quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Zimbábueanos

"O Zimbábue é um país lindo mas o melhor do país são os Zimbabueanos."
Li diferentes versões desta frase antes de vir para cá e desde que cá cheguei já voltei a ouvir isto umas quantas vezes de diferentes estrangeiros. Não posso estar mais de acordo! Este é, de facto, o povo mais encantador que eu já conheci!
Sempre com um sorriso na cara (e que bonitos sorrisos!). Sempre com um "how are you?" que dá mesmo a impressão que quer ser respondido. Sempre disponíveis para ajudar desinteressadamente. Sempre com bom humor e piada fácil. Sempre bem apresentados. Sempre honestos.
Um pequeno exemplo...
Hoje fui ao supermercado e quando ia a pagar já não tinha dinheiro no cartão pré-pago (um dia destes escrevo sobre viver num país com um sistema financeiro num caos). Ora, neste supermercado não aceitam US$, pelo que eu liguei para o meu hotel a pedir para me recarregarem o cartão mas a essa hora já não dava. Logo dois irmãos se ofereceram para me pagar a conta em ZIM$ e eu dava-lhes o equivalente em US$. E assim fizeram... 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

How dare you?

A mensagem de Greta Thunberg na ONU foi tão clara quanto toda a gente esperava que fosse. Uma condenação veemente das actuais políticas que prometem crescimento económico eterno com base no crescimento da produção de bens. Nem os seus apoiantes nem os seus críticos esperavam outra coisa.
Muitos dos seus detractores criticam-lhe o estilo. E eu também não gostei. Demasiado ao ataque...
Mas pergunto-me se há outro estilo possível... Afinal de contas, os números que a Greta apresenta não foram inventados por si mesma. São números que têm sido repetidos pelos cientistas que estudam a poluição atmosférica e o seu efeito no clima. Há tantos anos... E estes números são tão enervantes! São mesmo de se ficar irritado como ela estava!
Como é que não se faz nada? Como é que cada um de nós, no seu dia-a-dia, continua a viver como se estes números não existissem. Como é que nós nos atrevemos?
A resposta é que andamos anestesiados...
Se não andássemos anestesiados fazíamos alguma coisa para prevenir a degradação do nosso planeta. Mas não só isso...
Se não andássemos anestesiados, tínhamos que fazer alguma coisa pelas milhares de pessoas que morrem de fome todos os dias numa altura em que teríamos condições para que todas elas tivessem acesso a uma alimentação diferente.
Se não andássemos anestesiados, tínhamos que fazer alguma coisa para salvar os milhares de civis que morrem em conflitos como o do Iémene.
Se não andássemos anestesiados, tínhamos que fazer alguma coisa pelos muitos povos que continuam a viver oprimidos por regimes absolutamente desrespeitadores dos direitos humanos cujos líderes apenas trabalham para se manter no poder através de teias mafiosas de corrupção.
Se não andássemos anestesiados, faríamos alguma coisa... Mas andamos!
E incomoda-nos que alguém não ande anestesiado como nós. Incomoda-nos que uma miúda, por uma questão de princípio, não apanhe um transporte que consuma energias fósseis para atravessar o Atlântico.
Como isso nos incomoda, mais vale gozarmos com ela. Gozarmos com o facto de ir num yacht emprestado por um príncipe. Gozarmos com o estilo exaltado do discurso. Gozarmos com o idealismo de cortarmos no nosso consumo - não 50% mas muito mais.
Precisamos mesmo de mais aquela camisola? De mais aquele telemóvel novo? De irmos de carro para todo o lado? Nós bem sabemos que não precisamos de tudo isso, por isso gozamos com a Greta, para nos escondermos atrás do nosso humor.
Enquanto gozamos com ela, evitamos dar atenção ao que nos diz. E podemos continuar anestesiados.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Concerto de Música Escolar

Ontem fui a um concerto que juntou uma série de bandas de diversos colégios de Harare. Para meu deleite, terminou da melhor maneira: gaitas de foles! Que saudades da "minha" Escócia...
A última música foi este fantástico Amazing Grace que juntou a banda de gaitas de foles do Colégio de São João e os instrumentos de corda dos vários colégios. A junção ficou mesmo bonita!

(Peço desculpa pela má qualidade da filmagem!)

Um episódio engraçado aconteceu no fim do concerto. Vieram perguntar-me se eu queria comprar um CD do concerto. Eu disse que sim, deram-me um papel para preencher onde se pedia o nome de um aluno de uma das escolas para depois lhe entregarem o CD quando estiver pronto. Dado que estava ali à mão o filho de uns amigos, ele lá escreveu os dados no papel.
Note-se que não estou a falar de um miúdo pequeno mas de um latagão de 13 anos que tem quase a minha altura. Quando lhe perguntaram se eu era o pai, devo confessar que fiquei ofendido: como é que um latagão daqueles podia ser meu filho? Eu, quase uma criança ainda! Alguém que quando ele nasceu tinha... Fiz as contas... Ooops! Tinha 26 anos! Seria perfeitamente normal aquele latagão ser meu filho!
Senti-me velho...

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Gemma Grifiths & The Parlotones

Depois das corridas de cavalos havia um concerto com duas bandas.
A primeira com uma artista local chamada Gemma Grifiths que canta em Shona e em Inglês. Gostei imenso quer da voz quer da música. Tornou-se logo uma das artistas eleitas para fundo musical dos meus duches.
A segunda banda é das mais conhecidas na África meridional e chama-se The Parlotones. Fizeram menos o meu género - não chegaram ao patamar de banda para o duche. Mesmo assim, gostei bastante, mas...
E neste mas é que está o motivo pelo qual o concerto em termos de número de pessoas foi um flop. Estava um frio insuportável! Entre as corridas e o concerto eu ainda fui ao hotel vestir uma camisola e um blusão. O mal é que não trouxe nenhum casaco de Inverno, só trouxe um de Primavera, dado que cá já supostamente encontraria essa estação. Mas apanhei uma noite de 4º!
Ora, por melhor que fossem os artistas, não se aguenta aquele frio. Ao fim de 3 músicas dos Parlotones, fomos embora. Viemos depois a saber que muita gente tinha comprado bilhetes para o concerto e não foi por causa do frio. Ao todo não deviam chegar a 150 pessoas...
E enquanto eu ouvia a música sonhava com o meu capote alentejano em Lisboa... Mas "quem é que se lembra de levar um capote alentejano para África?"

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Duas semanas!

E quase sem notar... Passaram 2 semanas no Zimba!

Corridas de cavalos

No Sábado, fui às corridas de cavalos pela primeira vez na vida. Não é que aquilo seja astrofísica, mas devo confessar que me senti algo perdido...
Em primeiro lugar, não sabia que havia diferentes distâncias nas corridas. Assim, a gaiola de partida dos cavalos vai sendo mudada consoante a distância que se quer atingir de forma a que a meta seja sempre do lado da audiência. Claro que isto faz todo o sentido: se as corridas dos humanos têm diferentes distâncias, porque não as dos cavalos? Só nunca me tinha ocorrido...
Outra coisa que eu não sabia como funcionava, eram as apostas. A verdade é que não gosto nada de jogos a dinheiro, por isso também não tinha grande curiosidade em informar-me. No entanto, passado pouco tempo de estar lá no bar da pista, veio o homem que dava a ideia de ser o director daquilo falar connosco e ensinou-nos a apostar com base no livro das corridas em que explicava o desempenho de cada cavalo. Lá senti qualquer entre entusiasmo e coação para apostar e apostei $10 neste cavalo nº 7 da foto em baixo... E perdi! Mas perdi com alguma honra porque ele ficou em 3º lugar.
Já uma coisa que as corridas de cavalo têm de mais familiar é serem um momento de descontracção e entretenimento em que as pessoas estão bem dispostas. Assim não foi difícil ir falando com várias pessoas que comentavam as corridas, perguntavam sobre nós, etc. Foi um dia bem passado... Apesar do frio! 





terça-feira, 10 de setembro de 2019

Art in the Verandah

Fotografias da feira de arte de que falei no post anterior.


Quadros da crise

No Domingo fui a uma feira de arte giríssima é organizada todos os anos cá em Harare chamada "Art in the Verandah". Esta feira junta obras de diversos artistas Zimbabweanos e os seus proveitos servem para ajudar uma obra social muito gira, a Emmerald Hill. Esta é uma iniciativa centenária das Irmãs Dominicanas e que acolhe crianças vulneráveis. Tem uma secção para crianças surdas-mudas e outra para crianças de rua ou cujos pais não podem pagar-lhes os estudos.
Para além da feira de arte, há lá comidas e bebidas, pelo que fui lá almoçar. Para além de almoçar bem e ao som de boa música ao vivo, pude contactar com as obras de diversos artistas locais. Só tive pena de não ter levado mais dinheiro. A questão dos pagamentos aqui no Zimba é uma questão muito complicada que terá de ser alvo de um post separado...
Bem, não tinha muito dinheiro e a senhora minha noiva está a cerca de 11 mil kms de distância e eu não queria estar a comprar quadros que ela depois não gostasse de ter em casa. No entanto, não resisti a comprar dois pequenos quadros do período da crise de hiper-inflação. Aqui estão eles:


E agora? Alguém consegue adivinhar porque é que são quadros da crise de hiper-inflação? Basta virar os quadros e ver qual o material de que são feitos: notas! E não são notas de 5 ou 10 $Z, são quadros de 50000000000$Z! Nesta altura, em 2008, a inflação mensal andava na ordem dos 79.600.000.000% e para se comprar um pão era preciso um carrinho-de-mão de dinheiro!
Se todas as crises económicas se pudessem transformar em arte...

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Horas Africanas

O Zimbábue tem apenas uma hora de diferença de Portugal... Mas devia ter mais uma ou duas! Aqui já é dia às 5.30 da manhã e às 5.30 da tarde fica noite. Mas noite cerrada mesmo! Nem sequer há iluminação pública na maioria das ruas, pelo que para ir a qualquer lado a pé, vou com a lanterna do telemóvel!
Países diferentes levam a hábitos diferentes...
De manhã tenho acordado (naturalmente, sem despertador) antes das 6 da manhã e logo começo o meu dia. Tenho ido muitas vezes ao ginásio e quando lá chego, pelas 6.30, já lá está imensa gente... É que o ginásio abre às 5!
Como é óbvio, se o dia começa mais cedo, também acaba mais cedo. Às 17h as pessoas saem do trabalho e a maior parte dos serviços fecha mesmo às 15 ou 16h. Mesmo no que toca ao lazer, já me aconteceu ir jantar fora pelas nove da noite e os restaurantes já terem a cozinha fechada! Sendo assim, às dez da noite já tenho estado na cama e adormeço logo que nem uma pedra!

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Uma semana!

Faz hoje uma semana que cheguei ao Zimba, vindo de Portugal... O último dia não foi fácil, preparar três malas para três anos num dia! Com tanto que tive que organizar antes de umas pequenas férias no Minho e depois com as ditas cujas férias, não tive tempo para as malas. Regressei a Lisboa no dia antes de partir, deixando apenas o dia da partida para fazer as malas.
Com o voo a partir apenas às onze da noite achei que ia ser fácil, mas no dia da partida começaram a surgir as dúvidas: "e se eu não consigo comprar isto ou aquilo no Zimba? mais vale levar..." E com todas estas dúvidas, fazer as malas tornou-se uma tarefa bem mais complicada do que alguma vez tinha sido para mim fazer malas. (Claro que entretanto me apercebi que tudo se pode comprar no Zimba e que o país não está tão calamitoso quanto mo tinham descrito, mas só soube disso depois das malas feitas.)
O que vale é que quem tem uma Chéquinha previdente ao seu lado, tem tudo! E a minha Janiska tirou esse dia para me ajudar nas minhas tarefas de organização e de compras de última hora. Aliás, esta tarefa homérica teria sido impossível sem ela. Sem ela e a sua habilidade inata para fechar malas infecháveis.
E depois, quando às nove da noite ainda estava em casa com as três malas, foi graças à minha Chéquinha, que é uma autêntica Senna quando é preciso, que cheguei ao aeroporto da Portela mais ou menos a tempo.
Por isso, muito obrigado à minha Jana! Com muitas saudades do seu Hararense preferido...

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Fire!

Fui ao supermercado comprar umas coisitas e quando saí vi fogo no parque mesmo em frente! FOGO! Português que é Português entra em pânico quando vê fogo, certo?
Voltei ao supermercado e falei com uma das muitas funcionárias que não pareciam estar muito atarefadas.
Eu: "Is that a fire or are they just burning some leaves or something?" Note-se que a pergunta parecia estúpida porque estava mesmo muito fogo no parque mas eu não quis parecer alarmista...
Ela: "I don't know!" Tem piada que ela não parecia estar muito interessada em saber...
Eu: "Has the fire brigade been called?"
Ao que se seguiu a mesma resposta com o mesmo ar de indiferença.
Eu: "Can you perhaps call the fire brigade?" Tudo isto com um tom calmo de quem pensa "em geral arder um parque urbano é mau, mas isto é o vosso país, não o meu"!
Ela: "I'll need to consult with my boss..." Com ar de quem não ia incomodar o todo-poderoso-e-ocupado-chefe com uma ninharia como arder um parque urbano e possivelmente toda a vizinhança que faz compras no supermercado onde ela trabalha.
Eu lá me despedi sem alarme e lá retomei o meu caminho. Ao passar perto vi que o fogo era mesmo grande, maior do que aparentava do supermercado, pelo que decidi apressar-me até ao hotel. Aqui chegado:
Eu: "There seems to be a fire in the park. Could you call the fire brigade?"
Kirsten (a rapariga da recepção): Naaaa, Diego (sim, o meu nome é sempre adulterado), they're just burning the soil to make it greener! Well... The fire brigade would probably not have water, anyway, so let's hope the people in the park know what they're doing... It's called slash and burn!"
E pronto, fico aqui na esperança que o pessoal do parque saiba o que está a fazer enquanto aprendo técnicas agrícolas locais. E enquanto escrevo este humilíssimo post, sinto o cheiro a fogo vindo do parque. Mas tenho essa esperança... Dizem que ela é a última a morrer... Seria uma chatice ser evacuado a meio da noite do hotel sem ter completado o meu sono de beleza, mas tenho esperança que o pessoal do parque saiba o que está a fazer. Talvez vá fazer as malas e pô-las no carro... Apesar da esperança que tenho no pessoal do parque!

domingo, 1 de setembro de 2019

Cá no Zimba

E pronto, aconteceu! Cheguei ao Zimbábue (Zimba para os amigos) na passada quarta-feira. Há meses que sabia que vinha para cá mas a data parecia tão distante... Nesses meses ia lendo tudo o que aparecia na imprensa internacional sobre o Zimba e as notícias iam sendo cada vez mais alarmantes. Desde a inflação galopante à repressão de demonstrações, à prisão de líderes da oposição... A ideia passada é que aquele que costumava ser um paraíso de prosperidade em África estava reduzido a um buraco.
Quando a data da partida começou a estar cada vez mais próxima, eu já estava muitíssimo pessimista. Tão pessimista que comecei a comprar carregamentos de tudo o que poderia necessitar num país onde ou as coisas não existiam ou eram vendidas a preços da Noruega ou Suíça. Alguns exemplos dessas compras: não sei quantas embalagens de gel de barbear e after-shaves, champôs, pastas e escovas de dentes, colónias, desodorizantes... Acima de tudo, o absolutamente fundamental seria manter os níveis de higiene pessoal aceitáveis em qualquer corte Europeia. Nunca se sabe quando uma pessoa vai a andar pelas ruas de Harare e se cruza com um Saxe-Coburg-Gotha...
Entretanto cheguei e, aos poucos, fui conhecendo mais da cidade. Tenho vindo a notar que estava demasiado pessimista. Quer dizer, não vou dourar a pílula neste blog lido por pessoas inteligentíssimas, cultíssimas e, acima de tudo, viajadíssimas: as coisas aqui estão muito mal. Para dar uma ideia desse mal, de acordo com as estimativas da ONU, estão 2,5 milhões de pessoas a passar fome no país. Na rua vê-se pobreza, ou antes, miséria. Vê-se muita gente a vender bugigangas nos sinais de trânsito ou, pior ainda, a não fazer nada e esperar o tempo passar porque não há nada a fazer; vêem-se crianças andrajosas a pedir esmola e adolescentes com fotografias deles próprios em fardas escolares a pedir dinheiro para poderem voltar à escola; só há electricidade das 10 da noite às 5 da manhã o que leva a que o preço do petróleo para os geradores aumente constantemente - apesar disso, as filas de carros para abastecer são enormes! E tudo isto em Harare, a capital... Não imagino como será no resto do país.
Então porque é que eu acho que estava demasiado pessimista? Porque eu achava que mesmo para os que tinham dinheiro era difícil comprar o que quer que seja. E não é. Há supermercados, restaurantes, farmácias, lojas de mobiliário, stands automóveis... Tudo a funcionar! E os preços...? Bem, as poucas coisas produzidas no Zimba (milho branco, carne...) são a preços bastante razoáveis. O resto das coisas (como por exemplo os tais produtos de higiene que me permitirão conversar com os Saxe-Coburg-Gothas que se cruzem comigo em Harare) são mais caros do que em Portugal mas estão ainda longe dos preços da Noruega. Claro que, dados os cortes energéticos, a electricidade e o petróleo também são caros e só posso adivinhar que os produtos nacionais comecem a ser cada vez mais caros porque é cada vez mais difícil produzi-los e transportá-los até aos consumidores.
Quanto a segurança, devo dizer que não me sinto minimamente inseguro. Claro que tenho tido as necessárias cautelas mas as pessoas com quem me cruzo são genuinamente tão simpáticas e acolhedoras que não consigo mesmo sentir qualquer ameaça.
Estas observações, claro está, são meramente pessoais. Não são baseadas em índices e estatísticas. Mas basta fazer as contas: se um quilo de arroz num supermercado (não sei quanto é num mercado, por exemplo) custa cerca de €1 e o ordenado de um polícia anda à volta dos €30, eu fico sem entender como é que ele poderá sustentar-se e à sua família... Em resumo, a vida no Zimba não está má para quem tem dinheiro (apesar dos cortes eléctricos e das filas para gasolina que afectam todos). Mas não é sempre assim? Já para os outros... Acho que as observações acima já respondem a isso.