praia e o campo para ter "um bocadinho de tudo".
Que as crianças precisam de autoridade e de comer coisas variadas e saudáveis também não me é estranho. Passei a infância a ouvir "quem não gosta come mais". Bem como, é claro, a ouvir que a cenoura era boa para os olhos, o peixe e a carne para crescer, os espinafres para ficar forte como o Popeye e sei lá que mais teorias sobre tudo o que vinha à mesa.
Já outro vem dizer outra coisa que não é nova: deem tempo e espaço às crianças para serem crianças.
Afinal... Alguma coisa do que eles dizem é  novo? Nada!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Os parlamentos e a UE


No Reino Unido muito se tem debatido sobre a relação entre as instituições nacionais e as Europeias (veja-se a título de exemplo, este muito bom relatório do CER). Os Britânicos preocupam-se, nomeadamente, com o papel do seu parlamento na actividade legislativa das instituições Europeias. Esta preocupação é perfeitamente compreensível tendo em conta a importância de Westminster no sistema constitucional Britânico. Afinal de contas, é no parlamento que reside a soberania do povo.

Dito assim parece quase que não há grande diferença entre o Reino Unido e Portugal. Tal, no entanto, é errado. Dizer-se que a soberania reside no Parlamento quer dizer que este tem o poder legislativo livre das amarras constitucionais que prendem o legislador Português. Claro que há princípios fundamentais que o parlamento não pode revogar de um momento para o outro. Mas pode ir mudando de acordo com a vontade da maioria parlamentar.

Mesmo que o sistema constitucional Português não reconheça a mesma importância fulcral ao seu parlamento (a AR), não seria mal avisado que nós também tivéssemos este debate. Parece fulcral nos dias que correm, aproximar as instituições da UE e o seu trabalho dos povos da Europa. Sendo assim, nada mais natural do levar as questões da UE às casas que representam os povos da Europa, os seus parlamentos.

Um exemplo óbvio é o actual resgate à Grécia. Este foi decidido numa maratona negocial em Bruxelas pelos chefes de estado e governos, pelo chamado “Eurogrupo”, BCE, etc. Todos estas instituições têm, obviamente, alguma legitimidade democrática. Mas se o assunto não for debatido no Parlamento pelos partidos que representam diferentes sensibilidades políticas nacionais, como é que os cidadãos (cujo dinheiro irá ser direccionado para este resgate) poderão entender as vantagens e desvantagens do mesmo bem como a real posição dos partidos em relação a ele?

Tornar os parlamentos nacionais como casa do debate sobre as questões Euroopeias, é trazer a UE para o seio dos povos que a compõem. Reservar todas as informações a umas declarações numas conferências de imprensa que dão a decisão por consumada, independentemente da opinião dos representantes dos cidadãos, leva ao cada vez maior divórcio entre as instituições e os povos da União Europeia.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Coisas sobre as eleições Britânicas II

Já li umas coisas na imprensa Portuguesa que demonstram algum desconhecimento sobre o sistema eleitoral Britânico. Esse é perfeitamente natural dado que é um sistema completamente diferente do nosso...
Num bom artigo do meu antigo professor de história do constitucionalismo Português, este estranha que com 4,8%, o SNP tenha tido 56 deputados e com 12,6% o UKIP tenha tido apenas um deputado. Mas não há nada que estranhar. O SNP apenas se candidata pela Escócia onde vive apenas 8% da população do Reino Unido. Aí teve 50% do resultado final.
Como eu escrevi ontem, com o sistema "first past the post", esses 50% traduziram-se em 56 dos 59 deputados Britânicos. Os outros três foram distribuídos pelos três maiores partidos nacionais: Trabalhistas, Conservadores e Liberais Democratas.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Coisas sobre as eleições Britânicas

Hoje estão a acontecer as eleições Britânicas. Nelas vai ser eleito o Parlamento que, tal como em Portugal, é quem elege o governo. No entanto, há muitas peculiaridades nas eleições neste país:
1. Ao contrário dos outros países cujos sistemas eu conheço, os membros do governo aqui são escolhidos de entre os deputados (ou pares) e mantém o seu lugar no Parlamento (ou na Câmara dos Pares).
2. Cada deputado é eleito por um círculo de apenas um deputado e apenas precisa de ter mais um voto do que o segundo mais votado (first past the post).
3. O que foi dito em 1. pode parecer um pouco estranho mas tem uma justificação. Se o ministro perdesse o seu lugar no Parlamento, teria de haver novas eleições para esse círculo porque apenas um deputado foi eleito.
4. O Parlamento que todos os visitantes de Londres tão bem conhecem está em Westminster. Mas para além desse Parlamento há um outro só para a Escócia (apenas dez minutos a pé de onde este vosso humilde servo escreve e, na humilde opinião do humilde servo, o 2º edifício mais feio do mundo depois do Casino Grand Lisboa em Macau), uma assembleia só para Gales e outra só para a Irlanda do Norte. Westminster serve ao mesmo tempo como Parlamento de todo Reino e Parlamento apenas da Inglaterra nos assuntos que estão confiados aos outros Parlamentos. Confuso, certo? Esta malta não gosta de facilitar... Dar um jeitinho? Nãããããã...

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Miró: obras públicas ou privadas?

Debate-se agora se as 85 obras de Miró que iam ser leiloadas em Londres eram públicas ou privadas. Pode-se ler sobre este debate aqui e aqui. Depois de neste fim de semana passado em Barcelona ter tido a oportunidade de visitar o Museu Miró de lá, eu prefiro debater sobre se elas deviam ser públicas ou não. Devo já dizer que considero que sim.
Em primeiro lugar há a questão política. Ainda hoje me custa entender que o BPN tenha sido nacionalizado da forma que foi. Ora, já que os contribuintes foram penalizados com o péssimo procedimento, ao menos que agora usufruam de alguns benefícios deste.
Em segundo lugar, parece-me óbvio que manter a coleção em Portugal traria muitos benefícios para o país. 85 obras de um dos maiores artistas contemporâneos, mesmo que sejam de qualidades variáveis, constituiriam um bom espólio. Um Museu Miró numa cidade com potencial turístico ainda em desenvolvimento (por exemplo Santarém, Viseu ou Braga) poderia servir de chamariz turístico. Em alternativa podia-se espalhar as obras por diferentes museus de arte contemporânea.
Em terceiro lugar Portugal está já há uns anos a afirmar-se como um destino com mais do que sol e mar. Isto passa pela imagem de um país cosmopolita nas artes mas para isso há que investir. Dado que temos pouca capacidade para o mecenato em Portugal isso tem de ser feito, como já tem sido feito desde os Descobrimentos, pelo Estado.
Por último, o benefício da venda das obras agora duraria o tempo de um orçamento de estado. O benefício da sua manutenção em Portugal estender-se-ia às gerações futuras. Dado que, assim como assim, as gerações futuras já estarão economicamente encalacradas graças à presente e anteriores gerações, ao menos que tenham alguns benefícios culturais.
Por tudo isto apelo ao governo que em vez de insistir naquilo que foi obviamente um erro, vender este espólio, corrija este erro com uma boa decisão: tratar da sua exposição ao público. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Origem do Conto do Vigário

Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.» «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar. Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido. Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem. Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.
Contado por Fernando Pessoa.
(publicado pela primeira vez no diário Sol, Lisboa, ano I, nº 1, de 30/10/1926, com o título de «Um Grande Português». Foi publicado depois no Notícias Ilustrado, 2ª série, Lisboa, 18/08/1929, com o título de «A Origem do Conto do Vigário».)

domingo, 11 de janeiro de 2015

Prece - Amália Rodrigues

Não conhecia este fado da Amália. Foi-me agora referido por um ex-aluno (hoje amigo) de Macau. A letra é tao bonita! Como é que eu não conhecia isto?