Em Portugal, comprar um DVD é uma coisa reflectida, pensada... Afinal de contas ainda são, quê, uns 12€? Em Zhuhai comprar um DVD é uma coisa ocasional: por 8 RMBs (estão cada vez mais caros) a pessoa compra e depois pensa se tem pachorra para ver ou não.
Foi assim que comprei o DVD do "up in the air": estava a comprar uma data de DVDs, comecei a falar com um senhor Chinês que, surpreendemente falava lindamente Inglês, eu recomendei-lhe uns dois filmes, ele recomendou este. Isto já foi há umas semanas e só hoje vi o filme...
Atingiu-me como um trovão.
É a estória de um homem que tem um emprego que não tem discrição do mau que é: despedir pessoas. Trabalha para uma empresa de out sourcing cujo serviço prestado é o despedimento de pessoas! Surpreendemente, ele adora o emprego dele. Ficamos a pensar: "há pessoas para tudo", certo? Mas o mais surpreendente é que ele adora esse emprego porque passa a vida a viajar de avião de um lado para o outro e não leva nada nem ninguém na bagagem. Quando eu digo não leva ninguém, é que ele evita envolver-se com quem quer que seja e assim, em termos de emoção, é mais fácil não ter uma casa, dormir sempre em hoteis e, grande objectivo (alcançado) da vida dele, atingir 10 milhões de milhas no cartão de milhas. Sem família ou amigos, isso torna-se fácil.
Pode parecer um daqueles filmes lamechas mas não é, não acaba bem. O que eu gosto de um filme que não acaba bem!
Claro que este filme retrata o extremo, o quase inexistente. Alguém sem amigos, com duas irmãs que não vê há anos, logo, sem família também e, apesar de tudo isto ou, aliás, precisamente por causa de tudo isto, que se sente feliz.
Então o que é existente?
Existente é viver longe da família e dos maiores amigos, estar com eles duas vezes por ano... Vá, não estou numa de auto-comiseração, mas fez-me pensar... Nos últimos quase três anos em Macau fiz bons amigos (mesmo) e quando se vive longe da família os amigos passam a ser muito mais importantes ainda porque são a nossa família. Dois desses amigos, a Priel e o Bjorn, têm as chaves de minha casa, se alguma vez me esquecer de levar as minhas chaves ou precisar de alguma coisa, eles podem entrar em minha casa. Quando no ano passado fui passar o verão a Portugal, lembrei-me em HK que me tinha esquecido de pôr o lixo na rua: 1 mês de lixo a apodrecer em qualquer sítio do mundo, mais ainda com este calor e esta humidade, significa explosão de baratas, pelo que lá vieram eles a minha casa pelos piores motivos.
Agora eles estão de partida para a Alemanha. De vez.
E isto fez-me pensar... Eu também estou um bocadinho up in the air. Vá, um bocadinho, sem exageros... Afinal de contas tenho bons amigos quer aqui quer em Portugal mas e a família? Os meus pais não se chamam Bjorn ou Priel nem os meus irmãos Isabel, Christiaan ou Raquel mas quando eu preciso de alguma coisa é a estes que eu ligo. A minha casa está muito gira (na minha opinião, pelo menos): tenho mobília chinesa a imitar antiga, fotografias de amigos e família, quadros e estatuetas de toda a Ásia: mas os meus pais ou irmãos nem nunca cá vieram (pronto, a Mãe, a Mariana e o Gonçalo foram à antiga que era horrível) porque isto fica, literalmente, para lá de Bagdad. Vou fazendo experiências culinárias sempre que alguém cá vem almoçar ou jantar, umas mais bem sucedidas que outras, e nem nunca cozinhei para os meus sobrinhos.
E já nem falo de ter quase 30 e não ter encontrado uma rapariga de quem possa dizer "esta é para sempre"...
Vá, está bem, estou a ser um bocadinho dramático: bom ordenado, bons amigos, bons programas, uma vida gira... Um certo novo-riquismo de que gosto tanto. Mas, mesmo assim, um bocadinho "up in the air". Neste momento queria mesmo ter menos milhas e mais tempo com "os meus"!