sábado, 26 de outubro de 2019

Festival de Cinema Europeu

Que barrigada de cinema! Cinco dias de Festival de Cinema Europeu, 5 filmes que eu vi de diferentes nacionalidades. Infelizmente, também 5 filmes a que faltei... O tempo não dá para tudo.
O festival abriu em grande com um filme Espanhol genial - Campeones. Conta a história verídica de um treinador de basquetebol que é condenado em tribunal a trabalho comunitário - treinar uma equipa de pessoas com deficiência mental. Foi um filme ao mesmo tempo verdadeiramente emocionante mas também leve e engraçado. Não há dúvida que "nuestros hermanos" já há umas boas décadas que conseguem fazer filmes com grande qualidade e sem perderem a sua identidade.
Logo de seguida, no mesmo dia, veio o Beside Me, da Roménia. Trata-se da história de um grupo de pessoas que fica presa no metro durante umas horas. Não podemos deixar de pensar como nós próprios reagiríamos...
No dia seguinte foi a vez de Portugal, com Os Maias - Episódios da Vida Romântica. Quem, como eu, é fã de Eça de Queiroz e deste livro, vai achar piada comparar aquilo que tinha imaginado ao ler o livro e o que vê no filme. 
Hoje foi o encerramento do festival e aconteceu com chave de ouro, com dois filmes muito bons.
O primeiro, apresentado pela Bélgica, chama-se Le Roi des Belges. É um filme cheio de humor sobre uma viagem do Rei da Bélgica, incógnito, pelos Balcãs durante uma tempestade cósmica que não permite aos aviões voarem. Tenho a impressão que nunca tinha visto um filme Belga mas fiquei cheio de vontade de ver mais.
Logo ali ao lado da Bélgica, outra óptima surpresa, um filme dos Países Baixos muitíssimo bom. The Conductor conta a história de Antonia Brico, uma maestro que inicia a sua carreira entre os anos 20 e 30 do século passado. Uma maestro nos anos 20 e 30, estais vós a pensar... Precisamente! O filme conta a história de como ela teve de ultrapassar um sem número de preconceitos para se tornar maestro. Uma história que nos deixa mais atentos a valorizarmos o talento venha ele de quem vier.
Inspirado por este último filme, deixo aqui uma homenagem à nossa bem portuguesa Joana Carneiro. Que ela nos continue a mostrar o seu talento por muitos anos.




terça-feira, 15 de outubro de 2019

Bancos...

Quem vive em Portugal tem dificuldade em sentir um grande carinho pelos bancos. Sim, estou a falar daquelas instituições financeiras onde temos conta, onde pedimos empréstimo para comprar casa ou para complementar os nossos investimentos.

E esta falta de carinho é porque não apenas os bancos são, enfim... bancos - aquelas instituições cinzentas, com gente cinzenta a fazer coisas cinzentas - como, ainda para mais, ciclicamente, os contribuintes vêm alguns dos milhões que lhes foram retirados em impostos a salvar bancos. É impossível não pensar que, com o dinheiro que a par e passo é injectado nos bancos, nós até podíamos ter um sistema nacional de saúde decente, por exemplo.

No entanto, cá no Zimbábue dei por mim a ter uma enorme saudade dos bancos portugueses, recordando-os com carinho e afeição. O Novo Banquinho, tão verdinho que ele é; a Caixinha Geral e os seus velhinhos; o BPIzinho e o cubozinho a rodar em cima da sede...

Este sentimento, tão novo para mim, de carinho pelos nossos bancos nacionais, tem vindo de uma certa frustração que eu sinto no Zimbábue, o não ter a liberdade de comprar o que quero.

Passo a explicar... Até há uns meses atrás este país tinha um sistema chamado "multi-currency", ou seja, aceitava-se como meio de pagamento uma data de moedas, das quais se destacava o USD, moeda na qual, efectivamente, eram feitas quase todas as transacções. O problema é que, dada a recessão económica prolongada, o país ficou sem moeda estrangeira. Vai daí, apostou-se em ter apenas uma moeda nacional, chamemos-lhe o bond (cada pessoa diz à sua maneira). O mal é que não há bonds por aí a circular. Ou seja: eu pego nos meus dólares, tento trocar por bonds e não os encontro em lado nenhum. Quanto a tentar levantar numa caixa multibanco, isso será impossível, porque elas quase não existem e as que existem estão paradas.

A alternativa...? A alternativa é ter bonds no banco e ter um cartão de pagamento. Ou então, ligar essa conta no banco ao nosso telemóvel e pagar através dele com uma aplicação chamada ecocash e que está para o nosso MBWay como o Homo Erectus para o Homo Sapiens.

Então, abre-se uma conta no banco, certo? Não, não está certo... Ir ao banco aqui pode ser uma empresa para umas quantas horas e, quando lá se chega, falta um qualquer documento que eles não tinham mencionado quando nos enviaram um email de resposta a uma pergunta que tínhamos enviado umas semanas antes. Apesar de não correr há umas boas semanas, tenho a certeza que mais facilmente fazia uma meia maratona amanhã do que abria uma conta num banco aqui!

Note-se que estamos num país que está a precisar imenso de dinheiro vindo de fora. IMENSO, mesmo! Mas a única forma de trazer dinheiro de fora é em notas, porque o sistema bancário não funciona.

E eu com saudades de ir a um restaurante e pagar com cartão. Com saudades de dividir uma conta com amigos por MBWay. Com saudades do Novo Banquinho, da Caixinha, do BPIzinho, do BCPezinho... Tão queridos que eles são! Uns amores...

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A triste vitória da noite de ontem

É uma grande pena que a grande vitória da noite tenha vindo dos abstencionistas. Foram quase mais 300 mil pessoas que em 2019 decidiram não votar do que em 2015.
Para ser preciso, houve mais 288.027 votos no Território Nacional (excluindo círculos da emigração) em 2015 do que em 2019. Isso é muito mais do que o conjunto dos votos nos três partidos que agora passam a ter um deputado. É também mais do que os resultados do PAN ou até mesmo do CDS, um partido fundador da nossa Democracia.
Há desculpas para isso?
Não pode ser por dificuldade de votar, porque está hoje bem mais fácil votar do que há 4 anos. Eu, por exemplo, com a legislação de há 4 anos não poderia ter votado. Pode-se votar antecipadamente, pode-se votar em mobilidade, etc.
Também não pode ser por falta de opções políticas: os 9 partidos eleitos cobrem todas as matizes políticas imagináveis, desde a extrema esquerda até à extrema direita.
Sim, poder-se-ia dizer que muitos emigrantes não receberam os boletins, mas estou só aqui a falar dos resultados em território nacional.
E acabou-se-me a imaginação para inventar mais desculpas.
Parece-me que temos aqui um puro desinteresse egoísta pelos destinos desta comunidade política que no dia anterior às eleições celebrou 876 anos de vida (est. Zamora 1143).
E é ignorância... Muita ignorância! Se nós, Portugueses, soubéssemos como pessoas noutros países gostariam de ter eleições como as nossas: livres, com campanhas nas quais se debatem diferentes opções para o país, sem prisões nem raptos políticos... Se nós, Portugueses, soubéssemos a sorte que temos!

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Zimbábueanos

"O Zimbábue é um país lindo mas o melhor do país são os Zimbabueanos."
Li diferentes versões desta frase antes de vir para cá e desde que cá cheguei já voltei a ouvir isto umas quantas vezes de diferentes estrangeiros. Não posso estar mais de acordo! Este é, de facto, o povo mais encantador que eu já conheci!
Sempre com um sorriso na cara (e que bonitos sorrisos!). Sempre com um "how are you?" que dá mesmo a impressão que quer ser respondido. Sempre disponíveis para ajudar desinteressadamente. Sempre com bom humor e piada fácil. Sempre bem apresentados. Sempre honestos.
Um pequeno exemplo...
Hoje fui ao supermercado e quando ia a pagar já não tinha dinheiro no cartão pré-pago (um dia destes escrevo sobre viver num país com um sistema financeiro num caos). Ora, neste supermercado não aceitam US$, pelo que eu liguei para o meu hotel a pedir para me recarregarem o cartão mas a essa hora já não dava. Logo dois irmãos se ofereceram para me pagar a conta em ZIM$ e eu dava-lhes o equivalente em US$. E assim fizeram... 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

How dare you?

A mensagem de Greta Thunberg na ONU foi tão clara quanto toda a gente esperava que fosse. Uma condenação veemente das actuais políticas que prometem crescimento económico eterno com base no crescimento da produção de bens. Nem os seus apoiantes nem os seus críticos esperavam outra coisa.
Muitos dos seus detractores criticam-lhe o estilo. E eu também não gostei. Demasiado ao ataque...
Mas pergunto-me se há outro estilo possível... Afinal de contas, os números que a Greta apresenta não foram inventados por si mesma. São números que têm sido repetidos pelos cientistas que estudam a poluição atmosférica e o seu efeito no clima. Há tantos anos... E estes números são tão enervantes! São mesmo de se ficar irritado como ela estava!
Como é que não se faz nada? Como é que cada um de nós, no seu dia-a-dia, continua a viver como se estes números não existissem. Como é que nós nos atrevemos?
A resposta é que andamos anestesiados...
Se não andássemos anestesiados fazíamos alguma coisa para prevenir a degradação do nosso planeta. Mas não só isso...
Se não andássemos anestesiados, tínhamos que fazer alguma coisa pelas milhares de pessoas que morrem de fome todos os dias numa altura em que teríamos condições para que todas elas tivessem acesso a uma alimentação diferente.
Se não andássemos anestesiados, tínhamos que fazer alguma coisa para salvar os milhares de civis que morrem em conflitos como o do Iémene.
Se não andássemos anestesiados, tínhamos que fazer alguma coisa pelos muitos povos que continuam a viver oprimidos por regimes absolutamente desrespeitadores dos direitos humanos cujos líderes apenas trabalham para se manter no poder através de teias mafiosas de corrupção.
Se não andássemos anestesiados, faríamos alguma coisa... Mas andamos!
E incomoda-nos que alguém não ande anestesiado como nós. Incomoda-nos que uma miúda, por uma questão de princípio, não apanhe um transporte que consuma energias fósseis para atravessar o Atlântico.
Como isso nos incomoda, mais vale gozarmos com ela. Gozarmos com o facto de ir num yacht emprestado por um príncipe. Gozarmos com o estilo exaltado do discurso. Gozarmos com o idealismo de cortarmos no nosso consumo - não 50% mas muito mais.
Precisamos mesmo de mais aquela camisola? De mais aquele telemóvel novo? De irmos de carro para todo o lado? Nós bem sabemos que não precisamos de tudo isso, por isso gozamos com a Greta, para nos escondermos atrás do nosso humor.
Enquanto gozamos com ela, evitamos dar atenção ao que nos diz. E podemos continuar anestesiados.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Concerto de Música Escolar

Ontem fui a um concerto que juntou uma série de bandas de diversos colégios de Harare. Para meu deleite, terminou da melhor maneira: gaitas de foles! Que saudades da "minha" Escócia...
A última música foi este fantástico Amazing Grace que juntou a banda de gaitas de foles do Colégio de São João e os instrumentos de corda dos vários colégios. A junção ficou mesmo bonita!

(Peço desculpa pela má qualidade da filmagem!)

Um episódio engraçado aconteceu no fim do concerto. Vieram perguntar-me se eu queria comprar um CD do concerto. Eu disse que sim, deram-me um papel para preencher onde se pedia o nome de um aluno de uma das escolas para depois lhe entregarem o CD quando estiver pronto. Dado que estava ali à mão o filho de uns amigos, ele lá escreveu os dados no papel.
Note-se que não estou a falar de um miúdo pequeno mas de um latagão de 13 anos que tem quase a minha altura. Quando lhe perguntaram se eu era o pai, devo confessar que fiquei ofendido: como é que um latagão daqueles podia ser meu filho? Eu, quase uma criança ainda! Alguém que quando ele nasceu tinha... Fiz as contas... Ooops! Tinha 26 anos! Seria perfeitamente normal aquele latagão ser meu filho!
Senti-me velho...

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Gemma Grifiths & The Parlotones

Depois das corridas de cavalos havia um concerto com duas bandas.
A primeira com uma artista local chamada Gemma Grifiths que canta em Shona e em Inglês. Gostei imenso quer da voz quer da música. Tornou-se logo uma das artistas eleitas para fundo musical dos meus duches.
A segunda banda é das mais conhecidas na África meridional e chama-se The Parlotones. Fizeram menos o meu género - não chegaram ao patamar de banda para o duche. Mesmo assim, gostei bastante, mas...
E neste mas é que está o motivo pelo qual o concerto em termos de número de pessoas foi um flop. Estava um frio insuportável! Entre as corridas e o concerto eu ainda fui ao hotel vestir uma camisola e um blusão. O mal é que não trouxe nenhum casaco de Inverno, só trouxe um de Primavera, dado que cá já supostamente encontraria essa estação. Mas apanhei uma noite de 4º!
Ora, por melhor que fossem os artistas, não se aguenta aquele frio. Ao fim de 3 músicas dos Parlotones, fomos embora. Viemos depois a saber que muita gente tinha comprado bilhetes para o concerto e não foi por causa do frio. Ao todo não deviam chegar a 150 pessoas...
E enquanto eu ouvia a música sonhava com o meu capote alentejano em Lisboa... Mas "quem é que se lembra de levar um capote alentejano para África?"

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Duas semanas!

E quase sem notar... Passaram 2 semanas no Zimba!

Corridas de cavalos

No Sábado, fui às corridas de cavalos pela primeira vez na vida. Não é que aquilo seja astrofísica, mas devo confessar que me senti algo perdido...
Em primeiro lugar, não sabia que havia diferentes distâncias nas corridas. Assim, a gaiola de partida dos cavalos vai sendo mudada consoante a distância que se quer atingir de forma a que a meta seja sempre do lado da audiência. Claro que isto faz todo o sentido: se as corridas dos humanos têm diferentes distâncias, porque não as dos cavalos? Só nunca me tinha ocorrido...
Outra coisa que eu não sabia como funcionava, eram as apostas. A verdade é que não gosto nada de jogos a dinheiro, por isso também não tinha grande curiosidade em informar-me. No entanto, passado pouco tempo de estar lá no bar da pista, veio o homem que dava a ideia de ser o director daquilo falar connosco e ensinou-nos a apostar com base no livro das corridas em que explicava o desempenho de cada cavalo. Lá senti qualquer entre entusiasmo e coação para apostar e apostei $10 neste cavalo nº 7 da foto em baixo... E perdi! Mas perdi com alguma honra porque ele ficou em 3º lugar.
Já uma coisa que as corridas de cavalo têm de mais familiar é serem um momento de descontracção e entretenimento em que as pessoas estão bem dispostas. Assim não foi difícil ir falando com várias pessoas que comentavam as corridas, perguntavam sobre nós, etc. Foi um dia bem passado... Apesar do frio! 





terça-feira, 10 de setembro de 2019

Art in the Verandah

Fotografias da feira de arte de que falei no post anterior.


Quadros da crise

No Domingo fui a uma feira de arte giríssima é organizada todos os anos cá em Harare chamada "Art in the Verandah". Esta feira junta obras de diversos artistas Zimbabweanos e os seus proveitos servem para ajudar uma obra social muito gira, a Emmerald Hill. Esta é uma iniciativa centenária das Irmãs Dominicanas e que acolhe crianças vulneráveis. Tem uma secção para crianças surdas-mudas e outra para crianças de rua ou cujos pais não podem pagar-lhes os estudos.
Para além da feira de arte, há lá comidas e bebidas, pelo que fui lá almoçar. Para além de almoçar bem e ao som de boa música ao vivo, pude contactar com as obras de diversos artistas locais. Só tive pena de não ter levado mais dinheiro. A questão dos pagamentos aqui no Zimba é uma questão muito complicada que terá de ser alvo de um post separado...
Bem, não tinha muito dinheiro e a senhora minha noiva está a cerca de 11 mil kms de distância e eu não queria estar a comprar quadros que ela depois não gostasse de ter em casa. No entanto, não resisti a comprar dois pequenos quadros do período da crise de hiper-inflação. Aqui estão eles:


E agora? Alguém consegue adivinhar porque é que são quadros da crise de hiper-inflação? Basta virar os quadros e ver qual o material de que são feitos: notas! E não são notas de 5 ou 10 $Z, são quadros de 50000000000$Z! Nesta altura, em 2008, a inflação mensal andava na ordem dos 79.600.000.000% e para se comprar um pão era preciso um carrinho-de-mão de dinheiro!
Se todas as crises económicas se pudessem transformar em arte...

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Horas Africanas

O Zimbábue tem apenas uma hora de diferença de Portugal... Mas devia ter mais uma ou duas! Aqui já é dia às 5.30 da manhã e às 5.30 da tarde fica noite. Mas noite cerrada mesmo! Nem sequer há iluminação pública na maioria das ruas, pelo que para ir a qualquer lado a pé, vou com a lanterna do telemóvel!
Países diferentes levam a hábitos diferentes...
De manhã tenho acordado (naturalmente, sem despertador) antes das 6 da manhã e logo começo o meu dia. Tenho ido muitas vezes ao ginásio e quando lá chego, pelas 6.30, já lá está imensa gente... É que o ginásio abre às 5!
Como é óbvio, se o dia começa mais cedo, também acaba mais cedo. Às 17h as pessoas saem do trabalho e a maior parte dos serviços fecha mesmo às 15 ou 16h. Mesmo no que toca ao lazer, já me aconteceu ir jantar fora pelas nove da noite e os restaurantes já terem a cozinha fechada! Sendo assim, às dez da noite já tenho estado na cama e adormeço logo que nem uma pedra!

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Uma semana!

Faz hoje uma semana que cheguei ao Zimba, vindo de Portugal... O último dia não foi fácil, preparar três malas para três anos num dia! Com tanto que tive que organizar antes de umas pequenas férias no Minho e depois com as ditas cujas férias, não tive tempo para as malas. Regressei a Lisboa no dia antes de partir, deixando apenas o dia da partida para fazer as malas.
Com o voo a partir apenas às onze da noite achei que ia ser fácil, mas no dia da partida começaram a surgir as dúvidas: "e se eu não consigo comprar isto ou aquilo no Zimba? mais vale levar..." E com todas estas dúvidas, fazer as malas tornou-se uma tarefa bem mais complicada do que alguma vez tinha sido para mim fazer malas. (Claro que entretanto me apercebi que tudo se pode comprar no Zimba e que o país não está tão calamitoso quanto mo tinham descrito, mas só soube disso depois das malas feitas.)
O que vale é que quem tem uma Chéquinha previdente ao seu lado, tem tudo! E a minha Janiska tirou esse dia para me ajudar nas minhas tarefas de organização e de compras de última hora. Aliás, esta tarefa homérica teria sido impossível sem ela. Sem ela e a sua habilidade inata para fechar malas infecháveis.
E depois, quando às nove da noite ainda estava em casa com as três malas, foi graças à minha Chéquinha, que é uma autêntica Senna quando é preciso, que cheguei ao aeroporto da Portela mais ou menos a tempo.
Por isso, muito obrigado à minha Jana! Com muitas saudades do seu Hararense preferido...

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Fire!

Fui ao supermercado comprar umas coisitas e quando saí vi fogo no parque mesmo em frente! FOGO! Português que é Português entra em pânico quando vê fogo, certo?
Voltei ao supermercado e falei com uma das muitas funcionárias que não pareciam estar muito atarefadas.
Eu: "Is that a fire or are they just burning some leaves or something?" Note-se que a pergunta parecia estúpida porque estava mesmo muito fogo no parque mas eu não quis parecer alarmista...
Ela: "I don't know!" Tem piada que ela não parecia estar muito interessada em saber...
Eu: "Has the fire brigade been called?"
Ao que se seguiu a mesma resposta com o mesmo ar de indiferença.
Eu: "Can you perhaps call the fire brigade?" Tudo isto com um tom calmo de quem pensa "em geral arder um parque urbano é mau, mas isto é o vosso país, não o meu"!
Ela: "I'll need to consult with my boss..." Com ar de quem não ia incomodar o todo-poderoso-e-ocupado-chefe com uma ninharia como arder um parque urbano e possivelmente toda a vizinhança que faz compras no supermercado onde ela trabalha.
Eu lá me despedi sem alarme e lá retomei o meu caminho. Ao passar perto vi que o fogo era mesmo grande, maior do que aparentava do supermercado, pelo que decidi apressar-me até ao hotel. Aqui chegado:
Eu: "There seems to be a fire in the park. Could you call the fire brigade?"
Kirsten (a rapariga da recepção): Naaaa, Diego (sim, o meu nome é sempre adulterado), they're just burning the soil to make it greener! Well... The fire brigade would probably not have water, anyway, so let's hope the people in the park know what they're doing... It's called slash and burn!"
E pronto, fico aqui na esperança que o pessoal do parque saiba o que está a fazer enquanto aprendo técnicas agrícolas locais. E enquanto escrevo este humilíssimo post, sinto o cheiro a fogo vindo do parque. Mas tenho essa esperança... Dizem que ela é a última a morrer... Seria uma chatice ser evacuado a meio da noite do hotel sem ter completado o meu sono de beleza, mas tenho esperança que o pessoal do parque saiba o que está a fazer. Talvez vá fazer as malas e pô-las no carro... Apesar da esperança que tenho no pessoal do parque!

domingo, 1 de setembro de 2019

Cá no Zimba

E pronto, aconteceu! Cheguei ao Zimbábue (Zimba para os amigos) na passada quarta-feira. Há meses que sabia que vinha para cá mas a data parecia tão distante... Nesses meses ia lendo tudo o que aparecia na imprensa internacional sobre o Zimba e as notícias iam sendo cada vez mais alarmantes. Desde a inflação galopante à repressão de demonstrações, à prisão de líderes da oposição... A ideia passada é que aquele que costumava ser um paraíso de prosperidade em África estava reduzido a um buraco.
Quando a data da partida começou a estar cada vez mais próxima, eu já estava muitíssimo pessimista. Tão pessimista que comecei a comprar carregamentos de tudo o que poderia necessitar num país onde ou as coisas não existiam ou eram vendidas a preços da Noruega ou Suíça. Alguns exemplos dessas compras: não sei quantas embalagens de gel de barbear e after-shaves, champôs, pastas e escovas de dentes, colónias, desodorizantes... Acima de tudo, o absolutamente fundamental seria manter os níveis de higiene pessoal aceitáveis em qualquer corte Europeia. Nunca se sabe quando uma pessoa vai a andar pelas ruas de Harare e se cruza com um Saxe-Coburg-Gotha...
Entretanto cheguei e, aos poucos, fui conhecendo mais da cidade. Tenho vindo a notar que estava demasiado pessimista. Quer dizer, não vou dourar a pílula neste blog lido por pessoas inteligentíssimas, cultíssimas e, acima de tudo, viajadíssimas: as coisas aqui estão muito mal. Para dar uma ideia desse mal, de acordo com as estimativas da ONU, estão 2,5 milhões de pessoas a passar fome no país. Na rua vê-se pobreza, ou antes, miséria. Vê-se muita gente a vender bugigangas nos sinais de trânsito ou, pior ainda, a não fazer nada e esperar o tempo passar porque não há nada a fazer; vêem-se crianças andrajosas a pedir esmola e adolescentes com fotografias deles próprios em fardas escolares a pedir dinheiro para poderem voltar à escola; só há electricidade das 10 da noite às 5 da manhã o que leva a que o preço do petróleo para os geradores aumente constantemente - apesar disso, as filas de carros para abastecer são enormes! E tudo isto em Harare, a capital... Não imagino como será no resto do país.
Então porque é que eu acho que estava demasiado pessimista? Porque eu achava que mesmo para os que tinham dinheiro era difícil comprar o que quer que seja. E não é. Há supermercados, restaurantes, farmácias, lojas de mobiliário, stands automóveis... Tudo a funcionar! E os preços...? Bem, as poucas coisas produzidas no Zimba (milho branco, carne...) são a preços bastante razoáveis. O resto das coisas (como por exemplo os tais produtos de higiene que me permitirão conversar com os Saxe-Coburg-Gothas que se cruzem comigo em Harare) são mais caros do que em Portugal mas estão ainda longe dos preços da Noruega. Claro que, dados os cortes energéticos, a electricidade e o petróleo também são caros e só posso adivinhar que os produtos nacionais comecem a ser cada vez mais caros porque é cada vez mais difícil produzi-los e transportá-los até aos consumidores.
Quanto a segurança, devo dizer que não me sinto minimamente inseguro. Claro que tenho tido as necessárias cautelas mas as pessoas com quem me cruzo são genuinamente tão simpáticas e acolhedoras que não consigo mesmo sentir qualquer ameaça.
Estas observações, claro está, são meramente pessoais. Não são baseadas em índices e estatísticas. Mas basta fazer as contas: se um quilo de arroz num supermercado (não sei quanto é num mercado, por exemplo) custa cerca de €1 e o ordenado de um polícia anda à volta dos €30, eu fico sem entender como é que ele poderá sustentar-se e à sua família... Em resumo, a vida no Zimba não está má para quem tem dinheiro (apesar dos cortes eléctricos e das filas para gasolina que afectam todos). Mas não é sempre assim? Já para os outros... Acho que as observações acima já respondem a isso.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Ursula von der Leyen - uma derrota da Democracia?

A propósito da escolha que está a ser feita dos lugares cimeiros nas instituições Europeias, muito se tem falado de que a escolha de Ursula von der Leyen representa uma derrota da democracia na UE. Quem defende isto diz que o sistema de "spitzenkandidaten", que foi desrespeitado nesta escolha do Conselho Europeu, é muito mais democrático. Ora, para quem não sabe do que eu estou a falar (eu diria uns 99% dos cidadãos no nosso belo jardim à beira mar plantado), este palavrão é o termo alemão para dizer cabeça de lista. De acordo com quem defende este sistema, a escolha do Presidente da Comissão deveria funcionar da seguinte forma:
1) Os diferentes Partidos Europeus - PPE, S&D, RE (ex-Alde), etc. - escolheriam antes das eleições europeias uma pessoa que seria o "seu candidato" à Presidência da Comissão;
2) Durante a campanha eleitoral, a pessoa escolhida, o "Spitzenkandidat", representaria as ideias desse grupo e debateria de forma a ser conhecido pelos Europeus.
3) Ao votar, os europeus teriam assim ideia de quem quereriam apoiar para Presidente da Comissão.
4) Após as eleições, tendo em conta os resultados do escrutínio, o Conselho Europeu limitar-se-ia a escolher o cabeça de lista que reunisse mais consenso. No fundo o Conselho Europeu teria a "papinha toda feita" pelos Partidos Europeus...
Quem defende este sistema, diz que é mais transparente porque os Europeus conhecem à partida os candidatos. E é mais democrático porque podem escrutinar em quem estão a votar.
Eu discordo!
Em primeiro lugar discordo porque este sistema não é o previsto nos Tratados. A Democracia passa em grande medida pelo respeito da Lei democraticamente estabelecida e a União Europeia baseia todos os seus procedimentos na legalidade dado que a sua lei superior vem dos instrumentos que foram aprovados pelos Parlamentos de todos os seus Estados membros, ou seja, os Tratados. O que estes Tratados dizem é o seguinte:
"Tendo em conta as eleições para o Parlamento Europeu e depois de proceder às consultas adequadas, o Conselho Europeu, deliberando por maioria qualificada, propõe ao Parlamento Europeu um candidato ao cargo de Presidente da Comissão. O candidato é eleito pelo Parlamento Europeu por maioria dos membros que o compõem. Caso o candidato não obtenha a maioria dos votos, o Conselho Europeu, deliberando por maioria qualificada, proporá no prazo de um mês um novo candidato, que é eleito pelo Parlamento Europeu de acordo com o mesmo processo." (Art. 17.º, 7 do TUE)
Ora, fica bastante claro que cabe ao Conselho Europeu a iniciativa de escolher o candidato. E o Conselho Europeu, note-se bem, é constituído por Chefes de Estado ou Governo de todos os Estados Membros da UE. E todos eles têm legitimidade Democrática para representar as vontades dos seus povos. Já os Partidos Europeus são entidades que, para a maioria dos cidadãos da União são perfeitamente nebulosas. Será que muitos portugueses sabem que PSD e PP, por um lado, e CDU e BE, por outro, pertencem aos mesmos partidos Europeus (PPE e GUE/NGL respetivamente)? Será que sabem que nenhum dos principais partidos nacionais está representado em três dos principais partidos europeus (RE, Verdes e ECR)?
Para além disso, não é por por uma pessoa conhecer um candidato a Presidente da Comissão que a sua decisão de voto muda. Note-se, por exemplo, as últimas eleições. Uma pessoa até podia não gostar nada de um candidato e decidir votar no partido nacional que apoia esse candidato porque é o partido com quem mais se identifica. Ou vice-versa. Como é que uma pessoa faz se o seu candidato preferido a Presidente da Comissão for apoiado por um partido nacional de que nós não gostamos nada ou esse partido tiver na sua lista um conjunto de mentecaptos?
Voltando à candidata Ursula von der Leyen... É a sua nomeação mais ilegítima ou anti-democrática do que teria sido a de Max Weber (para quem não sabe, o spitzenkandidat do PPE)? Note-se que Weber foi absolutamente vetado por um conjunto de Chefes de Estado ou Governo dos Estados-membros, todos com legitimidade democrática, que não o queriam. A mesma coisa aconteceu, por exemplo, com Frans Timmermans (Spitzenkandidat do S&D) e com Margrethe Vestager (o ALDE não teve um Spitzenkandidat mas esta acabou por ser a candidata que este partido apoiou).

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Presidente do Parlamento Europeu II

Foi eleito o Italiano David-Maria Sassoli (S&D) com uma maioria absoluta de 345 votos. Este antigo jornalista, com 63 anos, optou pela política em 2009, tendo então sido eleito eurodeputado pelo Partido Democrático, cargo que mantém desde então.

Presidente do Parlamento Europeu

A primeira coisa que me veio à cabeça ao assistir à eleição do Presidente do Parlamento Europeu foi: mas eles não arranjam votos electrónicos? Ainda andam a matar árvores com o papel?
A segunda coisa foi: urnas transparentes? Como o referendo organizado pela Rússia na Crimeia...
Coisa de que gostei: um eurodeputado de kilt. Dá sempre um toque de classe. Fiquei com saudades da Escócia...
Aguardo os resultados... Os candidatos são: Ska Keller (Alemanha, Verdes), Sira Rego (Espanha, Esquerda Unida Europeia), David-Maria Sassoli (Itália, Sociais Democratas) e Jan Zahradil (Chéquia, Conservadores).




segunda-feira, 27 de maio de 2019

Noite eleitoral?

Ontem segui a noite eleitoral na TSF, uma rádio que eu considero de referência. Não podia ter ficado mais desapontado... Que pobreza de conteúdos!

Na maior parte do tempo estavam a falar dos resultados em Portugal. Vá, eu sei que é o nosso país, mas nós estamos a falar de um Parlamento com 751 lugares (705 depois do Brexit) dos quais Portugal elege apenas 21. Olhar para estes resultados apenas nacionalmente é de uma parcialidade a toda a prova. No período ainda longo em que os ouvi, nem uma vez explicaram o que eram os diferentes grupos parlamentares Europeus, como tinham sido afectados, etc. Note-se que há muito tempo que os Populares e os Sociais Democratas do Parlamento Europeu conseguiam, juntos, formar uma maioria absoluta e agora não conseguem: teria sido muito importante falar-se sobre isto e sobre as possíveis reconfigurações de voto.

Para além disso, só falavam de política interna. Durante todo o tempo estavam a interrogar-se sobre quais as consequências destes resultados nas diferentes lideranças dos partidos portugueses e nas eleições autárquicas que aí vêm já em Outubro. A mesma coisa acontecia nos raros momentos em que falavam dos resultados nos restantes países: na Grécia Tsipras demitiu-se, em França Le Pen pediu eleições legislativas antecipadas... Mas a pergunta fundamental sobre quem será o novo Presidente da Comissão ou até, mais nacionalmente, o novo Comissário Português nem uma vez se referiu nas duas horas de emissão que eu ouvi.

E depois, a todo o tempo se chorava a subida brutal da abstenção. Digo já que eu acho que a abstenção é uma tragédia da Democracia. O facto de uma grande parte, a maioria da população, nem sequer se dar ao trabalho de ir votar em branco  é, para mim, deplorável. No entanto, no meu entendimento de leigo, sobe a abstenção quando menos pessoas votam. Ora, nestas eleições para o Parlamento Europeu de 2019 votaram, de acordo com o site do MAI,  3.312.579  pessoas. Note-se que, nas mesmas eleições em 2014 tinham votado 3.282.951 pessoas. Isso quer dizer que houve mais 29.628 pessoas a votar, o que é mais do que as populações dos 12 Concelhos menos populosos de Portugal (de acordo com a wikipedia): Monforte, Castanheira de Pera, Arronches, Penedono, Alcoutim, Porto Moniz, Mourão, Alvito, Santa Cruz das Flores, Barrancos, Lajes das Flores e Corvo. Isto quer dizer que em 2019 houve mais do que a população de 12 Concelhos a estar interessada pela UE e pelos seus assuntos do que 5 anos antes... É "poucochinho" mas já é uma evolução positiva.

Não se deu a TSF (repito: para mim uma rádio de referência) ao trabalho de ver que havia mais 900 mil eleitores recenseados. Ora, isto acontece porque passou a haver recenseamento automático. Todos aqueles "Portugueses de conveniência", ou seja, estrangeiros que só mantém a nacionalidade portuguesa porque é bom ter uma nacionalidade UE, nunca se tinham recenseado porque não estavam interessados em votar. De um momento para o outro, são todos recenseados automaticamente e a taxa de abstenção torna-se a mais alta de sempre.

Nota: a TSF "leva na cabeça" neste post porque foi a emissão que eu ouvi... Estou curioso sobre se as restantes rádios e televisões fizeram melhor. Sim, claro... Aposto que foram tão más ou piores!

quinta-feira, 11 de abril de 2019

€uro - 20 anos depois

A 1 de janeiro de 1999 o €uro tornou-se, oficialmente, a moeda em Portugal. Desde a fundação do país, em 1143, que a cunhagem da moeda tinha sido uma prerrogativa dos Reis de Portugal. Note-se que não era igual em todos os países da Europa - em alguns países era possibilitado a certos nobres, bispos ou mosteiros cunhar moeda legal até à Idade Moderna, mas nós já éramos muito modernos nisso do centralismo do Reino. Tudo mudou nesse primeiro dia do ano.

Ainda me lembro dessa passagem de ano, o que é extraordinário, porque eu não me lembro do que comi ontem ao jantar... Esta não me marcou por ter sido muito exuberante, estrondosa ou cheia de gente. Jantei apenas com um grupo de cinco bons amigos em casa de um deles, cada um levou um poema para declamar e, em geral, foi uma singela noite de conversa. Tem graça ver que, o nosso anfitrião dessa noite tão importante para a UE viria a beneficiar das vantagens da mesma, emigrando para Roma, onde faz um ótimo trabalho na divulgação da cultura portuguesa na Cidade Eterna.

Vinte anos depois do início do €uro, a nossa comunicação social, academia e classe política pouco têm falado sobre o assunto. Gostaria de dizer que isto se deve a estarem demasiado ocupados a declamar poesia em jantares de amigos, mas diria que essa não deve ser a razão. Uma simpática exceção nisto, como em tudo o resto, é a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que já publicou um estudo sobre o assunto do economista Pedro Braz Teixeira sobre o qual, infelizmente, se tem falado pouco na praça pública.

Já os Alemães, gente mais dada a avaliar as decisões políticas, têm falado muito deste assunto. Agora publicou-se até um estudo muito interessante. Um think tank Alemão sobre a Europa interrogou-se sobre quem terão sido os que mais lucraram e os que mais perderam com a moeda única. Fruto dessa pergunta, nasceu um estudo em que, comparando oito países da Zona Euro, concluem que apenas três deles ganharam (a Alemanha à cabeça) e os outros cinco perderam. Neste estudo, cada português terá perdido €40.604  nestes últimos 20 anos o que, arredondando, dá uma conta de €170 por mês a cada português. Não sei como estão as finanças dos leitores deste humilíssimo blog, mas a mim dava-me jeito ter mais esse extra na conta todos os meses.

Eu bem sei que a economia, como a filosofia, é dada a muita discordância e haverá muita gente a contestar os resultados dos dois estudos. Mas parece-me que refletir sobre eles nos levará a interrogarmo-nos sobre o que Portugal pode fazer para melhor se adaptar ao €uro e poder tirar mais partido da moeda única. Sim, porque nada me leva a pensar que nós estaremos estruturalmente destinados a perder com o €uro - poderemos adaptarmo-nos para que daqui a 20 anos um estudo semelhante nos ponha entre os vencedores.

Gostaria de ver este tipo de debates entre os candidatos a Eurodeputados nas eleições do próximo dia 26 de maio. Seriam bem mais apropriados às funções que vão exercer do que os debates sobre as famílias políticas do PS (sem estar aqui a desmerecer também esse debate, mas passando-o para um outro forum). E, se não for para debaterem isto, ao menos declamem poesia...

terça-feira, 9 de abril de 2019

Descida dos preços dos passes

Ouço e leio muita gente indignada com a descida dos preços dos passes num grito de "aqui d'El Rey que se estão a subsidiar os transportes públicos!" Teme-se a excessiva ingerência do Estado, o tratamento desigual face a outros transportes como o táxi ou o uber e já se fala da República Socialista Popular Portuguesa por causa disso. Ora eu acho que essa oposição à medida e esses medos não têm sentido.
No entanto, todavia, contudo... Antes de explicar porque é que acho que não têm sentido, tenho uma declaração de interesses a fazer. Eu compro o passe todos os meses e vou poupar dinheiro com esta medida. Pode, assim, ser considerado que por motivos egoístas seria já favorável a esta medida.
Feita a declaração de interesses, há dois motivos que me levam a defender esta medida:
- O primeiro é um motivo muito de mercado, muito liberal... (Pasmem-se almas!) Com a descida do preço dos passes, é natural que mais gente vá adquirir os ditos cujos passes. Pessoas que nem precisam de transportes públicos todos os dias mas que começam a notar que podem poupar algum dinheiro nos transportes que normalmente usam: automóvel particular, táxi, uber, e-cooltra, etc. Mais gente a comprar, maiores as receitas e lá se vai a necessidade de injetar dinheiro dos nossos impostos.
- O segundo é que, mesmo que se tenha que injetar o tal dinheiro dos nossos impostos, é precisamente para isso que eles servem. Reduzir o consumo do petróleo serve o óbvio propósito ambiental mas serve também um propósito geo-estratégico. É que uma grande parte do petróleo consumido quer em Portugal quer na UE é oriundo de países que dificilmente se podem considerar Democracias. Estar dependente desses países para um bem de primeira necessidade deixa-nos politicamente vulneráveis. É num caso como estes, em que o bem comum tem muito a ganhar, que este dificilmente seria defendido num mercado livre, se justifica investir aí recursos que são de todos.
Sendo assim, aqui deixo os parabéns por esta iniciativa a quem de direito.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Requiem por Jan Palach - José Valle de Figueiredo

Arde o coração de Praga.
Arde o corpo de Jan Palach.
Podemos dizer que o Rei Venceslau,
montado em seu cavalo,
também viu crescer o fogo
em que arde o coração de Praga.
João Huss, queimando o seu corpo,
também arde na Praça de Praga.
E os cavaleiros da Boémia,
o povo e os grão-Senhores,
os operários de Pilsen,
os poetas e cantores da Eslovóquia,
todos ardem nessa tarde e nessa praça.
Queimamos a coragem e o heroísmo,
queimamos a nossa infinita resistência.
Não é verdade, Soldado Schweik?

Eles vieram das estepes e disseram:
É proibido morrer pela Pátria,
é proibido resistir à opressão,
é proibido combater a ocupação. (Refrão)
É proibido amar os campos verdes do seu país.
É proibido amar o verde da esperança.
É proibido amar a Esperança

Estás proibido, Jan Palach!
És proibido, Jan Palach!
Estás proibido de existir, Jan Palach!
Estás proibido de morrer!

Eles vieram das estepes a disseram
todas estas palavras.
Mas também é verdade que disse um dia o Rei Venceslau,
montado em seu cavalo:
«Esta nossa terra será livre,
e nela crescerão livres
as virgens, as mães e os filhos.
E nela crescerão livres as flores.»
E das flores virão rosas,
rosas brancas, para cobrir a campa
de Jan Palach.
Arde o Coração de Praga,
arde o corpo de Jan Palach,
arde o corpo do Futuro.
E já cresce a Primavera!
.
José Valle de Figueired0

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Viagem pelos Balcãs

Ao escrever o post anterior sobre o Ano Novo, dei-me conta que no Verão escrevi um post sobre a minha viagem Balcânica com o meu amigo João. Um post apenas por um motivo absolutamente plausível: o blogspot não funciona nada bem no telemóvel. Note-se que eles me sugeriam que descarregasse a aplicação do blogspot, mas eu não tenho espaço para aplicações novas, pelo que nunca o fiz.
Sendo assim, ficou o leitor ocasional deste tão brilhante quanto humilde blog convencido que a chamada "viagem Balcânica" se tinha reduzido a Zagreb. Pois que não... Percorri uma boa parte da Croácia e da Eslovénia. As pessoas deste último país, já agora, não se consideram como vindo de um país Balcânico e têm bastante razão para isso: nem do ponto de vista geográfico nem cultural o país me parece muito condizente com os outros mais a Sul. No entanto (há sempre um "no entanto"), dado que a Eslovénia fez parte da Jugoslávia e este país era considerado Balcânico, os Eslovenos ficaram assim marcados até hoje e, parece-me, assim continuarão nas décadas que aí vêm.
Todavia (como estava eu a escrever antes do desvio pelo carácter balcânico da Eslovénia) fiz uma muito simpática viagem pelos Balcãs. Teria todo o gosto de agora a descrever em pormenor, não fosse dar-se o problema de ter péssima memória e não ter feito um diário de bordo, como já fiz noutras viagens. Não obstante, muito por alto, a viagem foi mais ou menos assim:
* De Zagreb (já descrito) passámos à Eslovénia, onde visitámos Liubiliana, Lago Bled, Kransjka Gora e Skofja Luka - tudo sítios lindíssimos! Autenticamente de postal! Tanto assim que a Senhora madrecita de mi corazón decidiu pintar um quadro baseado num postal que lhe enviei do Lago Bled. Algures nessas viagens, por engano, entrámos pela Áustria e depois pela Itália adentro;
* Em Skofja Luka chovia como se não houvesse amanhã e todas as previsões diziam que a chuva se manteria na Eslovénia e Norte da Croácia nos dias que se seguiam - sendo assim, em vez de percorrermos a Península da Ístria e depois ir descendo até à Dalmácia, conduzimos num só dia cerca de 500 kms de Liubiliana até à lindíssima cidade de Split;
* De Split passámos à Ilha de Hvar e daí para a Ilha de Korcula - ambas as ilhas lindíssimas, com mar morno transparente, cidades dos tempos em que a República de Veneza dominava a região, etc. Não se pense, contudo, que estas praias são como as nossas, em que confortavelmente passeamos pela areia, jogamos raquetes, etc. Não... Aquilo é mesmo tudo em calhau, pelo que as raquetes levadas de Portugal e que fielmente me acompanharam ao longo de três semanas, não saíram do saco.
* Depois de Korcula regressámos ao continente, até Dubrovnik, sem dúvida um ponto alto da viagem não apenas pela sua extraordinária beleza mas também por me proporcionar uma das coisas que eu mais gosto na vida, um concerto que era suposto ser pago mas que foi de graça! Por engano, é certo, mas lá assisti consoladíssimo, tendo em conta que não estava a pagar nem uma kuna. E no dia seguinte lá fui a um outro concerto para o qual efectivamente tinha comprado um bilhete.
* De Dubrovnik empreendemos a viagem de regresso ao Norte, para irmos ao Parque Plitvice. A beleza natural dos Lagos Plitvice é absolutamente extraordinária mas a quantidade de pessoas que lá está também é. Ao menos deu para encontrar de forma absolutamente inesperada a minha querida amiga Carolina, que também andava a passear pela Croácia. Para não ficarmos abafados por tanta gente, decidimos afastarmo-nos dos lagos e dar um passeio pela mata do Parque, o que nos proporcionou umas duas horas de contacto com a natureza a um passo enérgico, o que foi um bom exercício.
* De Plitvice passámos a Muggia e Trieste, onde terminámos a nossa viagem em conjunto. Muggia é uma pequena cidade costeira muito engraçada enquanto que Trieste já é uma cidade bem maior que parece ter visto dias de glória, dos quais ainda mantém uma grandiosa beleza. No entanto hoje parece estar muito decadente - os edifícios em mau estado, o trânsito mal organizado... Com um bom plano de reabilitação, Trieste tornar-se-ia, de novo, uma cidade muito agradável!
E aí terminou a nossa viagem. O João seguiu para Roma de comboio e eu regressei no carro que tínhamos alugado no início da viagem a Zagreb, de onde apanhei o voo de regresso a Lisboa, a tempo de no dia seguinte ir ao casamento do meu primo homónimo.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Ano novo, vida de sempre

Dá ideia que o blogadíssimo há anos que me acompanha nas minhas resoluções de Ano Novo. Todos os anos penso: "é este ano que vou voltar a ser um blogador". Chegado a fevereiro já os posts que escrevo estão reduzidos ao número dos amigos Judeus do Torquemada...
Sendo assim, serve o presente apenas para desejar àquele leitor que por engano aqui aparecer um ótimo ano de 2019! E, já agora: bem vindo a este humilíssimo blog!