Cada vez mais parece que estamos a viver num mundo psicótico. Num estado de psicose, alguém não consegue distinguir o que é real ou fruto de delírios. Ora, o que acontece hoje em dia é que podemos ler histórias tão diferentes sobre os mesmos eventos escritas por pessoas tão convictas (e convincentes) da sua razão que ficamos sem saber o que é a realidade. Tal como Pilatos, ficamo-nos a interrogar, "quid est veritas"?
Este estado de coisas tem muito a ver com o atual papel que as redes sociais têm na informação das pessoas. Num período anterior às redes sociais, as notícias eram difundidas por meios de comunicação social. Estes podiam ter muitas falhas, mas os jornalistas eram regidos por um código de ética e na maior parte dos países democráticos havia algum órgão independente de supervisão da comunicação social.
No mundo das redes sociais, qualquer um pode lançar as notícias que entender e estas difundem-se com uma enorme rapidez. Para além disso, estas notícias são eivadas de preconceitos ideológicos e apresentados com uma enorme agressividade - estas características seriam mal vistas num profissional mas são toleradas num comentador leigo.
Vai daí, decidi compilar algumas regras para viver neste mundo psicótico.
1. Se parece um disparate é porque, muito provavelmente, é mesmo.
Uma das primeiras notícias virais que se difundiam ainda antes das redes sociais era de que havia gente a deixar seringas com SIDA nas cadeiras dos cinemas para infetarem a população. Era estúpido, parecia inverosímil mas, na realidade, passei a olhar bem para os sofás dos cinemas antes de me sentar. O medo vende bem... O senso comum, quando em conflito com o medo, normalmente perde. O que nos faz falta é mesmo ter mais senso comum e menos medo.
2. Confiar na boa fé das pessoas, mesmo dos políticos.
Boa fé parece uma coisa fora de moda - o que está na moda é a desconfiança. O primeiro grupo de que se desconfia é o dos políticos - só a palavra soa hoje a insulto. Mas esses não são os únicos: desconfia-se dos professores (que querem fazer lavagem cerebral às criancinhas), dos médicos (que estão feitos com as grandes farmacêuticas para nos tirar o dinheiro), dos padres (aquilo do celibato provoca perturbações)... Os exemplos podiam-se multiplicar e pensar o contrário é visto como ingenuidade e até alguma patetice. No entanto, confiar na boa fé dos outros faz-nos bem e faz-nos fazer bem. Ao contrário de patetice, é a atitude mais racional porque permite-nos adotar comportamentos que nos fazem bem e que, caso contrário, serão reprimidos.
3. Multiplicar a nossa experiência empírica.
Isto é quase voltar à primeira regra, mas tem algo de novo. Se as pessoas que conhecemos dão-nos causa para pensar que são boas pessoas, podemos presumir que as que não conhecemos também o são. Peguemos nos exemplos anteriores. Já conheci muitos políticos (de diferentes tendências políticas), muitos professores (de diferentes disciplinas), muitos políticos (de diferentes especialidades) e muitos padres (de diferentes ordens e nenhuma)... Ora, a maioria dos políticos que conheci apenas via na política uma forma de promover o bem comum; a maioria dos professores viam no ensino uma forma de melhoria de vida dos seus alunos; a maioria dos médicos estava empenhada em tratar os pacientes; e a maioria dos padres queria ajudar as pessoas a viver mais perto de Deus. Se assim é com as pessoas que eu conheço, porquê desconfiar tanto dos que não conheço? Porquê inventar motivações escondidas para as suas ações?
4. Check, and check, and check again... E, em caso de dúvida e falta de tempo, não reenviar.
A tentação de reenviar aquela notícia exclusiva que recebi é sempre grande. Mas, se algo me faz desconfiar da sua veracidade, deverei verificar antes de enviar. E, se a fonte de verificação não nos parece segura, verificar de novo. Caso não tenha tempo, apenas não reenviar a notícia.
5. Pensar...
O que nos faz falta hoje em dia é mesmo pensar nas coisas. Pensar longamente... Pesar os prós e contras, avaliar as coisas com a razão e (porque não?) o instinto ou coração. Não nos lançarmos numa opinião insensata apenas porque é a primeira que nos vem à cabeça e procurar ver as consequências dos nossos atos. E estudar... Estudar o que nos vem à mão, desde que com qualidade. Estudar ciências, história, filosofia, arte, política... Não nos ficarmos nas nossas áreas de formação académica e procurar sempre aprender mais.
Estas cinco regras, que me tenho esforçado por praticar, têm-me ajudado a viver de forma que, julgo eu, é um bocadinho mais sã neste mundo psicótico das notícias falsas e das verdades alternativas.