segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Uma Casa Comum: o Pressuposto II

Aquele leitor que ocasionalmente entra neste inteligentíssimo, fabulosíssimo mas, acima de tudo, humilíssimo blog por engano perguntou-me: "mas oh cidadão, então não será o pressuposto base da Encíclica estarmos a destruir a terra?"
Ora aqui está uma pertinentíssima pergunta. Sim, a Laudato Si menciona as opiniões científicas que demonstram que é a atividade humana que maximiza as alterações climáticas, leva à deterioração das águas e à perda da biodiversidade (Caps. II e III). Menciona também como isso afeta a vida de uma grande parte da humanidade, principalmente aquela que já era mais vulnerável à partida por não só ser pobre como nascer em países em desenvolvimento.
Mas eu vejo um problema nas teses científicas que demonstram que somos nós a destruir a terra, tesas que, já agora, considero que estão certas. O problema está antes em que quem rebate estas teses é normalmente identificado com sectores mais religiosos, nomeadamente dos EUA. Ora, o bom de trazer um pressuposto Bíblico para o centro da discussão, é que este muda o discurso. Não interessa então se o homem contribui ou não para as alterações climáticas. O que interessa é que o homem deve cuidar da terra como Deus cuida do homem.
Será, então, que isto quer dizer que a encíclica é só relevante para Cristãos? Não, não é. Aliás, o Papa Francisco começa por dizer que esta encíclica, ao contrário da sua encíclica anterior, a Evangelii gaudium, não é dirigida apenas aos Católicos mas a todas as pessoas de boa vontade (par. 3). Sendo assim, o pressuposto que eu escolhi para começar a minha série de posts sobre a Encíclica e a conferência a que assisti na Gulbenkian não é o único pressuposto da Encíclica. Esta tem também outros dois pressupostos. Um deles é o pressuposto científico de que é a humanidade quem mais contribuiu para o presente (mau) estado do planeta. O segundo é o pressuposto de equidade moral, sendo os mais marginalizados quem mais sofre com a destruição da terra, todos temos que fazer um esforço para parar essa destruição. Escreverei sobre estes mais à frente.

sábado, 12 de setembro de 2015

Uma Casa Comum: o pressuposto

Ontem fui a uma conferência sobre a última encíclica do Papa Francisco, a Laudato Si, na Fundação Calouste Gulbenkian. Esta foi organizada pela associação fundada pelas minhas "primas da Casa Velha". Muito de bom foi dito nesta conferência e na próxima semana vou tentar escrever aqui sobre a conferência e sobre a encíclica do Papa.
A Laudato Si parte de um pressuposto muito simples, que reflete lindamente o pensamento Cristão que se tem desenvolvido desde os tempos do Antigo Testamento. Esse pressuposto é que nós somos criaturas, o que quer dizer que fomos criados. Fomos criados à imagem e semelhança do nosso Criador, mas Ele não nos criou só a nós, mas a tudo o que nos rodeia. Isto quer dizer que nós fazemos parte de uma obra mais geral que temos, mais do que respeitar, amar.
Não amar a criação é não amar o Criador. Não cuidar dela, é desobedecer à Sua ordem: "dominai a terra". Ora "dominar" é uma palavra que vem do Latim Dominus,i (Senhor) e que quer dizer "ser senhor sobre". Nós, humanidade, devemos ser senhores sobre a terra como Deus é senhor sobre nós (a isso se chama ter sido criados à sua imagem e semelhança). E se Deus nos ama e quer o nosso melhor, é esse domínio que ele pede que exerçamos sobre a terra.
Dominar à maneira de Deus é diferente de dominar à maneira dos déspotas. Dominar à maneira dos déspotas é usar o domínio para proveito próprio sem que o destino do domínio inquiete o dominador. Dominar à imagem e semelhança de Deus é amar inteira e incondicionalmente o domínio. Se o nosso Criador cuida de nós, sabendo até quando um só dos nossos cabelos se perde, também nós devemos dominar assim a terra.
Assim, o pressuposto fundamental da Laudato Si, vem na continuação do que tem sido a doutrina da Igreja nos últimos dois milénios. Vem também na continuação do que os nossos "pais de Israel" desenvolveram no Antigo Testamento, nomeadamente no Deuteronómio. A terra foi dada em domínio à humanidade mas este domínio deve ser exercido como Deus exerce o seu domínio sobre a humanidade. Devemos cuidar dela, amá-la, preservá-la e, neste momento, restaura-la porque ela já está muito destruída.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Crónica de uma morte anunciada?

Fruto dos meus estudos recentes, muito tenho lido sobre a crise do €uro. Destas muitas leituras já concluí uma coisa: agora, no ano 2015 ou ainda em 2014 ou 2013, os autores são bastante unânimes em concordar que a moeda única estava inquinada à partida. Apontam para literatura dos anos 60 que desenvolviam o que seria uma união monetária perfeita. Citam autores Americanos tão diferentes como Krugman (Keynesiano) e Friedman (liberal) que diziam que nos moldes em que foi feita, a moeda única só podia dar errado.
Então e porquê? Porque é que que estas pessoas achavam que este projeto não podia dar certo? Basicamente porque a zona €uro não tinha três condições fundamentais:
1. É necessário que na zona haja perfeita circulação de fatores de produção. Ora na UE, por motivos culturais, linguísticos, etc. há muito pouca circulação de trabalhadores. Isso parece óbvio para quem vê os altíssimos níveis de desemprego em países como Espanha, Grécia e Portugal por oposição a baixíssimos níveis como na Áustria, na Alemanha ou até no Reino Unido.
2. É necessário que haja um orçamento comum que acorra às economias que sofram choques assimétricos. Ora o orçamento da UE é de cerca de 1% do PIB da UE.  Baixíssimo! Nem pouco mais ou menos dá para fazer este equilíbrio.
3. É necessário que haja alguma homogeneidade económica. Também isso não se verifica com enormes disparidades de rendimentos, produtividade e salários.
Se isto parece tão simples, o que me parece difícil de entender é só uma coisa: como é que nos inícios dos anos de 1990 se gerou uma unanimidade tão grande, em Portugal e em quase toda a UE sobre as vantagens da moeda única e de ser tudo feito a uma só velocidade?
Conclui que a ambição de uma Europa federal cegou os nossos políticos. Estes não se importaram de comprometer o nosso futuro económico (ou seja, o nosso presente).
Mas não conclui ainda o que se pode fazer agora. As minhas parcas noções de economia ainda não me permitiram chegar a respostas sobre o futuro. Mas começo a considerar que o que sempre considerei, que o erro que já fizemos tornar-se-ia ainda pior com uma saída do €uro, afinal pode não ser assim. Talvez (um talvez muito cuidadoso e cheio de dúvidas) uma saída do €uro fosse o menor dos males quer para os Portugueses, Espanhóis e Gregos que saíssem quer para os Alemães, Austríacos e Holandeses que ficassem.