terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Retomar...

Retomar é daqueles verbos que parecem indesejados. Só precisamos de retomar quando perdemos alguma coisa. Às vezes damos por nós a trabalhar para retomar alguma coisa que tivemos mas que nem tínhamos desejado em primeiro lugar ou que nem valorizávamos enquanto a tínhamos.

Vendo as coisas assim, ficamos a pensar que a retoma está também ligada à valorização. Só queremos retomar algo que passámos a valorizar.

A pandemia em que vivemos faz-nos querer retomar tanto do que tínhamos antes. 

Na melhor das hipóteses, queremos retomar a liberdade que, entretanto, aprendemos a valorizar porque antes da pandemia a tomávamos por adquirida. A liberdade de sair de casa quando queremos, a liberdade de viajar, a liberdade de estar com as pessoas de quem mais gostamos, independentemente das idades delas. Isto nos sentirmos um perigo potencial para aqueles a quem mais bem queremos é uma prisão das piores que podemos ter.

Mas há casos piores do que apenas a liberdade. Há casos de perda de trabalho e rendimentos, por exemplo. Quantas pessoas não foram despedidas no último ano? Quantas pessoas tinham investido em negócios que estão agora parados e a dar prejuízo? O nosso trabalho é mais do que apenas aquilo que fazemos para nos sustentarmos, é também o nosso lugar na sociedade. Quando trabalhamos, somos aquela pequena peça na engrenagem que faz tudo funcionar melhor. Assim, há tanta gente agora a querer retomar o seu lugar.

Há também aqueles que querem retomar a saúde perdida para o COVID. Pessoas que querem voltar a fazer uma aula de yoga mas nem conseguem respirar fundo. Pessoas que querem voltar a correr 5 kms por dia, mas ficam exaustos ao fim dos primeiros 500 metros. Pessoas que levantavam 50 kgs e agora não conseguem mais que 5!

Por último, há, claro está, aqueles que querem retomar o que é impossível... A vida com aquelas pessoas mais queridas que morreram durante esta maldita pandemia. Nem é preciso terem morrido com o vírus, podem ter tido um ataque de coração. Mas tantas vezes são aqueles casos de pessoas com quem já não estavam há meses por causa do COVID ou a quem gostariam de dar um último adeus mas não puderem porque estas regras dos hospitais e das funerárias são feitas para nos proteger a todos. Nestes casos a retoma passa apenas por valorizar o exemplo que estas pessoas deixam e, quem sabe, por planear juntar toda a gente para celebrar a vida do que nos deixaram. Daqui a muitos meses, claro está!

Dá ideia que o retomar é sempre o mais difícil. Voltar a fazer o caminho que antes fizemos já sem aquele saborzinho bom da novidade. A frustração de repisar as nossas pegadas.

Dei por mim a pensar isto da retoma quando fazia os primeiros exercícios desde que, há quase seis semanas fui operado. O meu médico disse-me que só agora poderia retomar e que teria de ser lentamente, porque as hérnias são o maior perigo do meu pós operatório. Vai daí, encontrei no youtube um vídeo de exercícios para quem foi operado. Foram apenas 10 minutos de exercícios tão leves que nem comecei a suar. 

E foi nesses 10 minutos que comecei a pensar em tantas retomas que agora ocorrem ou que ainda nem ocorrem porque as condições para tal pura e simplesmente não existem. E rezei por todos estes milhões de retomas individuais a acontecer ou à espera de acontecer... Por todos estes milhões de sentimentos individuais de frustração. 

Rezei que esta frustração se possa transformar em vontade de retomar e de ultrapassar o antes alcançado. E agradeci a Deus que a minha mini retoma me tenha ajudado compadecer-me mais de todos aqueles que estão a precisar de retomas muito maiores.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Cirurgia em Lisboa

 No primeiro post do ano comecei por dizer que este ano me apanhou em Lisboa porque no dia em que deveria ter regressado a Harare o meu apêndice decidiu que não queria regressar comigo. Enfim, foi um apêndice educado e considerado porque se manifestou na altura certa - um dia mais tarde e apanhar-me-ia em pleno voo...

Mas, mais do que a educação e consideração do meu apêndice, o que eu queria era elogiar a equipa que tratou de mim. Fui operado no Hospital de São Francisco Xavier mas por uma equipa de banco vinda do Hospital Egas Moniz. Esta era liderada pela Dra. Ana Alves Rafael e dela fazia também parte o Dr Miguel Fróis Borges. 

Antes de continuar, devo dizer que, de forma muito injusta não fiquei com os nomes do resto da equipa: médicos, enfermeiros e auxiliares. Estava ali eu estendido na maca, cheio de tempo para trocar cartões de visita, o que até me teria permitido desanuviar um pouco das dores, mas esqueci-me de o fazer! Há coisas em que sou incorrigível...

Mas voltando à equipa de cirurgia: foram absolutamente impecáveis! Aliás, o bom ambiente que se vivia no Hospital de São Francisco Xavier animava até um doente estendido na maca com apendicite. Ainda para mais, a operação não foi bem trigo limpo - a inflamação tinha-se estendido ao cego que não é uma pessoal invisual, é o fim do intestino grosso, pelo que eles tiveram ali três horas de muito trabalho. O desafio foi bem difícil mas a equipa portou-se lindamente!

Depois da cirurgia, foi a recuperação. Como a minha equipa era do Egas Moniz, foi para este hospital que fui recuperar. Também aqui a equipa de enfermeiros e auxiliares não podia ter sido melhor! Simpáticos, prestáveis, com humor... E a compreenderem as minhas excentricidades, o que é importante. Acho que não devem ter muitos pacientes a dizerem que são alérgicos à televisão e que precisam de uma sala silenciosa para lerem em paz, mas isso arranjou-se!

Na recuperação foi o Dr. Miguel Fróis quem me acompanhou e que, pacientemente, foi respondendo às listas de perguntas que eu ia escrevendo em lembretes do telemóvel para não me esquecer. Ainda para mais, era uma pessoa inteligente, de leituras interessantes, do género que eu até teria gostado de conhecer numa situação menos dolorosa para falar de assuntos bem mais interessantes do que sobre o meu apêndice.

Bem... Como podereis ter visto, serve este post como reconhecimento pelo ótimo trabalho e agradecimento sincero a todo o pessoal médico, de enfermagem e auxiliar que tão bem cuidaram de mim em São Francisco Xavier e Egas Moniz entre 26 e 30 de dezembro. Na pouca provável eventualidade de algum deles vir a ler este post: MUITO OBRIGADO! 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Energia Positiva

Sempre que acedo ao facebook, ele, muito simpaticamente vai-me dizendo quais os meus amigos que fazem anos. Infelizmente, não acedo todos os dias a esta muito útil plataforma pelo que se o prezadíssimo leitor deste humilíssimo post é meu amigo e não recebeu uma mensagem de parabéns, isso foi porque eu nesse dia não acedi ao facebook.

Mas é mesmo sobre mensagens de parabéns que eu queria falar. O facebook não sugere que eu envie uma mensagem de parabéns, sugere antes que eu envie energia positiva. 

Energia positiva...

Isto fez-me lembrar umas férias que passei na Praia Grande com uns primos que estavam viciados no Dragon Ball, o que me levava a também ver aquilo. De facto, a minha primeira ideia quando li isto da energia positiva é que eu me deveria transformar no Songoku e dar um salto daqueles improváveis, enquanto envio uns faixes de luz aos meus amigos ao mesmo tempo que grito: POOSIITIIVAAAAA! Infelizmente, aos 40 anos já posso começar a fazer contas aos cabelos que tenho e eu acho que me transformar numa personagem toda brilhante aos saltos e com feixes de luz mas pouco cabelo seria ridículo.

Vai daí, tenho-me sempre recusado a obedecer ao facebook e nunca mandei um watt que fosse de energia positiva a ninguém. Mas também me custa ser do contra, desobedecer ao facebook e não enviar nada disso da energia positiva a ninguém. 

Vai daí, hoje fiz um google para saber o que era energia positiva, para que a pudesse começar a enviar a pessoas. Não surpreendentemente, fui dar a um site brasileiro. Digo "não surpreendentemente" porque parece-me que os nossos irmãos do Hemisfério Sul gostam muito deste tipo de coisas que eu entendo pouco, tipo xacras, mantras, reiki e outras coisas tão energéticas como aquelas bebidas que ingerimos quando estamos numa maratona. 

Não obstante a minha pesquisa e a promessa do site de responder à minha resposta, fiquei sem saber bem o que era... Eles apenas diziam que quando se envia energia positiva ela vem de volta para nós. Ou seja, é uma espécie de boomerang. Mas como atirar para os outros algo difícil de explicar? Os nossos irmãos do outro lado da viagem de Sacadura Cabral explicam que para termos energia positiva, temos de ter em casa samambaias (fetos), muitas janelas, fotografias de pessoas queridas e muitas cores. Pelos vistos, depois de termos estas coisas em casa, vamos poder atirar com energia positiva à cara dos outros e eles responderão na mesma moeda.

E lá continuei sem saber o que isso da energia positiva era. Ainda para mais fiquei sem perceber porque é que o facebook quer que tenhamos fetos em casa! Mas, pensando bem, em altura COVID ninguém quer testar positivo. Toda a gente espera ansiosamente que o resultado de levarmos com zaragatoas pelo nariz acima seja negativo. Vai daí, está decidido: vou continuar a desobedecer ao facebook e a não enviar energia positiva a quem quer que seja.

domingo, 3 de janeiro de 2021

2020 em revista

É aquela semana em que toda a gente passa o seu ano em revista. Eu, que não gosto de ser exceção, decidi fazer o mesmo. Mentira... Eu gosto de ser exceção, mas decidi não sê-lo agora.

Entrei em 2020 em Harare a viver numa casa absolutamente vazia. Vazia, mesmo! Dentro da casa tinha uma cama e um mini-frigorífico, ambos emprestados, e na varanda tinha uma mesa e umas cadeiras desdobráveis, também emprestadas. Nessa altura a empresa de transportes que levou o meu contentor para África dizia-me que este estava atrasado... E como a minha mobília ia chegar, eu não ia começar a comprar mobília nova, pelo que, para me sentar a ler, por exemplo, sentava-me no chão e encostado à parede. Foram, certamente, os meses mais desconfortáveis da minha existência!

Passados dois meses, lá nos foi dito que o contentor estava perdido. Um contentor de 20 pés perdeu-se! Evaporou-se... Desapareceu sem ser notado do porto de Durban! Eu, que absolutamente detesto fazer compras, passei o ano a comprar coisas para ter uma casa minimamente apresentável. Esta necessidade constante de fazer compras já bastaria para me estragar o ano.

À medida que o novo ano ia entrando com mais força, cresceu o alarme com esta nova Pandemia vinda de Wuhan. Este alarme teve alguns aspetos positivos - um deles foi a OMS em Harare passar a precisar de uma consultora médica para questões epidimiológicas. E a Jana estava à procura de trabalho... As duas vontades casaram-se lindamente e desde fevereiro que a Jana se tornou uma OMSista em Harare.

Perante o aumento de casos da COVID no Zimbábue, o Governo decidiu entrar em lockdown em março. Os dois meses em que  a Jana e eu trabalhámos a partir de casa até foram bons. Por exemplo, tivemos mais tempo para estar juntos, para delinearmos o que gostamos de fazer como casal (omelete ao pequeno-almoço, passeio ao fim do dia, etc.). Apesar de ter muitas reuniões online, escrever muitas análises e atender muitos telefonemas de cidadãos a querer regressar a Portugal, desses dois meses guardo a recordação de que tinha tempo para fazer tudo! O facto de termos alguns amigos a viver no mesmo condomínio, o que nos permitia continuar a ter alguma vida social, apesar de não podermos sair à rua, também ajudava.

O pior da COVID estava mesmo para vir... O nosso casamento estava marcado para se realizar na Chéquia em Abril e logo no início de março vimos que a pandemia não ia deixar. Remarcámos para Outubro porque não havia outras datas disponíveis até lá, mas também essa data foi cancelada. Estes adiamentos "até mais nunca" deixaram-nos aos dois tristíssimos mas de certa forma até nos aproximou como casal.

Desde o fim do lockdown, que a Jana e eu aproveitámos para conhecer o Zimbábue. Até porque não podíamos ir a mais lado nenhum. Mas isso valeu mesmo a pena! É um país lindíssimo e com muito para oferecer em termos de natureza. Infelizmente, os preços são tão caros que torna incomportável à comum pessoa lá ir passar umas férias. Nós conseguimos aproveitar os preços terem sido cortados por causa da Pandemia, chegando os hoteis a fazer 1/3 dos preços originais.

Este ano teve a particularidade de ser a minha entrada nos entas. Ah pois é, nascido em 1980... Entrei da melhor forma! A Jana organizou-me uma festa com muitos amigos de Harare lá em casa. Não apenas é uma casa com jardim, pelo que estávamos todos ao ar livre, como nessa altura os números de novas transmissões estavam longe de alarmantes.

Infelizmente, os planos para outras viagens em África tiveram de ser adiados até um pós-COVID que o permita.

O ano acabou em Portugal. Não era suposto ter acabado cá, porque devíamos voar no dia a seguir ao Natal . No entanto, à hora do dito regresso estou eu estendido numa maca no Hospital de São Francisco Xavier à espera de uma cirurgia urgente! Foi o meu apêndice que não quis regressar a África... Não posso deixar de ver a mão de Deus em que esta situação macaca se tenha passado em Lisboa e não no voo ou até em Harare! Claro que preferia que o meu apêndice nunca se tivesse manifestado mas, se ele tinha que dizer alguma coisa, ao menos deixou-me viver o Natal mas não me deixou viajar!

Assim, a poucos dias do fim do ano vi-me nas mãos de uma equipa de absoluta excelência a ser operado em Lisboa. Mas isso já é matéria para um post futuro.

Bom ano novo a todos!