terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Mistério - Florbela Espanca


Mistério - Florbela Espanca

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Realeza

A três semanas do Brexit, os jornais Britânicos quase não falam sobre o assunto - estão todos focados no anúncio dos Duques de Sussex. Estes disseram que queriam passar a ser Realeza a tempo parcial e ser "financeiramente independentes" da Rainha. Na humilíssima opinião deste blogador a tempo parcial, ser Realeza a tempo parcial não deveria ser uma possibilidade...
Mas antes de ir tão à frente, é conveniente dar um passo atrás.
Ser um membro da Realeza não é fácil. Deste lado das notícias, apenas vemos os Reais sempre bem vestidos e sorridentes... Dá mesmo a ideia de que é tudo fácil por aqueles lados. Eu, francamente, acho que não é nada fácil.
Ser um membro da Realeza é, antes de mais, ser membro de uma Família Real. Parece que estou a fazer de Mr. de La Palice, mas não é tanto assim. Entre aqueles que são como eu, simples plebeus, é-se filho de alguém até certa idade mas depois começa-se a ser mais conhecido individualmente como a engenheira não sei quantas, que trabalha com fulano, ou o professor sicrano que ensina naquela escola, etc. Um Real não tem esta individualidade. Um Real não pode escolher o que fazer independentemente, tem de consultar essa instituição que é a Família Real da qual ele é apenas um membro.
Ou seja, um Real não é tanto um indivíduo, é mais um membro de uma instituição.
Esta é uma ideia um bocado estranha aos olhos do mundo de hoje, um mundo muito pautado pelo individualismo, em que cada um quer singrar na vida por si. Mesmo naqueles casos em que alguém trabalha num negócio da família, fá-lo por decisão individual e, muitas vezes, até gosta de trabalhar uns anos noutros ramos para se afirmar individualmente e não ser filho como o filhote o resto da vida.
Numa Família Real, nasce-se e é-se educado para trabalhar no "negócio da família". E esse negócio é a defesa e promoção do Estado. Do mesmo modo que o membro da Família se submete aos interesses dela, esta submete-se aos interesses do Estado. Assim sendo, um membro da Realeza é educado para representar o Estado nas mais diversas instâncias políticas e económicas, para trabalhar com obras de protecção social, cultural ou artística, etc. Em cima de tudo isto, ainda tem de saber gerir aqueles o património herdado de muitas gerações (terras, património artístico, etc) que permitem que a Família, servindo o Estado, seja independente dos governos do momento.
Regresso, então, ao início - não me parece que se possa ser membro da Realeza a tempo inteiro. Um membro da Realeza tem de viver uma vida totalmente altruísta - a Família em primeiro e último lugar. Os títulos que lhe são atribuídos refletem essa pertença e servem para realizar o trabalho da Família. Trabalhar "por conta própria", fora do negócio de família, enquanto se usa esses títulos não apenas não faz sentido, como também coloca questões de probidade - está-se a usar parte do património da Família (os títulos) para outros fins.
Sendo assim, e mais uma vez, isto é apenas a minha opinião, quando um membro de uma Família Real quer passar a ser "independente", deve poder fazer essa escolha mas abdicando de tudo o que implica fazer parte dessa Família por inteiro - posição na sucessão ao trono, títulos, etc. Continua a ser parte da família em sentido humano mas não da instituição que é a Família Real.
É duro ser Realeza! Pela minha parte, nado e criado plebeu, é assim que prefiro continuar. Mas se a alguém, nado e criado plebeu como eu, lhe for dada a oportunidade, por casamento, de integrar uma Família Real, que o faça por inteiro ou não o faça de todo - peça ao seu amor Real para abdicar ou encontre um outro amor mais plebeu.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Da História à Filosofia

Acabei agora de ler o Sapiens - Uma breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari. E breve, sem dúvida que é: 463 páginas para 70 mil anos dá uma média de 151 anos por página. Por ser breve, não procura ser completa - foca-se principalmente e como nós, membros da única espécie de humanos que sobrevive até aos dias de hoje, fomos evoluindo até aos dias de hoje.
O engraçado é que comecei a ler este livro logo após acabar de ler o Armas, Germes e Aço - Uma Breve História de Todos nos Últimos 13.000 anos, de Jared Diamonds. Neste livro explica-se a influência da geografia na evolução das diferentes sociedades humanas partindo de uma questão engraçada: porque é que foram os Europeus a desenvolver uma sociedade que lhes permitiu colonizar a Papua-Nova-Guiné e não o contrário?
Posso já dizer que não foram, de todo, mais do mesmo. Para começar, são dois livros sensivelmente do mesmo tamanho mas que analisam dois períodos bem diferentes: o primeiro, toda a evolução do Sapiens e o segundo "apenas" os últimos 13 mil anos. Para além disso, enquanto Harari tem uma perspetiva muito abrangente, não se focando em diferentes civilizações, Diamond vai mostrando como diferentes elementos combinados levaram a que certas civilizações se tornassem dominantes sobre outras. Por último, Harari tem no final a preocupação de refletir sobre o futuro enquanto Diamond está mais preocupado em corrigir métodos historiográficos.
Têm em comum o muito que se aprende e o tanto que nos fazem pensar sobre o homem enquanto indivíduo e em sociedade. E ambos deixam-nos questões muito interessantes.
Pela minha parte, um Português que já viveu na China e na Escócia, agora a viver no Zimbábue, fico com a sensação de que muito ainda há a pensar sobre o modo de vida e das diferentes sociedades. Fico a pensar, por exemplo, no conceito de Direitos Humanos, de Estado, de Família e de propósito para a nossa existência. Bem sei que são todos conceitos muito filosóficos, muito controversos e que podem gerar grandes discussões. Mas, se é assim, porque é que não temos essas discussões? Estaremos nós tão ocupados nos nossos trabalhos que nos esquecemos ou fugimos de pensar como é que os indivíduos e as sociedades humanas devem ser tratados? Questões  epistemológicas, éticas e políticas devem hoje merecer a nossa atenção tanto ou mais que na época de Sócrates e Confúcio.
Darei apenas dois exemplos tirados de artigos que li recentemente que merecem que se pense a sério no sapiens e nas suas sociedades. Um era relativo ao grande crescimento de Suecos a viver sozinhos e nas repercussões sociais disso. O outro era sobre enormes campos de reeducação para Uigures na China, destinados a fazer destes cidadãos Chineses "modelares". Ambos os artigos me deixaram a pensar na relação entre indivíduos, famílias e Estado e como necessitamos de pensar no nosso dia-a-dia em questões éticas e políticas, não as deixando reféns da bolha universitária.
Estes dois livros (e, com certeza, muitos mais) dão-nos, precisamente, os instrumentos para pensar em questões como estas. Se não conhecemos o homem e a sociedade inseridos na sua história, como é que podemos pensar nos desafios que a estas se colocam?
Sendo assim, recomendo vivamente a leitura destes dois livros. Serão desafiantes, se os lermos com seriedade. E, obviamente, não teremos que concordar com tudo nestes livros - quem já leu o Sapiens, por exemplo, terá a noção de que eu não concordei com muitas análises feitas pelo autor sobre religião, por exemplo. A questão é que apenas lermos obras que escrevem o que nós já pensamos, como é que podemos pôr em questão as nossas ideias para, eventualmente reafirmá-las, pô-las de parte ou, no meio termo, refiná-las?