A três semanas do Brexit, os jornais Britânicos quase não falam sobre o assunto - estão todos focados no anúncio dos Duques de Sussex. Estes disseram que queriam passar a ser Realeza a tempo parcial e ser "financeiramente independentes" da Rainha. Na humilíssima opinião deste blogador a tempo parcial, ser Realeza a tempo parcial não deveria ser uma possibilidade...
Mas antes de ir tão à frente, é conveniente dar um passo atrás.
Ser um membro da Realeza não é fácil. Deste lado das notícias, apenas vemos os Reais sempre bem vestidos e sorridentes... Dá mesmo a ideia de que é tudo fácil por aqueles lados. Eu, francamente, acho que não é nada fácil.
Ser um membro da Realeza é, antes de mais, ser membro de uma Família Real. Parece que estou a fazer de Mr. de La Palice, mas não é tanto assim. Entre aqueles que são como eu, simples plebeus, é-se filho de alguém até certa idade mas depois começa-se a ser mais conhecido individualmente como a engenheira não sei quantas, que trabalha com fulano, ou o professor sicrano que ensina naquela escola, etc. Um Real não tem esta individualidade. Um Real não pode escolher o que fazer independentemente, tem de consultar essa instituição que é a Família Real da qual ele é apenas um membro.
Ou seja, um Real não é tanto um indivíduo, é mais um membro de uma instituição.
Esta é uma ideia um bocado estranha aos olhos do mundo de hoje, um mundo muito pautado pelo individualismo, em que cada um quer singrar na vida por si. Mesmo naqueles casos em que alguém trabalha num negócio da família, fá-lo por decisão individual e, muitas vezes, até gosta de trabalhar uns anos noutros ramos para se afirmar individualmente e não ser filho como o filhote o resto da vida.
Numa Família Real, nasce-se e é-se educado para trabalhar no "negócio da família". E esse negócio é a defesa e promoção do Estado. Do mesmo modo que o membro da Família se submete aos interesses dela, esta submete-se aos interesses do Estado. Assim sendo, um membro da Realeza é educado para representar o Estado nas mais diversas instâncias políticas e económicas, para trabalhar com obras de protecção social, cultural ou artística, etc. Em cima de tudo isto, ainda tem de saber gerir aqueles o património herdado de muitas gerações (terras, património artístico, etc) que permitem que a Família, servindo o Estado, seja independente dos governos do momento.
Regresso, então, ao início - não me parece que se possa ser membro da Realeza a tempo inteiro. Um membro da Realeza tem de viver uma vida totalmente altruísta - a Família em primeiro e último lugar. Os títulos que lhe são atribuídos refletem essa pertença e servem para realizar o trabalho da Família. Trabalhar "por conta própria", fora do negócio de família, enquanto se usa esses títulos não apenas não faz sentido, como também coloca questões de probidade - está-se a usar parte do património da Família (os títulos) para outros fins.
Sendo assim, e mais uma vez, isto é apenas a minha opinião, quando um membro de uma Família Real quer passar a ser "independente", deve poder fazer essa escolha mas abdicando de tudo o que implica fazer parte dessa Família por inteiro - posição na sucessão ao trono, títulos, etc. Continua a ser parte da família em sentido humano mas não da instituição que é a Família Real.
É duro ser Realeza! Pela minha parte, nado e criado plebeu, é assim que prefiro continuar. Mas se a alguém, nado e criado plebeu como eu, lhe for dada a oportunidade, por casamento, de integrar uma Família Real, que o faça por inteiro ou não o faça de todo - peça ao seu amor Real para abdicar ou encontre um outro amor mais plebeu.