quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Estou sempre certo nas minhas opiniões

Devo começar por dizer que eu considero que estou sempre certo nas minhas opiniões. Mais ainda, considero irracional não se estar sempre certo nas suas opiniões. Considero, então, que uma pessoa racional tem sempre opiniões certas.
Explico isto porque sinto que hoje em dia há um certo preconceito contra estar-se certo. Aliás, para se ser políticamente correcto, a pessoa deve começar a expressar as suas opiniões por "eu até posso estar errado, mas acho que..." E eu acho isso absolutamente errado!
Passo a explicar. A primeira coisa tem que se entender é que uma coisa são factos, outra são opiniões. Ontem notei que o meu Sporting está em 9º lugar no campeonato nacional. Isto é um (triste) facto. Se eu disser que o Sporting está em 10º ou em 8º lugar, estou errado: é um facto falso. Sobre factos a pessoa pode estar errada. Mas se eu disser que o Estádio de Alvalade é o mais bonito de Portugal só posso estar certo, porque isto não é um facto, é uma opinião. Se eu não mentir, a revelação dos meus gostos ou preferências está sempre certa.
Imagine-se que eu acordo amanhã, vejo uma fotografia do Estádio do Dragão e concluo que este é mais bonito que o Estádio de Alvalade e, logo, o mais bonito Estádio de Portugal. Se eu aí revelar a minha preferência pelo Dragão estarei certo mais uma vez.
Note-se que eu nem sequer usei qualquer coisa como "o meu estádio preferido é...". Em vez disso usei "o estádio mais bonito de Portugal é...", o que faz parecer que é um facto. Mas como a beleza é uma coisa intrinsecamente subjectiva, é óbvio que isto não é um facto mas uma opinião.
Uma pessoa intelectualmente honesta é perfeitamente livre para mudar de opinião, mesmo que radicalmente. Já não é livre para alterar os factos porque sobre estes pode estar errada. Sobre as opiniões é que nunca estará errada.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Jobs for the boys II

Nem acredito que já escrevi o post anterior há quase duas semanas e acabei por nunca o completar! Mas aqui vão aquelas que eu considero ser as principais vantagens de ter assessores jurídicos, económicos, de imprensa, etc. de carreira no governo.
CONTINUIDADE
É óbvio para qualquer pessoa que cada governo terá políticas diferentes, caso contrário não valeria a pena mudar de governo. No entanto a maior parte das políticas têm necessariamente que ter continuidade e muitas das decisões políticas são de mera administração. Tomemos o exemplo de um assessor jurídico. Este tem um trabalho bastante técnico: explicar qual a lei aplicável, fazer estudos que podem ser comparativos com legislações estrangeiras e outros para encontrar possíveis soluções para problemas nacionais, etc. No que toca a reformas legislativas, cabe ao político dar directivas políticas, de acordo com o programa de governo e com o negociado em conselho de ministros tendo em conta os estudos preparados. Se sai um assessor a meio de um estudo porque muda o governo, todo o seu trabalho é desperdiçado, Um desperdício de tempo e dinheiro!
EFICIÊNCIA
Ao chegar ao governo, cada ministro e cada secretário de estado tem que nomear todo o pessoal. Isto pode levar uns meses. Depois disso, tem que pôr a máquina a funcionar: mais uns meses... Isto quer dizer que, na melhor das hipóteses, com cada eleições perdem-se 6 meses até a "máquina" estar perfeitamente oleada e a funcionar a todo o vapor. Dado que temos eleições pelo menos de quatro em quatro anos, pode-se bem imaginar a falta de eficiência que isto gera.
QUALIDADE
Não tenho dúvida que em cada eleição os políticos procurarm encontrar as melhores pessoas para os seus gabinetes. Mas o que acontece muitas vezes é que as melhores pessoas podem não estar disponíveis. Ser assessor hoje em dia é um trabalho bastante bem remunerado mas quantas pessoas se consegue encontrar que estejam disponíveis a despedir-se de trabalhos que podem ser também bem remunerados para ir trabalhar com um político que lá está a termo? Ainda para mais, para quem não tem ambições políticas, é um trabalho sem perspectiva de evolução. Está-se lá uns anos, sempre no mesmo posto e sempre com o mesmo ordenado e depois tem que se voltar a encontrar um emprego... A não ser que se tenha sido requisitado a um serviço da função pública, serviço esse que tem que prescindir uns anos de um técnico qualificado sem poder substitui-lo. Com um serviço de carreira, cada assessor vai ganhando experiência, pode investir na sua carreira através de cursos especializados na área em que trabalha, etc. Se nao for um sistema de promoção automática, tem todos os incentivos para ser bom e vai ganhando mais experiência e os "truques do negócio" ao longo da carreira.
CUSTO
Como já disse antes, ser assessor é um trabalho bastante bem remunerado. E, nos termos do actual sistema, tem mesmo de o ser, porque tem de se compensar a instabilidade da posição para ser um trabalho que gente de qualidade considere atractivo. No entanto, se fosse um trabalho mais estável, muita gente de qualidade poderia considerar essa carreira, mesmo que os ordenados iniciais não fossem tão bons como são agora.
MUITAS OUTRAS QUALIDADES poderiam ser encontrados num sistema de assessoria de carreira. Claro que também há defeitos, como uma certa tendencia para o imobilismo da administração. Mas no fim, acho que o sistema Britânico, Holandês, etc. de assessoria de carreira serve muito melhor o interesse público que o sistema Português de absoluto rotativismo. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Jobs for the boys I

Aqui há uns anos, no período de transição dos governos Cavaco para os governos Guterres, falou-se muito dos "jobs for the boys", os cargos políticos no governo de Portugal reservados a pessoas dos partidos. Dizer que esses cargos estão reservados a pessoas dos partidos tem o seu quê de injusto mas o que merece ser reflectido é se devem ser considerados cargos políticos.
Porquê o seu quê de injusto? Porque o que de facto acontece nos sucessivos governos é que há muitos adjuntos e assessores que são independentes. São convidados para o governo com base nos seus méritos. Claro que também há muitos que são os tais "boys" e "girls" dos partidos, mas isso é uma decorrência natural de se considerar aqueles cargos políticos: se são políticos, devem ser dadas a pessoas de confiança política.
Vem este post a propósito de uma conversa que eu tive ontem com um deputado regional, um deputado do Parlamento da Escócia, Holyrood. Ele explicou-me melhor aquilo que eu já intuia graças à série do yes minister. Aqui no Reino Unido, os parlamentos e os governos (o central e os regionais da Escócia, Irlanda do Norte e Gales) são servidos por pessoal de carreira. Isto quer dizer que cada ministério e cada parlamento tem os seus assessores políticos, económicos, sociais e de imprensa que são funcionários públicos de carreira. Como qualquer funcionário público, estes ingressam por concurso público e vão sendo promovidos ao longo da carreira. Bem, promovidos por mérito, não por antiguidade, mas isso já é outro assunto...
Para além destes, explicou o deputado, cada executivo ou grupo parlamentar tem uns assessores políticos contratados políticamente. Isto quer dizer que são pessoas da confiança política de quem os contrata. Quando eu disse que em Portugal todos eram assim, ele disse que em Holyrood, o parlamento regional, havia cerca de dez assesores destes.
Em Portugal cada novo executivo contrata de novo todos os assessores, adjuntos e, pasme-se, secretariado e até motoristas! Isso não quer dizer que até não possam contratar alguns que já vinham dos governos anteriores. Quando eu fui assessor, por exemplo, a Chefe de Gabinete do "meu" Secretário de Estado já tinha estado em governos anteriores, tal como a Chefe de Gabinete do Ministro. Mas isto não quer dizer que não tivessem sido contratadas de novo: uma vez que a nomeação é pessoal, com a cessação de funções de um governo todas as nomeações desse governo caducam.
Bem, já começa a ficar tarde e tenho que sair, mas amanhã continuarei com aquelas que me parecem ser as desvantagens do sistema Português.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Porquê este vídeo?


Vi agora o vídeo de que tanto se falava "idealizado pelo Marcelo Rebelo de Sousa e realizado pelo Rodrigo Moita de Deus." No fim do vídeo fiquei a pensar: afinal de contas, o que é que se queria provar? Que somos uma cambada de burros?

Começa-se logo por dizer que depois de uma longa ditadura é que nos alfabetizámos. Bastou googlar um bocadinho para confirmar aquilo que eu já sabia, é que o grande "salto" da alfabetização foi feito precisamente na tal "ditadura". Dá ideia que precisamos de uma nova "ditadura" para aprendermos a lidar com os números.
Depois desta infeliz abertura inicial o vídeo desfia um rosário de factos de que nos deveríamos envergonhar: que instalamos redes de abastecimento de carros eléctricos sem ter os respectivos carros eléctricos, que gastamos um balúrdo em estádios, etc. E tudo graças ao trabalho e empenho dos Alemães. Se não fossem os Alemães a construir os postos de abastecimento eléctricos, os carros elécttricos e os submarinos, nós ficávamos como Junot, a ver navios...
Afinal de contas, para além de envergonhar os Portugueses e enaltecer o trabalho, qual é o outro objectivo deste vídeo? 
Eu cá sempre admirei os Alemães pelo seu espírito de inovação, honestidade e trabalho. Mas também sempre admirei os Portugueses por muitas outras coisas: a sua simpatia, o seu sentido de união com a família e amigos, a sua creatividade, etc. Nada disso transparece no vídeo. O que transparece é que depois de uma longa "ditadura" que terá sido péssima mas a que todos nos submetemos até ao dia em que criancinhas começaram a espetar cravos nas espingardas dos soldados, nós começámos a viver à custa da tecnologia Alemã mas com muito pior qualidade de vida: menos feriados, menos ordenados, etc. De tal forma a vida em Portugal é má que 150 mil Portugueses preferem viver na Alemanha!
Professor Marcelo, Realizador Moita: da próxima vez que quiserem envergonhar Portugal junto dos Alemães, por favor vão à Oktoberfest e bebam até fazerem figuras tristes. Será uma vergonha mas só para os senhores. E uma vergonha de que todos nos poderemos rir...