segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A Genteman is never racist (Or: how to leave Charlottesville?)

Sim, um gentleman nunca é racista, xenófobo ou de qualquer outra forma intolerante com pessoas que são como são porque nasceram de determinada forma ou vieram de outros lugares...
Não vou aqui filosofar sobre a origem do racismo na mentalidade humana. Nem sequer vou entrar no antigo braço de ferro Rousseau v. Hobbes sobre se o homem é naturalmente mau ou se, pegando na expressão dos nossos antepassados do Lácio, homo homini lupus. Mas mesmo sem grandes filosofias julgo ser fácil observar que os homens têm tendência a sentir-me mais confortáveis com aqueles que lhe mais são semelhantes em comportamento e origem cultural. De outro ponto de vista, podem recear o que é diferente, estranho ou fora da sua forma de agir. Quase como se isso fosse natural...
E é aí que entra a educação. Uma boa educação serve também para alterar maus comportamentos que até podem ser originários nos homens (de acordo com Hobbes) ou trazidos por erros educacionais (de acordo com Rousseau). Aprender a ouvir opiniões diferentes, a conviver com todo o tipo de pessoas, a adaptar-se a diferentes formas de viver e agir... No fundo, em bom português: "ter mundo".
Ora, um gentleman tem sempre mundo, tem sempre uma educação que acolhe bem a diversidade. Um gentleman vê a diversidade como uma oportunidade para repensar e até questionar as suas ideias que dessa questão podem ou sair cimentadas ou alteradas. Por isso, um gentleman não pode ser racista e um racista, daqueles que andam a agitar bandeiras nazis em Charlottesville, nunca é um gentleman.

Citações

Faço aqui uma citaçãozinha de algo que eu defendo desde sempre e que acabo de ver numa entrevista à nova Magnífica Reitora da Universidade católica Portuguesa, no Público de hoje. Se cito a Professora Isabel Capeloa Gil é também porque considero que a ideia aqui ficou melhor formulada do que eu o costumo fazer:
Lamento que tenhamos uma formulação do ensino secundário que obrigue o estudante a escolher no 9.º ano opções que são definidoras para a vida. Sobretudo se alguém quer optar por fazer Humanidades e chega ao 12.º e decide que quer ser médico. Tem de voltar atrás. Esse tipo de hiperespecialização com 14 ou 15 anos é destruidor, é o contrário de formar. Precisávamos de ter formação básica em Matemática, em Português, línguas estrangeiras, História e Física, um modelo de ensino secundário com grandes áreas de conhecimento transversais.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A gentleman is never late

Tenho noção de que este post é uma pregação no deserto aos peixes (sim, no deserto e aos peixes) ao ser escrito em Portugal. Os Portugueses, gentlemen ou não, têm com os relógios uma relação de amor-ódio. Amor se forem giros e lhes ficarem bem nos pulsos e ódio por não serem meros adereços de estética e lhes anunciarem que existem horas.
Mas isto quer dizer que os portugueses estão sempre atrasados? Não, claro! Para já nós fomos os primeiros Europeus a chegar praticamente ao mundo inteiro - os outros atrasaram-se uns 100 a 150 anos em média. Para além disso, os Portugueses combatem a sua tendência de chegarem atrasados com não estabelecerem horas.
O não estabelecimento de horas é, aliás, uma particularidade nacional. Para tal servirmo-nos da palavrinha mágica: "pelas". "Apareçam pelas 20h lá em casa" quer dizer: "nunca antes mas até às 21h ainda estão a tempo". Aliás, às vezes os Portugueses chegam mesmo a dizer "nunca antes". Aí é qualquer coisa do tipo: "venham lá almoçar a casa mas nunca antes das 13h porque é fim-de-semana e eu gosto de dormir". Isso quer dizer que se aparecerem para almoçar às 15.00 ainda vão totalmente a tempo.
Acontece, no entanto, aquelas vezes em que horas são mesmo estabelecidas. Isto acontece em quatro tipos de situação e exigem respostas diferentes:
1. Ambiente profissional - se tem a ver com o trabalho, um gentleman deve até fazer tudo por tudo para chegar 5 a 10 minutos ANTES. Isto tem a ver com ser direcionado à sala de reunião e para à hora certa poderem estar todos sentados à mesa.
2. Festas religiosas - vê-se logo que a Igreja é de inspiração divina porque é a única instituição em Portugal pontual. Se uma Missa começa ao meio-dia, não somos surpreendidos por ao meio-dia em ponto o celebrante entrar pela igreja fora. Um gentleman NUNCA se atrasa para uma Missa. Pelo contrário, até chega uns 5 minutos antes para estarem todos nos lugares quando o celebrante entra. Sempre fui educado em que "o Padre é o último a entrar e o primeiro a sair da Igreja." Já não é assim com casamentos os quais se sabe, de antemão, que vão começar com pelo menos meia hora de atraso. Aí admite-se que um Gentleman chegue uns 10 ou 15 minutos depois da hora que diz o convite mas não mais do que isso. Nesse caso deve ser a noiva (uma das celebrantes) a última a entrar.
3. Espetáculos: o mesmo que para as Missas: inacreditavelmente começam geralmente a horas, mesmo não sendo marcados por instituições de origem divina. Pelo menos 5 minutos antes o Gentleman deverá estar no seu lugar para não estar a passar à frente de toda a gente depois do espetáculo começar.
4. Para uma ocasião social organizada por um estrangeiro ou um estrangeirado.  Estas pessoas não dizem "pelas" nem "nunca antes", dizem "às". E aí isso quer dizer entre a hora estabelecida e 15 minutos depois. Não antes (a não ser que sejam íntimos) e depois só é aceitável antecedido de um pedido de desculpas por sms. Convenhamos que os transportes em Lisboa não ajudam à pontualidade, como eu já referi anteriormente, e para quem tem carro, o trânsito e os lugares de estacionamento tornam-se obstáculos. Claro que se deve procurar prevenir estes inconvenientes saindo com mais tempo do que o necessário, mas mesmo essas saídas antecipadas nem sempre são suficientes. Um sms resolve a situação, desde que o atraso não seja de mais de meia hora. Aí já se exige uns 3 sms com pedido de desculpa e justificação condizente.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lisboa menina e moça...

Lisboa está na moda e tornou-se um centro turístico à escala mundial. Basta andar pelo centro histórico para se notar as multidões de pessoas vestidas de forma desportiva e de máquina a tiracolo. Como qualquer moda, as suas consequências provocam críticas. E uma das maiores críticas que se faz é que os Lisboetas não conseguem viver no centro.
Mas será que isso foi mesmo provocado pelo turismo?
Durante décadas de congelamento de rendas e empobrecimento dos senhorios, a Baixa desertificou-se. Quando nos idos do início do século eu me deslocava semanalmente, nas noites de Segunda-feira, à Baixa, aquilo metia medo! Não só as ruas estavam desertas como dos prédios não vinha qualquer luz que denunciasse habitação. O ocasional velhote que ainda vivia naqueles prédios, fazia-o em condições que roçavam o terceiro-mundismo tal era a degradação. Nessa altura ninguém aí queria viver. Óbvio!
Hoje em dia estes mesmos prédios estão recuperados. Uns quantos servem de incubadoras de "start ups", outros de hostels e outros são apartamentos privados, muitos deles com alojamento local (vulgo AB&B) ou habitados por reformados estrangeiros em busca de uma cidade pacata e de impostos mais baixos. Sim, é difícil os Lisboetas poderem pagar para viver na Baixa, mas será mesmo culpa do turismo? E, já agora, será coincidência que é só agora que os Lisboetas se queixam que lá querem viver?
Se sairmos da Baixa, a situação repete-se. Nos últimos dois anos as rendas e os preços patrimoniais por todo o centro dispararam. Mas os negócios em Lisboa também dispararam: uns ligados ao turismo, outros "start ups", outros ainda serviços de baixo custo...
Paga-se mais pelas casas mas também se cria mais riqueza. Isso parece o natural do mercado, não é? É! Mas é para isso que servem as políticas públicas, para procurar internalizar os custos de uma economia a funcionar. Esta internalização deve procurar, claro está, não matar as galinhas dos ovos de ouro. Isto será assim tão impossível de fazer?

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Gentleman always opens the door for a Lady

Abre a porta, deixa passar primeiro, levanta-se quando a senhora chega, carrega-lhe os sacos, cede-lhe o lado de dentro do passeio... Bem, tanta diferenciação! Será que o Gentleman tem também de ser um misógeno machista que não acredita na igualdade entre homens e mulheres?
Bem, nesta altura há que explicar que igualdade implica alguma diferenciação. Tomemos o exemplo das Forças Armadas. As provas físicas de entrada nas FAs são diferentes para homens e mulheres precisamente porque se reconhece que para haver igualdade de oportunidades tem de haver um reconhecimento das diferenças.
E o que é que isto das FAs tem a ver com a forma como os Gentlemen tratam as Ladies? (espero que o meu amigo Jorge não leia isto para não me dar um murro pelo uso desnecessário de anglicismos)
Um Gentleman reconhece que apenas as mulheres podem engravidar, dar à luz e aleitar. Com todas as alegrias que essas atividades trazem, há que reconhecê-lo que são chatas como tudo! O peso da criança na barriga, as ocasionais varizes e pernas inchadas, as alterações de humor e de apetite, o parto (nem quero imaginar) e depois disso andar a servir de restaurante com as ocasionais mastites que isso provoca e tudo o mais.
Tudo isto é chatíssimo mas se as mulheres não o fizessem nós todos (homens e mulheres) deixávamos de existir e nós (homens) também não teríamos aqueles brinquedos giros que se chamam filhos e nos permitem ensinar a andar de bicicleta, levar ao jardim e fazer de burro com eles no lombo mesmo em salões respeitáveis. No fundo, abrir a porta e carregar um saco de vez em quando é a forma de um verdadeiro Gentleman agradecer por toda esta (grande) chatice. E fá-lo por todo o mundo masculino a todo o mundo feminino - não é necessário que a mulher em causa tenha sido ou planeie vir a ser mãe.
Mas um Gentleman também deve aprender a abrir exceções. Há mulheres que se ofendem com estas cortesias. Acham isto um machismo condescendente e não o resultado de uma esmerada educação que deixa os pais dos Gentlemen em causa orgulhosos. Pois então é deixá-las abrir as portas e fazer tudo o mais... 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A Gentleman is never drunk

O motivo para esta máxima é óbvio: só a malta vulgar se embebeda. Mas será que um Gentleman nunca bebe? Sim bebe! E será que nunca passa a sua conta? Sim passa! Então como é que o dito cujo Gentleman nunca está bêbado?

Isso é o segredo de um Gentleman. É que o Gentleman, mesmo que mal consiga andar e que já nem distinga entre noite e dia (acontece), está apenas "slightly under the influence".

E como é que se distingue um Gentleman slightly under the influence e um vulgar homem bêbado? Pois é simples... Se for eu, é um Gentleman slightly under the influence. Se for outro homem qualquer é um vulgar homem bêbado.

A Gentleman, such as myself...

"A Gentleman, such as myself,..." Este início de frase já se popularizou entre os meus próximos e é vista como uma exceção à minha habitual humilíssima maneira de estar. No fundo, eu estou ali entre o maior dos Gentlemen do século XXI e o mais humilde dos monges Franciscanos do século XIV.

Mas vem este post a propósito de um pedido de multidões de leitores atentos deste blog (sim, aquele leitor que por engano aqui entrou no outro dia) para que eu exponha aqui as regras para um Gentleman do século XXI.

Serve este post para um aviso prévio sobre as regras de um Gentleman: elas são sempre absolutas. Incluem sempre um "always" ou um "never". Só depois desta absolutidade aparecem as exceções. A Gentleman always loves exceptions...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Proibição de autocarros turísticos

A Câmara Municipal de Lisboa decidiu que os autocarros turísticos deixam de poder, a partir de hoje, circular no centro histórico. Esta medida, como tantas outras que a CML tem tomado para reduzir o trânsito e o estacionamento no centro de Lisboa seria ótima SE... (aqui há um enorme SE) ...seria ótima SE os transportes públicos em Lisboa estivessem a funcionar convenientemente.
Eu, que não tenho outro meio de transporte que não sejam as minhas pernas e o passe intermodal, apercebo-me da constante degradação da qualidade dos transportes públicos nesta cidade. Ao fim-de-semana e à noite, é um pesadelo apanhar um autocarro: espera-se durante horas e quando ele vem, está cheio e com toda a gente mal disposta. Durante a semana é mesmo impossível apanhar um autocarro à hora de saída do trabalho: eles estão tão cheios que nem param. E quando param é uma suadeira lá dentro de tão cheios que vão e com o ar condicionado tantas vezes ou a não funcionar ou ligado no mínimo.
Se os autocarros estão mal, o metro está ainda pior! A frequência da passagem de metros é cada vez mais reduzida. Lembro-me que antes de sair de Portugal para Macau, em 2007, nunca esperava mais que 6/7 minutos pelo metro. Hoje em dia já cheguei a esperar 15 minutos. Ainda para mais, vá-se lá entender porquê, aos fins-de-semana, quando a cidade está a bombar de turistas, os metros estão reduzidos a três carruagens! E melhor ainda é quando o ar condicionado da estação está avariado, como acontece por vezes na estação do Saldanha, e nós estamos 15 minutos a pingar.
Com esta nova medida ficamos a saber que todos os turistas que apanhavam autocarros de grupo para o centro histórico de Lisboa, vão passar a apanhar os transportes públicos! Já não era fácil o acesso àquela zona... Claramente isto é para que nós, Lisboetas, nem tenhamos a ousadia de ir ao centro da nossa cidade.
Aos poucos Lisboa vai-se barcelonizando: o centro histórico é apenas para turistas porque os lisboetas nem lá conseguem aceder.