domingo, 5 de fevereiro de 2023

Quando alguém nasce...

Uma técnica que eu uso para fazer coisas de que não gosto com algum gosto, é ouvir música e cantar a plenos pulmões. E era isto que eu hoje estava a fazer ao limpar a cozinha e a cantar ao som dos Resistência. E foi aí que veio a música do "nasce selvagem", tirada dos Delfins, enquanto eu descarregava a máquina da louça, arrumava tudo... E fiquei a pensar nela.

Foi a primeira vez que ouvi esta música enquanto pai e dei-me conta que nunca tinha notado como esta letra está errada! Quando penso na minha MM de 5 semanas penso em tudo menos em "selvagem". 

Pensemos nos animais à nossa volta. Um cavalo está a trotar ao lado da mãe ao fim de 1 hora; um pardal já esvoaça com duas semanas; com 2 meses um gato já começa a caçar...

Já o bebé humano é, provavelmente, o ser mais dependente e por mais tempo do grande mundo animal. A música diz-nos que "mais do que a (..) uma família, (...) tu pertences a ti, não és de ninguém", mas o que eu agora sinto é exatamente o contrário: um bebé nasce completamente dependente dos pais, da família, da tribo...

O que os pais procuram fazer é, ao longo das cerca de duas décadas que se seguem, tornar o bebé o mais livre (selvagem) possível. Que o bebé aprenda a comer sozinho, que aprenda a andar sem apoio, que aprenda a estudar, trabalhar... Mas ao nascer o bebé é tudo menos selvagem.

Mas, pronto, é uma boa música...




terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Ser pai com tempo

Tinha chegado há pouco tempo ao Zimbábue quando me foi proferido um ditado local: "os europeus são donos dos relógios e os africanos são donos do tempo." Vou confessar que, na altura, isto pareceu-me uma tentativa de desculpa romântica para os constantes atrasos dos africanos. Afinal de contas, pensei eu, o tempo é uma coisa que se partilha: quanto mais do "meu tempo" eu retiver, menos tempo eu concederei ao outro.

Ao fim de três anos e tal no Continente, começo a ver que não é bem como eu tinha inicialmente julgado. Não é fora de comum chegar a casa de amigos africanos à hora marcada e nada estar preparado. Para além disso, seremos os primeiros a chegar e esperaremos por todos os demais. No entanto, isso não é uma espécie de "egoísmo temporal" porque a chegada é só o início do muito tempo que estaremos juntos. Teremos mesmo tempo para conviver, debater, comer, beber... Tempo não faltará a ninguém.

Ser pai de um recém nascido põe toda a questão do tempo em perspetiva. Mais do que qualquer africano neste enorme continente, o recém-nascido é dono do tempo. O tempo de mamar é o seu tempo e pode demorar 15 como pode demorar 50 minutos. O tempo de adormecer também é seu: às vezes a questão está despachada em 10 minutos, outras vezes o primeiro endormecimento é apenas o primeiro de muitos. Nestes casos, os pais lá terão de voltar uma e outra vez a embalar até que este decida adormecer.

Mas não será isso uma intromissão no tempo dos pais? Qualquer mãe ou pai responderá a esta pergunta com outra pergunta: qual tempo dos pais? Eu prefiro perguntar: mas há alguma coisa mais importante neste momento que alimentar ou adormecer o bébé? E das profundezas da minha falta de experiência como pai, vem esta conclusão: não, nada é mais importante do que isso.

Pelo menos, por enquanto, durante a licença de paternidade. E sobre este ponto, há que louvar o legislador português que, recentemente, decidiu aumentar o tempo que os pais podem destinar aos filhos. Os pais agradecem poderem ter estes 25 dias úteis dedicados exclusivamente ao recém nascido (mais um mês no fim da licença da mãe, caso a mãe trabalhasse, o que não é o caso neste momento). Parece-me que as mães agradecerão tanto quanto os pais - francamente, não sei como seria possível a sucessão de períodos de amamentação, seguidos dos períodos de endormecimento sem descanso. Por último, parece-me que daqui a muitos anos, os agora recém nascidos também agradecerão a ligação aos pais, que as gerações que os precederam não tiveram direito.

E agora, tenho de ir dar tempo à MM, que acaba de acordar... Acaba-se o post!

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O que me ensinam estes 12 dias de paternidade

 Lições da paternidade:

1. Nem tudo o que faz sentido, é verdade

Leio que os bébés são fãs do banho, que os acalma e que até se deve dar antes de ir para a cama para estarem relaxados. O banho serviria, até, como momento de proximidade entre pais e filhos. Isto a mim fazia todo o sentido. A MM, todavia, DETESTA o banho. Já experimentámos dar antes e depois da mamada, ao acordar ou antes de mais uma sesta... Nada funciona! Já a parte final, em que eu a bezunto toda da vaselina, ela gosta. Água é que... Cruzes canhoto!

2. Quase todos os problemas de stress podem ser resolvidos com um par de maminhas

Sim, há aquelas ocasiões em que são gases ou aquelas em que a fralda está mesmo suja. Mas na maioria dos casos, só a maminha resolve um forte choro da MM.

3. Não interessa a afinação do pai

Sim, é verdade, a MM é a minha maior fã! Canto-lhe de tudo! Por vezes a Jana franze o sombrolho... Não achou o Sabão Crácrá, dos Mamonas Assassinas, uma música apropriada para uma recém nascida, por exemplo!

4. Todos os bébés são, mesmo, diferentes

Cada casal de pais mais experientes dá soluções diferentes para os mesmos problemas. "Com os meus resultava!" Pois, mas nem sempre resulta igual para todos os bébés. Se não fosse assim, eles não dariam soluções diferentes.

5. Adianta ler... E pôr as mãos à obra!

Para quem não sabe se deve ler para se preparar para a aventura da paternidade, a resposta é: sim! Quanto mais, melhor. Mas no final, é a prática que nos permite adaptarmos toda esta teoria ao nosso bébé.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Livros de 2022

No início do ano que passou, tomei a resolução de tomar nota de todos os livros que lia em 2022. A ideia era, mais ou menos por agora, fazer uma nota sobre o que tinha achado de cada um.

Não imaginava eu que o início de 2023 me iria apanhar no hospital. Pelos melhores motivos, há que dizer... 

A 30 de dezembro nasceu a miúda mais gira de que há memória na história da humanidade. Como essa miúda, por acaso, é a minha filha Madalena Maria, eu neste momento ando mais concentrado em assuntos como mamadas, troca de fraldas, fórmulas imaginativas para a adormecer, etc.

Não me sobra tempo para notas sobre os livros lidos! Mas, já que a lista está feita, aqui fica ela, sem as notas, que ficarão para quando os ciclos de sono e mamadas da MM estejam regulares...

Uma pergunta para pais mais experientes: quando é que isso acontece?

1. I will try - Legson Kayira

Um livro autobiográfico inspirador pela história de tenacidade do autor.

2. The cowards - Josef Skvoreck

Muito bem escrito sobre a reação das pessoas às invasões de que a Checoslováquia foi alvo. Li em Inglês porque não consigo ler em Checo.

3. Paciência com Deus - Tomás Halik

Não é fácil entrar na escrita de Halik, mas depois do 1o embate descobre-se um pensamento que vale bem a pena explorar.

4. Dead Aid - Dambisa Moyo

Esta economista zambiana oferece uma perspetiva refrescante sobre a ajuda ao desenvolvimento. 

5. The Joke - Milan Kundera

Muito bom! Gostei mesmo muito deste livro que descreve brilhantemente os sistemas repressivos da Checoslováquia socialista.

6. Contra mim - Valter Hugo Mãe

Algo difícil ler e pouco entusiasmante.

7. The third twin - Ken Follett

Depois de uma leitura difícil como a anterior, escolhi uma leitura mais fácil como esta. Livro entusiasmante que não queremos pousar.

8. A noite do confessor - Tomás Halik

Como já me tinha habituado à escrita de Halik, consegui entrar melhor neste e o autor não desapontou, com a sua profundidade.

9. Heads you win - Jeffrey Archer

Um dos meus autores preferidos. Nunca li um livro de Archer de que não tenha gostado muito.

10. Legacy of War - Wilbur Smith

Livro de ação no pós II Guerra Mundial.

11. Mhudi - Sol Plaatje

Ótimo livro sul africano! Bem escrito e dá uma boa ideia da sociedade e tempo em que a história se passa.

12. Vou ser Pai. E agora? - Mário Cordeiro

Se tiver que escolher o "livro do ano", não o farei pela sua qualidade literária mas sim pela sua utilidade atual, e será este. É um manual de instruções para os pais pela 1a vez. Para além deste, já li metade de um outro livro do mesmo autor, o Grande Livro do Bebé. Mas fiquei-me pela metade porque a certa altura já o bebé tinha uns 8 meses e eu decidi adiar o fim da leitura.

O que eu gostei nos dois livros é que o Dr. MC escreve para pais de hoje em dia, que querem e podem estar mais envolvidos na educação dos filhos. Eu tenho a sorte de ter tido um pai muito envolvido connosco, mas o que eu vejo em muitos pais dás gerações anteriores é que se refugiavam no argumento de "isso é lá com a mãe".

13. Mukiwa - Peter Godwin

Livro autobiográfico muito bem escrito e ideal para quem quiser entender por dentro a sociedade branca da Rodésia / Zimbabué dos anos 70 a 90.

14. Terrorism and counterterrorism studies - Edwin Bakker

Este livro não foi bem uma leitura, foi um estudo. Fiz um curso online com esse mesmo título e este era o "manual" do curso, por assim dizer. Todas as outras leituras do curso eram artigos disponibilizados online.

15. Rubainat - Omar Khayyám

Lindo! Em todos os sentidos... Um livro de poesia histórico da Pérsia antiga. A edição que eu tenho, dos anos 40, tem ilustrações lindíssimas.

16. A Porta da Europa - Uma História da Ucrânia - Serhii Plokhy

Ótimo livro para entender melhor o que está a acontecer na Ucrânia. Entender, já agora, não é aceitar.

17. Animal farm - George Orwell

Cheguei a esta proveta idade sem nunca o ter lido e tanto que vale a pena para entender o totalitarismo. 

18. Farmer Giles of Ham - J.R.R. Tolkien

Livro clássico para miúdos que agradou bastante a este graúdo. Uma horinha de leitura agradável. 

19. Diálogos Interditos (I) - Franco Nogueira

Vale muito a pena ler estas notas do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar nos anos 60. Permite entender quer a visão e vontade do governo da altura, quer as dos seus interlocutores.

O nascimento da MM apanhou-me a meio de um outro livro algo estranho: Les particules élémentaires, de Michel Houellebecq. Antigamente lia bastante em francês, mas já há algum tempo que não o fazia.  Estou a gostar de regressar a leituras francófonas, mas o livro em si é um bocadinho pesado pela forma como lida com personalidades complexas.

Para o hospital, de onde sairei hoje (fiquei cá com a Jana e a MM), decidi trazer uma leitura mais leve e cómica, The Spanish Ambassador's Suitcase, de Matthew Parris e Andrew Bryson. À conta deste livro, já tive que abafar muitas gargalhadas para não acordar a MM. Ideal para quem estiver a precisar de trabalhar os abdominais a rir.

Afinal, consegui fazer uma nota sobre cada livro! A MM já está a dormir há duas horas! Pelo meio até tomei o pequeno almoço e tudo... Que ela continue assim!