Retomar é daqueles verbos que parecem indesejados. Só precisamos de retomar quando perdemos alguma coisa. Às vezes damos por nós a trabalhar para retomar alguma coisa que tivemos mas que nem tínhamos desejado em primeiro lugar ou que nem valorizávamos enquanto a tínhamos.
Vendo as coisas assim, ficamos a pensar que a retoma está também ligada à valorização. Só queremos retomar algo que passámos a valorizar.
A pandemia em que vivemos faz-nos querer retomar tanto do que tínhamos antes.
Na melhor das hipóteses, queremos retomar a liberdade que, entretanto, aprendemos a valorizar porque antes da pandemia a tomávamos por adquirida. A liberdade de sair de casa quando queremos, a liberdade de viajar, a liberdade de estar com as pessoas de quem mais gostamos, independentemente das idades delas. Isto nos sentirmos um perigo potencial para aqueles a quem mais bem queremos é uma prisão das piores que podemos ter.
Mas há casos piores do que apenas a liberdade. Há casos de perda de trabalho e rendimentos, por exemplo. Quantas pessoas não foram despedidas no último ano? Quantas pessoas tinham investido em negócios que estão agora parados e a dar prejuízo? O nosso trabalho é mais do que apenas aquilo que fazemos para nos sustentarmos, é também o nosso lugar na sociedade. Quando trabalhamos, somos aquela pequena peça na engrenagem que faz tudo funcionar melhor. Assim, há tanta gente agora a querer retomar o seu lugar.
Há também aqueles que querem retomar a saúde perdida para o COVID. Pessoas que querem voltar a fazer uma aula de yoga mas nem conseguem respirar fundo. Pessoas que querem voltar a correr 5 kms por dia, mas ficam exaustos ao fim dos primeiros 500 metros. Pessoas que levantavam 50 kgs e agora não conseguem mais que 5!
Por último, há, claro está, aqueles que querem retomar o que é impossível... A vida com aquelas pessoas mais queridas que morreram durante esta maldita pandemia. Nem é preciso terem morrido com o vírus, podem ter tido um ataque de coração. Mas tantas vezes são aqueles casos de pessoas com quem já não estavam há meses por causa do COVID ou a quem gostariam de dar um último adeus mas não puderem porque estas regras dos hospitais e das funerárias são feitas para nos proteger a todos. Nestes casos a retoma passa apenas por valorizar o exemplo que estas pessoas deixam e, quem sabe, por planear juntar toda a gente para celebrar a vida do que nos deixaram. Daqui a muitos meses, claro está!
Dá ideia que o retomar é sempre o mais difícil. Voltar a fazer o caminho que antes fizemos já sem aquele saborzinho bom da novidade. A frustração de repisar as nossas pegadas.
Dei por mim a pensar isto da retoma quando fazia os primeiros exercícios desde que, há quase seis semanas fui operado. O meu médico disse-me que só agora poderia retomar e que teria de ser lentamente, porque as hérnias são o maior perigo do meu pós operatório. Vai daí, encontrei no youtube um vídeo de exercícios para quem foi operado. Foram apenas 10 minutos de exercícios tão leves que nem comecei a suar.
E foi nesses 10 minutos que comecei a pensar em tantas retomas que agora ocorrem ou que ainda nem ocorrem porque as condições para tal pura e simplesmente não existem. E rezei por todos estes milhões de retomas individuais a acontecer ou à espera de acontecer... Por todos estes milhões de sentimentos individuais de frustração.
Rezei que esta frustração se possa transformar em vontade de retomar e de ultrapassar o antes alcançado. E agradeci a Deus que a minha mini retoma me tenha ajudado compadecer-me mais de todos aqueles que estão a precisar de retomas muito maiores.
