quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Burkini... Or the life of others

O burkini foi de um momento para o outro catapultado para a ribalta por um Presidente da Câmara Francês o ter proibido. Já li tantos artigos a favor e contra o burkini que já não sei o que pensar.

De um lado temos o respeito pelas liberdades mais básicas, como a liberdade religiosa e até (porque não?) a própria liberdade de aparência. Do outro lado temos certos governos estrangeiros a promover o conservadorismo Islâmico (de que o burkini é apenas um sinal) com finalidades políticas. Entre uma coisa e outra não gosto nem que se comprometa as liberdades na Europa nem que esta se deixe conduzir por governos estrangeiros com más intenções.

Racionalmente não consegui tomar nenhuma decisão. Mas neste Domingo, na praia, tomei uma decisão mais emocional. Uma decisão baseada numa experiência vivida em vez de uma teoria pensada.

Fui à praia com uma família de amigos Muçulmanos: pai, mãe e dois filhos pequenos. Enquanto o pai e eu passámos horas na água com os miúdos, a mãe ficou ou à torreira do sol ou à sombra das rochas, mas em qualquer dos casos não veio para a água porque estava vestida. Apesar dela não ser, de todo, uma fundamentalista (aliás, eles estão cá em Portugal porque fugiram dos fundamentalistas), não se sente confortável em destapar a cabeça em público nem em mostrar o corpo. Se não pudesse sequer ficar vestida na praia, teria que esperar fora da praia pelo marido e filhos, vendo-os a divertir-se à distância. Já se ela tivesse um burkini, é bem possível que estivesse a brincar na água com as crianças...

Isto fez-me ver que o burkini não é assim tão mau. Eu não estava com nenhuns fundamentalistas e claramente não era o marido a impor que ela usasse o véu. O véu não lhes vem como afirmação política e nos três meses que eles já levam em Portugal, vejo que gostam do nosso país e de cá estar. Bem sei que não há justificação racional para a diferença entre sexos (pai de calções de banho, mãe coberta) e que aquela indumentária pode ser vista como uma bandeira política. Mas aquela mulher devia poder sentir-se à vontade de brincar com os filhos na água.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Televisão em casa

Desde que me mudei para a minha casa nova que não tenho televisão em casa. Já muitas vezes antes vivi sem televisão, mas agora sinto que a pressão para ter televisão se adensa com diversos amigos a perguntar se eu não fico "isolado do mundo", se não tenho "medo de não estar a par com as notícias" ou ainda se não me sinto sozinho porque, aos olhos de muitos, a televisão é "uma companhia".

Então vamos por pontos:

1. Não, não me sinto isolado do mundo. Pelo contrário. Noto que não ter televisão em casa me leva a convidar mais vezes pessoas para lá jantar ou beber um copo. Também me leva a sair mais de casa para ir correr, para ir ao LX factory ou outro sítio ao pé de casa beber um copo com um amigo ou um livro. E por vezes até me apetece estar sozinho em casa - sem barulho de televisão, com uma música de fundo a consultar a net ou a ler um livro. Julgo até que não ter televisão promove que o meu flatmate e eu jantemos mais vezes juntos e fiquemos ali à mesa a falar até ir dormir em vez de estarmos a embrutecer em frente àquela caixa sem inteligência.

2. Estou a par das notícias que me interessam através da leitura diária de vários jornais e sítios online que eu considero de qualidade. Já os telejornais estão cheios de notícias que não me interessam para nada e que eu até considero estupidificantes. Claro que há programas de debate na televisão mas os mais interessantes até estão online.

3. Devo confessar que considero deprimente ver-se a televisão como uma "companhia." Quando alguém me pergunta se eu não sinto falta dessa "companhia", fico logo com pena dessa pessoa. Convido para que apareça lá em casa quando precisar de companhia em vez de se sentar a ver umas pessoas que apenas se interessam de serem vistas para poderem ganhar dinheiro.

Ao reler o que escrevi, dá a ideia que sinto alguma superioridade moral ou intelectual por não ter televisão. Devo confessar que estaria a ser falsamente humilde se negasse que isso acontece. Mas a verdade é que estou em condições muito próprias. Para começar estou no centro de Lisboa num bairro giro e cheio de coisas para fazer quando chego a casa. Para além disso tenho um trabalho que gosto e que partilho com pessoas interessantes e intelectualmente estimulantes pelo que o meu dia-a-dia já é cheio de debate e informação. Por último tenho o passe e muitos autocarros e eléctricos à porta que me permitem ir onde quiser em vez de ficar em casa a ver televisão. Se eu vivesse no meio do nada, passasse o dia sozinho e tivesse dificuldade em deslocar-me, talvez então quisesse ter televisão. Ou isso ou fazia tudo por tudo para mudar de vida. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Natureza humana

Ontem tive uma estória muito gira, que aqui gostaria de partilhar. Trata-se de um episódio que julgo que revela muito sobre a natureza humana.

Tudo começou com o convite de um amigo de Macau. Ele estava em Lisboa muito pouco tempo e organizou um copo com os amigos de Lisboa às 10 da noite no Clube de Rugby do Direito, em Monsanto

Eu aceitei pelo que, seguindo as instruções do google, lá fui apanhar o autocarro 724 que me deixaria lá à porta. Mas esta informação googliana estava errada! Ao chegar à paragem vi que àquela hora já o dito cujo autocarro não parava lá à porta. Depois de um diálogo com o motorista, houve um rapaz que me sugeriu sair numa paragem diferente do que o motorista me sugeria e ofereceu-se acompanhar lá. Eu aceitei e só quando estávamos a sair do autocarro é que eu percebi que ele não tinha planeado sair nessa paragem porque a mulher e o filho continuaram para a próxima.

Foi então que ele me explicou que era "ali do bairro", que sabia que havia ali muitos assaltos e que achou que havia uma probabilidade de eu ser assaltado se ele não fosse comigo. Até eu, que sou em geral optimista em relação às pessoas, fiquei surpreendido com tanta simpatia desinteressada. Mas esta era real: ele lá me levou à entrada do Clube de Rugby e depois de se despedir voltou atrás para andar bastante mais do que teria andado se tivesse saído na paragem com a mulher e o filho.

Estas estórias não saem tanto nas notícias como aquelas sobre a maldade humana. Mas a verdade é que esta estória é tão real e revela tanto sobre a natureza humana como a do rapaz de 14 anos que foi deixado em coma por um de 17 e tantas outras que pululam na nossa comunicação social...