terça-feira, 3 de novembro de 2020

Regras para viver num mundo psicótico

Cada vez mais parece que estamos a viver num mundo psicótico. Num estado de psicose, alguém não consegue distinguir o que é real ou fruto de delírios. Ora, o que acontece hoje em dia é que podemos ler histórias tão diferentes sobre os mesmos eventos escritas por pessoas tão convictas (e convincentes) da sua razão que ficamos sem saber o que é a realidade. Tal como Pilatos, ficamo-nos a interrogar, "quid est veritas"?

Este estado de coisas tem muito a ver com o atual papel que as redes sociais têm na informação das pessoas. Num período anterior às redes sociais, as notícias eram difundidas por meios de comunicação social. Estes podiam ter muitas falhas, mas os jornalistas eram regidos por um código de ética e na maior parte dos países democráticos havia algum órgão independente de supervisão da comunicação social.

No mundo das redes sociais, qualquer um pode lançar as notícias que entender e estas difundem-se com uma enorme rapidez. Para além disso, estas notícias são eivadas de preconceitos ideológicos e apresentados com uma enorme agressividade - estas características seriam mal vistas num profissional mas são toleradas num comentador leigo.

Vai daí, decidi compilar algumas regras para viver neste mundo psicótico.

1. Se parece um disparate é porque, muito provavelmente, é mesmo.

Uma das primeiras notícias virais que se difundiam ainda antes das redes sociais era de que havia gente a deixar seringas com SIDA nas cadeiras dos cinemas para infetarem a população. Era estúpido, parecia inverosímil mas, na realidade, passei a olhar bem para os sofás dos cinemas antes de me sentar. O medo vende bem... O senso comum, quando em conflito com o medo, normalmente perde. O que nos faz falta é mesmo ter mais senso comum e menos medo.

2. Confiar na boa fé das pessoas, mesmo dos políticos.

Boa fé parece  uma coisa fora de moda - o que está na moda é a desconfiança. O primeiro grupo de que se desconfia é o dos políticos - só a palavra soa hoje a insulto. Mas esses não são os únicos: desconfia-se dos professores (que querem fazer lavagem cerebral às criancinhas), dos médicos (que estão feitos com as grandes farmacêuticas para nos tirar o dinheiro), dos padres (aquilo do celibato provoca perturbações)... Os exemplos podiam-se multiplicar e pensar o contrário é visto como ingenuidade e até alguma patetice. No entanto, confiar na boa fé dos outros faz-nos bem e faz-nos fazer bem. Ao contrário de patetice, é a atitude mais racional porque permite-nos adotar comportamentos que nos fazem bem e que, caso contrário, serão reprimidos.

3. Multiplicar a nossa experiência empírica.

Isto é quase voltar à primeira regra, mas tem algo de novo. Se as pessoas que conhecemos dão-nos causa para pensar que são boas pessoas, podemos presumir que as que não conhecemos também o são. Peguemos nos exemplos anteriores. Já conheci muitos políticos (de diferentes tendências políticas), muitos professores (de diferentes disciplinas), muitos políticos (de diferentes especialidades) e muitos padres (de diferentes ordens e nenhuma)... Ora, a maioria dos políticos que conheci apenas via na política uma forma de promover o bem comum; a maioria dos professores viam no ensino uma forma de melhoria de vida dos seus alunos; a maioria dos médicos estava empenhada em tratar os pacientes; e a maioria dos padres queria ajudar as pessoas a viver mais perto de Deus. Se assim é com as pessoas que eu conheço, porquê desconfiar tanto dos que não conheço? Porquê inventar motivações escondidas para as suas ações?

4. Check, and check, and check again... E, em caso de dúvida e falta de tempo, não reenviar.

A tentação de reenviar aquela notícia exclusiva que recebi é sempre grande. Mas, se algo me faz desconfiar da sua veracidade, deverei verificar antes de enviar. E, se a fonte de verificação não nos parece segura, verificar de novo. Caso não tenha tempo, apenas não reenviar a notícia.

5. Pensar...

O que nos faz falta hoje em dia é mesmo pensar nas coisas. Pensar longamente... Pesar os prós e contras, avaliar as coisas com a razão e (porque não?) o instinto ou coração. Não nos lançarmos numa opinião insensata apenas porque é a primeira que nos vem à cabeça e procurar ver as consequências dos nossos atos. E estudar... Estudar o que nos vem à mão, desde que com qualidade. Estudar ciências, história, filosofia, arte, política... Não nos ficarmos nas nossas áreas de formação académica e procurar sempre aprender mais.

Estas cinco regras, que me tenho esforçado por praticar, têm-me ajudado a viver de forma que, julgo eu, é um bocadinho mais sã neste mundo psicótico das notícias falsas e das verdades alternativas.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Global Peace Index 2020

Portugal mantém-se este ano em 3º lugar no Índice Global de Paz.
Quando se vê os motivos para tal, nota-se que muitos dos indicadores que contribuem para tal têm a ver com as opções da diplomacia Portuguesa que se mantém constantes nas últimas décadas. Estas opções primam pela colaboração com as missões de manutenção de paz das Nações Unidas, pela sua relação com os países vizinhos (Marrocos também conta, não é só Espanha) e pela sua conformidade ao Direito Internacional, nomeadamente no que diz respeito às armas de destruição maciça.
Assim sendo, a Diplomacia Portuguesa também está de parabéns...

Sem ter nada a ver com a minha altamente isenta palmadinha nas costas à diplomacia portuguesa... Achei estranho que a Chéquia descesse de posição quando todos os que estão acima dela se mantiveram iguais. Ora, achei que de algum lugar ela deveria ter descido. Fui ver e em 2019 a Chéquia estava em 10º lugar, logo ultrapassou os países que estavam acima de si: Eslovénia (que passou de 8º para 11º) e Japão, que se manteve em 9º. Aquilo das setinhas não está muito fiável! Mas lá que Portugal se mantém em 3º lugar, isso mantém-se...

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O QUE É AMAR UM PAÍS

- Discurso do Cardeal Dom Tolentino Mendonça - X.VI.MMXX
Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.
É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.
Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança - mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.
Camões e a arte do desconfinamento
Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura - àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.
Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.
Que a crise nos encontre unidos
Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.
No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.
Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.
O que é amar um país
O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.
O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.
Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.
Reabilitar o pacto comunitário
O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.
É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.
Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.
Fortalecer o pacto intergeracional
Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.
A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.
Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.
Implementar um novo pacto ambiental
A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.
Uma viagem que fazemos juntos
Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.
Cardeal José Tolentino de Mendonça
Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 10 de junho de 2020

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões

terça-feira, 9 de junho de 2020

Contar o tempo em isolamento

De um momento para o outro, ia ter tempo para tudo! Quando foi decidido que eu ia trabalhar a partir de casa, ainda para mais tendo em conta o panorama de isolamento social em que se vivia, eu achei que era agora que ia por a leitura em dia, que ia começar a escrever mais neste blog, que ia começar a escrever mais em geral, que ia estudar mais Checo...
O isolamento não aconteceu exactamente assim...
Já há mais de um mês que voltei a ir à Embaixada quase todos os dias e já olho para o período de isolamento como pertencendo ao passado. E, como balanço, em isolamento não fiz metade do que queria fazer.
De facto, li bastante mais, mas foram principalmente coisas sobre o Zimbábue. Li mais notícias, artigos de fundo, comentários, etc. que não tenho tempo para ler quando ando a correr de um lado para o outro na Embaixada e da Embaixada para reuniões.
Para além disso, as reuniões de trabalho multiplicaram-se! Ele é zoom, ele é webex, ele é google groups... De um momento para o outro, passou a ser necessário discutir tudo e mais um par de botas! E que bem que soube poder ver e falar com tantas pessoas! Mas agora, já chega! Esta coisa de não no encontrarmos fisicamente, de não trocarmos umas impressões antes da reunião ou na pausa do café, de não combinarmos a seguir ir almoçar... Não é bom!
Outra coisa que se multiplicou foi o tempo na cozinha! Os pequenos almoços cada vez mais sofisticados, os almoços e jantares quase a merecerem estrelas michelin...
E ler coisas que não sejam de trabalho? Li alguma coisa, mas menos do que esperava.
E estudar Checo? Eish... Lá ia investindo uns minutos por dia no duolingo mas vontade? Nenhuma!
Quanto a escrever no blog. Não preciso de dizer nada... Basta ver que dois meses completos se passaram sem nenhum post! Nem unzinho! Abril e Maio foram para este blog um vazio de matéria!
E assim se passou um período de isolamento... Talvez no próximo!

sábado, 28 de março de 2020

Sous l'oeil de l'ange

Comecei a prestar atenção à letra de uma música de um CD que a Jana tinha no carro. Não a tinha entendido bem ao princípio porque é cantada muito rápido mas fui percebendo cada vez melhor e a letra parecia-me linda! Hoje cheguei a casa e fui googlar a música para a entender melhor. Não podia fazer mais sentido nestes dias de medo e de isolamento!
Traduzi-a em baixo na esperança que faça sentido a mais gente. E que fiquem sob o olhar de um anjo...





Ele disse-me um dia, escuta, pequeno
Vai depressa, aproveita a tua sorte
Vive o teu sonho, a vida sorri-te
Em um segundo, um sim, um não

Passas ao lado
Não penses no vento da coragem
Vai em frente
Serás recebido por aqueles que te amam

Aqueles que no fundo de um olhar
Em silêncio te entendem
E eles compartilharão as mesmas tristezas, as tuas
Essas centenas da raiva, quando falas demais

As vezes que nada dizes, nada fazes
Quando sentes que vives
Sempre o mesmo quotidiano
Não baixes os braços, não desistas

Aproveita o tempo para te dizer
Que existe um anjo atrás de ti
Levanta-te e encontra o mais forte de ti no fundo de ti
A felicidade está ao alcance dos dedos, não a esqueças

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que soube permanecer forte
Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que eles ainda não nada viram 

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que encontrei a paz
Sob o olhar do anjo
Soube perdoar e soube cantar

Terás de saber
O que se esconde numa derrota e
Encontra a porta no escuro que daí brotar
E recomeçar a sonhar

É nos sonhos que se esconde
A porta para o eterno conto de fadas
Moldarás a tua vida com tuas mãos
O suor na tua testa

Será o pão para o teu amanhã
Vai e sê o melhor no que fizeres
Não desistas e Deus te guardará
Ele vai falar contigo sobre tudo e nada

Ele tem as melodias, as chaves do mal e do bem
Ele fará a tua história, Ele escreverá o amanhã
Ele terá as tuas memórias na palma da Sua mão
Vai e sabe que tens tudo o que é necessário
E bem mais do que é necessário
Mas dá-te a ti mesmo o tempo necessário, olha para cima

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que soube permanecer forte
Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que eles ainda não nada viram 

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que encontrei a paz
Sob o olhar do anjo
Soube perdoar e soube cantar




sábado, 14 de março de 2020

O que estaria disposto a fazer para proteger uma minoria?

A pergunta do título é muito simples: o que é que o leitor deste blog estaria disposto a fazer, com sacrifício do seu dia-a-dia, para proteger a integridade física e até a vida de uma minoria da população?
Há tempos em que a uma minoria é pedido que proteja a maioria. É o caso das guerras, em que os militares são chamados a proteger um povo. Ou dos incêndios, em que os bombeiros se põem ao serviço de toda a população de uma determinada zona.
Mas, será bom de observar, estas pessoas optaram por este estilo de vida. Eles optaram por fazer estes sacrifícios por todos os outros quando a ocasião chegasse.
A pergunta agora é diferente. É uma questão de teoria política, que testa a capacidade de um Povo de viver em Democracia. Tal como uma corrente, um Povo é tão forte quanto o seu elo mais fraco. E este elo mais fraco varia de acordo com as circunstâncias.
No presente momento, em que a vida pública é dominada pelo COVID-19, o elo mais fraco são as pessoas mais idosas, as pessoas com saúde frágil e, potencialmente, as grávidas. Enquanto que no resto da população, com umas semanas em casa a coisa deverá estar resolvida, as pessoas que fazem parte deste elo mais fraco deverão precisar de assistência médica para sobreviver.
O problema da assistência médica, neste momento, é a sua escassez. Não é novidade para ninguém que os corredores de muitos hospitais portugueses estão, numa situação normal, cheios de macas com doentes que não conseguem ter cama. Isto acontece porque Portugal é o país da UE com menos camas de internamento por mil habitantes. Também não é novidade para ninguém que há no país uma enorme escassez de médicos e enfermeiros dado que estes são aliciados para ir trabalhar para outros países da UE que reconhecem a sua excelência e lhes proporcionam melhores condições de vida e trabalho.
Estes problemas, que são os do dia-a-dia dos Portugueses agudizam-se numa altura como a presente. Se muita gente for contagiada, aquela minoria de risco será em maior número. Para além do mais, mesmo com todos os cuidados, os médicos e enfermeiros estão na linha da frente, pelo que a probabilidade de ficarem fora de serviço é alta, tornando a habitual escassez ainda mais séria. E não nos esqueçamos que médicos e enfermeiros também têm famílias: pais idosos, filhos sem escola, etc.
Neste cenário, regresso à pergunta inicial. Por muito que o leitor seja totalmente saudável, parte da maioria que, de acordo com a estatística, não deverá sofrer muito com a doença, o que é que está disposto a fazer para não ser infectado e não se tornar, assim, mais areia na engrenagem?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A propósito dos "leaks"

Rui Pinto tornou-se no último ano no mais controverso de todos os prisioneiros portugueses. E controverso, precisamente porque amado por uns e detestado por outros.
Os que o amam dizem que o "Futebol Leaks" foi um ato justiceiro que irá pôr termo à corrupção generalizada no mais popular desporto do mundo. Os que o detestam dizem que a ilegalidade dos seus atos põe em causa os mais básicos direitos, liberdades e garantias.
Como em muitas reações emotivas, ambas estão certas e estão erradas ao mesmo tempo, vendo a situação por apenas um prisma.
A questão da proteção dos segredos é uma questão fundamental. Sem algum segredo, não se consegue fazer negócios. Para além disso, o segredo de justiça é uma garantia judiciária fundamental para proteger os arguidos.
Mas será justo guardar segredo de negócios ilegais?
O problema desta pergunta aparentemente óbvia de se responder é que para se conhecer da ilegalidade de um negócio, tem de se revelar o segredo. E se este não for ilegal, será na mesma prejudicado pela revelação do segredo que se pretendia manter.
Outra questão centrar-se-á na proteção do segredo dos Advogados. Ao invadir as bases de dados de duas grandes sociedades de advogados portuguesas, Rui Pinto terá tido acesso aos mais variados segredos protegidos por lei, desde relações de negócios a relações de família passando por questões criminais.
O resultado até pode satisfazer muita gente. De facto, ficou-se a ter uma noção mais exata do quão corrupto o mundo do futebol é. Se isso dará em qualquer processo penal ou não é outra questão. Mas o problema está nos meios usados. Se qualquer meio de obtenção de prova for legitimado pelo seu resultado, então talvez faça sentido regressarmos à tortura como forma de aceder a informação.
O melhor a fazer neste momento deverá ser aproveitar-se este caso, bem como o "Luanda Leaks", para uma reflexão sobre o valor do segredo na justiça. Isto pode ser analisado por filósofos, juristas, economistas, etc. E, depois de uma análise cuidada e de um debate abrangente, analisar-se a legislação em vigor a ver se esta ainda serve da melhor forma o bem público. Se não servir, altera-se. Se servir, mantém-se. Sem grandes amores e ódios...

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Mistério - Florbela Espanca


Mistério - Florbela Espanca

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Realeza

A três semanas do Brexit, os jornais Britânicos quase não falam sobre o assunto - estão todos focados no anúncio dos Duques de Sussex. Estes disseram que queriam passar a ser Realeza a tempo parcial e ser "financeiramente independentes" da Rainha. Na humilíssima opinião deste blogador a tempo parcial, ser Realeza a tempo parcial não deveria ser uma possibilidade...
Mas antes de ir tão à frente, é conveniente dar um passo atrás.
Ser um membro da Realeza não é fácil. Deste lado das notícias, apenas vemos os Reais sempre bem vestidos e sorridentes... Dá mesmo a ideia de que é tudo fácil por aqueles lados. Eu, francamente, acho que não é nada fácil.
Ser um membro da Realeza é, antes de mais, ser membro de uma Família Real. Parece que estou a fazer de Mr. de La Palice, mas não é tanto assim. Entre aqueles que são como eu, simples plebeus, é-se filho de alguém até certa idade mas depois começa-se a ser mais conhecido individualmente como a engenheira não sei quantas, que trabalha com fulano, ou o professor sicrano que ensina naquela escola, etc. Um Real não tem esta individualidade. Um Real não pode escolher o que fazer independentemente, tem de consultar essa instituição que é a Família Real da qual ele é apenas um membro.
Ou seja, um Real não é tanto um indivíduo, é mais um membro de uma instituição.
Esta é uma ideia um bocado estranha aos olhos do mundo de hoje, um mundo muito pautado pelo individualismo, em que cada um quer singrar na vida por si. Mesmo naqueles casos em que alguém trabalha num negócio da família, fá-lo por decisão individual e, muitas vezes, até gosta de trabalhar uns anos noutros ramos para se afirmar individualmente e não ser filho como o filhote o resto da vida.
Numa Família Real, nasce-se e é-se educado para trabalhar no "negócio da família". E esse negócio é a defesa e promoção do Estado. Do mesmo modo que o membro da Família se submete aos interesses dela, esta submete-se aos interesses do Estado. Assim sendo, um membro da Realeza é educado para representar o Estado nas mais diversas instâncias políticas e económicas, para trabalhar com obras de protecção social, cultural ou artística, etc. Em cima de tudo isto, ainda tem de saber gerir aqueles o património herdado de muitas gerações (terras, património artístico, etc) que permitem que a Família, servindo o Estado, seja independente dos governos do momento.
Regresso, então, ao início - não me parece que se possa ser membro da Realeza a tempo inteiro. Um membro da Realeza tem de viver uma vida totalmente altruísta - a Família em primeiro e último lugar. Os títulos que lhe são atribuídos refletem essa pertença e servem para realizar o trabalho da Família. Trabalhar "por conta própria", fora do negócio de família, enquanto se usa esses títulos não apenas não faz sentido, como também coloca questões de probidade - está-se a usar parte do património da Família (os títulos) para outros fins.
Sendo assim, e mais uma vez, isto é apenas a minha opinião, quando um membro de uma Família Real quer passar a ser "independente", deve poder fazer essa escolha mas abdicando de tudo o que implica fazer parte dessa Família por inteiro - posição na sucessão ao trono, títulos, etc. Continua a ser parte da família em sentido humano mas não da instituição que é a Família Real.
É duro ser Realeza! Pela minha parte, nado e criado plebeu, é assim que prefiro continuar. Mas se a alguém, nado e criado plebeu como eu, lhe for dada a oportunidade, por casamento, de integrar uma Família Real, que o faça por inteiro ou não o faça de todo - peça ao seu amor Real para abdicar ou encontre um outro amor mais plebeu.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Da História à Filosofia

Acabei agora de ler o Sapiens - Uma breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari. E breve, sem dúvida que é: 463 páginas para 70 mil anos dá uma média de 151 anos por página. Por ser breve, não procura ser completa - foca-se principalmente e como nós, membros da única espécie de humanos que sobrevive até aos dias de hoje, fomos evoluindo até aos dias de hoje.
O engraçado é que comecei a ler este livro logo após acabar de ler o Armas, Germes e Aço - Uma Breve História de Todos nos Últimos 13.000 anos, de Jared Diamonds. Neste livro explica-se a influência da geografia na evolução das diferentes sociedades humanas partindo de uma questão engraçada: porque é que foram os Europeus a desenvolver uma sociedade que lhes permitiu colonizar a Papua-Nova-Guiné e não o contrário?
Posso já dizer que não foram, de todo, mais do mesmo. Para começar, são dois livros sensivelmente do mesmo tamanho mas que analisam dois períodos bem diferentes: o primeiro, toda a evolução do Sapiens e o segundo "apenas" os últimos 13 mil anos. Para além disso, enquanto Harari tem uma perspetiva muito abrangente, não se focando em diferentes civilizações, Diamond vai mostrando como diferentes elementos combinados levaram a que certas civilizações se tornassem dominantes sobre outras. Por último, Harari tem no final a preocupação de refletir sobre o futuro enquanto Diamond está mais preocupado em corrigir métodos historiográficos.
Têm em comum o muito que se aprende e o tanto que nos fazem pensar sobre o homem enquanto indivíduo e em sociedade. E ambos deixam-nos questões muito interessantes.
Pela minha parte, um Português que já viveu na China e na Escócia, agora a viver no Zimbábue, fico com a sensação de que muito ainda há a pensar sobre o modo de vida e das diferentes sociedades. Fico a pensar, por exemplo, no conceito de Direitos Humanos, de Estado, de Família e de propósito para a nossa existência. Bem sei que são todos conceitos muito filosóficos, muito controversos e que podem gerar grandes discussões. Mas, se é assim, porque é que não temos essas discussões? Estaremos nós tão ocupados nos nossos trabalhos que nos esquecemos ou fugimos de pensar como é que os indivíduos e as sociedades humanas devem ser tratados? Questões  epistemológicas, éticas e políticas devem hoje merecer a nossa atenção tanto ou mais que na época de Sócrates e Confúcio.
Darei apenas dois exemplos tirados de artigos que li recentemente que merecem que se pense a sério no sapiens e nas suas sociedades. Um era relativo ao grande crescimento de Suecos a viver sozinhos e nas repercussões sociais disso. O outro era sobre enormes campos de reeducação para Uigures na China, destinados a fazer destes cidadãos Chineses "modelares". Ambos os artigos me deixaram a pensar na relação entre indivíduos, famílias e Estado e como necessitamos de pensar no nosso dia-a-dia em questões éticas e políticas, não as deixando reféns da bolha universitária.
Estes dois livros (e, com certeza, muitos mais) dão-nos, precisamente, os instrumentos para pensar em questões como estas. Se não conhecemos o homem e a sociedade inseridos na sua história, como é que podemos pensar nos desafios que a estas se colocam?
Sendo assim, recomendo vivamente a leitura destes dois livros. Serão desafiantes, se os lermos com seriedade. E, obviamente, não teremos que concordar com tudo nestes livros - quem já leu o Sapiens, por exemplo, terá a noção de que eu não concordei com muitas análises feitas pelo autor sobre religião, por exemplo. A questão é que apenas lermos obras que escrevem o que nós já pensamos, como é que podemos pôr em questão as nossas ideias para, eventualmente reafirmá-las, pô-las de parte ou, no meio termo, refiná-las?