quinta-feira, 11 de abril de 2019

€uro - 20 anos depois

A 1 de janeiro de 1999 o €uro tornou-se, oficialmente, a moeda em Portugal. Desde a fundação do país, em 1143, que a cunhagem da moeda tinha sido uma prerrogativa dos Reis de Portugal. Note-se que não era igual em todos os países da Europa - em alguns países era possibilitado a certos nobres, bispos ou mosteiros cunhar moeda legal até à Idade Moderna, mas nós já éramos muito modernos nisso do centralismo do Reino. Tudo mudou nesse primeiro dia do ano.

Ainda me lembro dessa passagem de ano, o que é extraordinário, porque eu não me lembro do que comi ontem ao jantar... Esta não me marcou por ter sido muito exuberante, estrondosa ou cheia de gente. Jantei apenas com um grupo de cinco bons amigos em casa de um deles, cada um levou um poema para declamar e, em geral, foi uma singela noite de conversa. Tem graça ver que, o nosso anfitrião dessa noite tão importante para a UE viria a beneficiar das vantagens da mesma, emigrando para Roma, onde faz um ótimo trabalho na divulgação da cultura portuguesa na Cidade Eterna.

Vinte anos depois do início do €uro, a nossa comunicação social, academia e classe política pouco têm falado sobre o assunto. Gostaria de dizer que isto se deve a estarem demasiado ocupados a declamar poesia em jantares de amigos, mas diria que essa não deve ser a razão. Uma simpática exceção nisto, como em tudo o resto, é a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que já publicou um estudo sobre o assunto do economista Pedro Braz Teixeira sobre o qual, infelizmente, se tem falado pouco na praça pública.

Já os Alemães, gente mais dada a avaliar as decisões políticas, têm falado muito deste assunto. Agora publicou-se até um estudo muito interessante. Um think tank Alemão sobre a Europa interrogou-se sobre quem terão sido os que mais lucraram e os que mais perderam com a moeda única. Fruto dessa pergunta, nasceu um estudo em que, comparando oito países da Zona Euro, concluem que apenas três deles ganharam (a Alemanha à cabeça) e os outros cinco perderam. Neste estudo, cada português terá perdido €40.604  nestes últimos 20 anos o que, arredondando, dá uma conta de €170 por mês a cada português. Não sei como estão as finanças dos leitores deste humilíssimo blog, mas a mim dava-me jeito ter mais esse extra na conta todos os meses.

Eu bem sei que a economia, como a filosofia, é dada a muita discordância e haverá muita gente a contestar os resultados dos dois estudos. Mas parece-me que refletir sobre eles nos levará a interrogarmo-nos sobre o que Portugal pode fazer para melhor se adaptar ao €uro e poder tirar mais partido da moeda única. Sim, porque nada me leva a pensar que nós estaremos estruturalmente destinados a perder com o €uro - poderemos adaptarmo-nos para que daqui a 20 anos um estudo semelhante nos ponha entre os vencedores.

Gostaria de ver este tipo de debates entre os candidatos a Eurodeputados nas eleições do próximo dia 26 de maio. Seriam bem mais apropriados às funções que vão exercer do que os debates sobre as famílias políticas do PS (sem estar aqui a desmerecer também esse debate, mas passando-o para um outro forum). E, se não for para debaterem isto, ao menos declamem poesia...

terça-feira, 9 de abril de 2019

Descida dos preços dos passes

Ouço e leio muita gente indignada com a descida dos preços dos passes num grito de "aqui d'El Rey que se estão a subsidiar os transportes públicos!" Teme-se a excessiva ingerência do Estado, o tratamento desigual face a outros transportes como o táxi ou o uber e já se fala da República Socialista Popular Portuguesa por causa disso. Ora eu acho que essa oposição à medida e esses medos não têm sentido.
No entanto, todavia, contudo... Antes de explicar porque é que acho que não têm sentido, tenho uma declaração de interesses a fazer. Eu compro o passe todos os meses e vou poupar dinheiro com esta medida. Pode, assim, ser considerado que por motivos egoístas seria já favorável a esta medida.
Feita a declaração de interesses, há dois motivos que me levam a defender esta medida:
- O primeiro é um motivo muito de mercado, muito liberal... (Pasmem-se almas!) Com a descida do preço dos passes, é natural que mais gente vá adquirir os ditos cujos passes. Pessoas que nem precisam de transportes públicos todos os dias mas que começam a notar que podem poupar algum dinheiro nos transportes que normalmente usam: automóvel particular, táxi, uber, e-cooltra, etc. Mais gente a comprar, maiores as receitas e lá se vai a necessidade de injetar dinheiro dos nossos impostos.
- O segundo é que, mesmo que se tenha que injetar o tal dinheiro dos nossos impostos, é precisamente para isso que eles servem. Reduzir o consumo do petróleo serve o óbvio propósito ambiental mas serve também um propósito geo-estratégico. É que uma grande parte do petróleo consumido quer em Portugal quer na UE é oriundo de países que dificilmente se podem considerar Democracias. Estar dependente desses países para um bem de primeira necessidade deixa-nos politicamente vulneráveis. É num caso como estes, em que o bem comum tem muito a ganhar, que este dificilmente seria defendido num mercado livre, se justifica investir aí recursos que são de todos.
Sendo assim, aqui deixo os parabéns por esta iniciativa a quem de direito.