Primeiro veio a crise económica. Portugal passou toda uma década com uma economia anímica a viver a ressaca do excesso de construção de estradas, casas, pontes e estádios. Nada mais se tinha feito que construir e tudo a fiado. Com dinheiro alheio. Os juros estavam bons (e até foram bonificados a certa altura à custa do contribuinte). Então, porque não?
Depois veio a crise moral. Toda a gente acha perfeitamente natural que se matem sem quaisquer limites legais as mais indefesas criaturas humanas, os fetos. E que se faça isso com o dinheiro do contribuinte. As vezes que se quiser, claro está. Tanto que uma boa parte das mulheres que abortam agora já o fizeram antes. Para quê pagar pelos preservativos, se os abortos são à custa do contribuinte?
Depois foi a crise financeira que se abateu sobre Portugal. As agências de avaliação financeira (rating) serviram de abutres. Note-se que os abutres são sempre os primeiros a encontrar os animais moribundos e foi isso que estas fizeram. Viram um estado em debilidade crónica, atacaram e depois disso todos os predadores financeiros se lançaram sobre a República Portuguesa como se não houvesse amanhã.
Agora é a crise política. O MNE zangou-se, bateu com a porta. A porta voltou a abrir-se. Afinal bateu-se mas não se trancou. Altera-se a coligação mas ainda ninguém sabe em que termos. Desta vez os abutres vêm da esquerda e só sabem gritar "eleições, eleições, eleições"! Note-se que não o fazem por patriotismo, convencidos que farão melhor para ajudar o país a sair da crise. Eles bem sabem que isso não é possível. Apenas querem refastelar-se com o resto da carcaça que quase mais não é agora que ossos.
Eu gostava de um dia voltar a Portugal. Mas será que Portugal ainda vai existir? Ou será que ainda existe? Se calhar é como no conto de Natal de Dickens. O espírito de Portugal passado.