terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Ser pai em tempos do Grande Irmão

Toda a gente já se apercebeu que este mundo virtual sabe mais das nossas vidas do que nós sabemos que ele sabe. Quantas vezes nos damos conta que, no seguimento de uma conversa, as aplicações de redes sociais no nosso telemóvel, que estava bem arrumadinho no nosso bolso durante a conversa, nos anunciam alguma coisa relacionada com essa conversa?

Ora, assim sendo, não é de espantar que o mundo virtual já esteja a par desta coisa de eu ser um pai à espera. Isto quer dizer que nos últimos tempos as minhas redes sociais têm sugerido tudo o que tem a ver com bébés. Começou com vídeos engraçados de bébés. Depois passou a publicidade de toda a enorme pararfenália de coisas que eu nunca precisei mas que o mundo virtual sabe que eu agora vou precisar. Agora vai nos vídeos com conselhos, desde mães a pediatras, toda a gente me quer aconselhar sobre como ser pai.

Isto não é necessariamente mau. Aliás, quem é o nosso conselheiro de maior confiança para tudo o que possamos precisar na vida, que não o google? Chega mesmo ao exagero de que eu, casado com uma médica, quando sinto algum desconforto que não é resolvido pelo tratamento milagroso que eu sigo há décadas para qualquer maleita (2 copos de água), vou antes ao google ver o que ele me sugere e só depois falo com a médica cá de casa!

Assim, dou por mim a "seguir" pessoas nas redes sociais que me querem dar conselhos de paternidade. São os tais "influencers" que também existem para o mundo dos bébés. 

O engraçado disto é a absoluta despersonalização da confiança. Antes davam-nos conselhos pessoas que nós conhecíamos e em quem confiávamos. E, por isso, aceitávamos os conselhos delas. Hoje dão-nos conselhos pessoas com quem nunca nos cruzámos. Como um homem que eu acredito ser pediatra (nunca vi o diploma nem ninguém mo recomendou mas confiei que ele era o que dizia ser), bem falante, com pronúncia do Porto, que eu ainda nem sei o nome mas que já sigo no instagram e de quando em vez lá me aparece a dar um conselho.

Não estou aqui a dizer que chegámos ao fim da tradição do conselho personalizado da família e amigos. Esse também o há... Estou a lembrar-me quando, há uns meses, nós estavamos preocupados com o tipo de carrinho (e anexos) a comprar e uma amiga do outro lado do mundo nos mandou todas as dicas que precisámos para tomar a decisão. Mas se a tradição desse conselho não chegou ao fim, pelo menos diversificou-se.

E não há que chorar por isso... Aproveitemos! Eu sempre gostei de ouvir opiniões e receber conselhos e agora tenho todo um mundo digital ansioso por mandar bitaites sobre a minha vida e as minhas decisões. Não irei desperdiçar esta oportunidade! Obrigado mundo digital!

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

CTT na altura do Natal

Já estou à espera desta encomenda chamada Madalena há 7 meses e ainda faltam mais 2 meses para a chegada! Isto é pior que os CTT na altura do Natal!

Imagino que as pessoas ligadas à agricultura, pessoas que estão habituadas a esperar meses para a altura certa para fazer isto ou aquilo, seja fácil esperar por um bébé, mas para um citadino como eu aespera torna-se dura. Estamos na era digital, tudo se consegue com um clique em frações de segundos. As mensagens substituiram os emails, que substituiram as cartas que nos últimos 200 anos já se tinham tornado muito mais rápidas. E com todas estas alterações na velocidade com que tudo é feito, continuamos nove meses à espera de um bébé!

Pensemos nos marinheiros portugueses dos Descobrimentos. Se deixassem a mulher grávida em Lisboa e fossem à Índia, quando regressassem já a criança andava. Hoje em dia as pessoas podem fazer distâncias bem maiores e apenas vão notar no regresso um ligeiro aumento da barriga.

Quem tem mais experiência no assunto diz-me para eu não ter pressa que quando a Madalena nascer, eu vou desejar pô-la de volta na barriga. É possível... Mas não vou saber se é mesmo assim nos próximos dois meses!

No entretanto as coisas vão-se compondo. Já marcámos a clínica para o dia ainda incerto em que ela decidir nascer, já temos a roupa, as fraldas, os produtos de higiene, o carrinho (que inclui o ovo e o assento para o carro), o kanguru... Só nos falta a cama que foi encomendada e que é feita cá no Zimbábue.

Aqui entre nós que ninguém nos lê, eu era daqueles que abria sempre os presentes de Natal mal eles apareciam na árvore... Com muito cuidado para depois fechar, claro está! Mas este é daqueles presentes que não dá para abrir e dar uma espreitadela e depois voltar a pôr lá dentro.

Quer dizer... Com aquela ecografia toda XPTO que fizemos em Lisboa deu para ver algumas coisas. Deu para ver que não tenho de ter medo de ser uma rapariga, porque estava sempre com a mão fechada, pelo que será forreta como o pai. Também me pareceu que tinha um nariz bem grande, característica também herdada deste lado. 

Mas para além de ser uma nariguda forreta como o pai, mais não sei! Vai ser elétrica ou calminha? Extro ou introvertida? Intelectual? Uma braza como a mãe? Coitadinha, vai mesmo ter de ter queda para as línguas, para falar com a mãe numa língua, com o pai noutra e ir à escola ainda noutra. Mas será que vai gostar mais de ciências, como a mãe, ou de humanidades como o pai? 

Tudo isto eu terei de esperar mais dois meses... E depois mais uns meses e anos... E passar o resto da minha vida a descobrir!

É mesmo pior que os CTT no Natal!

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Realidade virtual do género

Em agosto de 2018, em plena silly season de praias e banhos, foi publicada a Lei n.º 38/2018 sobre a identidade de género. Esta Lei veio determinar que as pessoas poderiam, mantendo as "características sexuais primárias e secundárias", escolher um outro género e até ser tratado por um nome diferente em conformidade.

Com isto, fez-se Lei aquela expressão contraditória da "realidade virtual" porque se uma coisa é real, não é virtual e vice-versa. Assim qualquer José Maria pode por efeito da sua vontade (e imaginação) passar a ser Maria José perante quaisquer autoridades sem necessidade de uma avaliação profissional sobre a sua condição. Curiosamente, já não é assim se a Maria José quiser voltar a ser o José Maria - apesar de ter mantido todas as tais características que tinha à partida, aí já será necessário que venha um juíz permitir a mudança.

E a Lei diz que ninguém tem nada a dizer sobre o assunto! Nem mesmo os contribuintes que pagam o Sistema Nacional de Saúde que, por sua vez, estará encarregue de levar a cabo "tratamentos e intervenções cirúrgicas, farmacológicas ou de outra natureza, destinadas a fazer corresponder o corpo à sua identidade de género". Ou seja, o contribuinte paga e cala. Sim, não foi chamado nenhum especialista para dizer que aquela pessoa, de facto, estava no corpo errado, mas depois são chamados e pagos os especialistas para produzir o corpo que aquela pessoa considera ser o certo.

Esta Lei da realidade virtual mesmo assim não foi ao ponto de permitir a alteração do género de menores a não ser os menores de 16 e 17 anos, que podem requerer a alteração de género através dos pais. Mesmo assim, a Lei vem dizer que as escolas devem proteger uma escolha que antes reconheceu que não poderia ser feita sem intervenção dos pais antes dos 18 anos. Ou seja, primeiro a alteração é feita na escola como teste de ensaio da realidade virtual.

E é isto que o tão badalado Projeto de Lei nº 332/XV vem agora desenvolver. Se o pequeno José Maria quer passar a ser tratado como Maria José, com ou sem consentimento dos pais, a escola terá de assim o reconhecer.

E isto leva-nos a questões mais filosóficas sobre o que é a educação, qual o papel dos pais e das escolas nela, etc. E são estas questões que, como homem a iniciar-se no caminho da paternidade mais me interessam. Quais serão as minhas obrigações para com a Madalena enquanto ela não for "maior e vacinada"? E se ela me disser que quer passar a ser o Madaleno?

Sempre achei que a realidade é complexa de mais para andarmos a brincar com ela. O mundo é o que é e nunca deveremos deixar de o tentar aperfeiçoar, mas também temos de o conhecer na sua realidade para tirarmos dele o melhor partido. Assim é também com as pessoas. Somos o que somos e devemos sempre tentar aperfeiçoar-nos ao longo da vida mas em tudo o que não podemos mudar, devemos aprender a aceitar, amar e tirar o melhor partido.

Um exemplo pessoal: sou baixote. Cheguei à idade adulta com complexos de ser baixote e isso prejudicava-me a auto-estima enquanto adolescente e jovem adulto. Aos poucos aprendi a aceitar e até a amar isso. Comecei a brincar com o facto de ser baixote, habituei-me a isso e hoje em dia tenho isso completamente integrado em mim. Não tomei hormonas de crescimento, com efeitos secundários terríveis, não fiz qualquer cirurgia que me imobilizaria quase um ano e, apesar disso, hoje tenho isso perfeitamente integrado em mim e até acho que dá muito jeito a quem viaja muito, dado o espaço cada vez mais reduzido nos aviões.

Ora, este aprender a amar-se na sua realidade pessoal é o que eu tentarei passar à Madalena. Tentarei que ela se ame como mulher, como luso-checa, como o que quer que seja que ela venha a ser e parecer... Até mesmo, caso ela saia aos pais, que se ame como baixota! Ninguém aprende verdadeiramente a amar os outros e o que o rodeia se não se ama em primeiro lugar a si mesmo. E como é que alguém há-de ser feliz sem amor?

Não tenho nada contra a imaginação. Esta é ótima, pode fazer-nos viajar por mundos nunca antes explorados e pode ajudar-nos a levar alegria aos outros através de histórias, pinturas, música, arquitetura... Espero mesmo que a Madalena seja muito imaginativa. Mas a realidade, por mais que lhe desagrade, tem de ser aceite para que ela possa ser feliz. E aceitarmo-se a ela própria como o que é, será o primeiro passo para uma vida feliz e plena de sentido.

E nisso eu gostaria de contar com a ajuda das escolas que a Madalena frequente. Gostaria que as escolas a ajudassem a a amar-se a si mesma como o que é e não como o que imagina que é. Quando ela aprender a aceitar-se e amar-se, saberá aceitar e amar também os outros. Não deveria ser isto que o Estado deveria promover nas escolas?

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Paternidade musical

 Ao aproximar-se a hora de ter a Madalena cá fora no meio de nós, eu decidi iniciá-la no maravilhoso mundo da música infantil portuguesa. Sim, diz que eles lá dentro da barriga ouvem e a malta vai nisso.

Vai daí escolhi no spotify um álbum de música infantil portuguesa... Ao fim de algumas músicas fiquei com uma dúvida existencial: como é que nós, que crescemos a ouvir aquilo batemos bem da cabeça? Ou será que não batemos bem da cabeça e que não o reconhecemos naquela onda de que os loucos sempre se julgam sãos?

Bem, o álbum começou com a incontornável música de se atirar o pau ao gato. Se há música que imediatamente me vem à cabeça da infância é essa... Mas... Longe de mim gostar de gatos, que não gosto, mas atirar-se-lhes paus, ficar-se triste porque os gatos não morrem (se calhar era só o 6º pau) e ainda se assustar velhas com o miado do bicho não me parece bem!

Pouco depois vieram as pombinhas da Catrina (não, não é Catarina). E por onde começar? Pela miúda pequenina que é mandada acartar água da fonte ou pela mãe que só não lhe bate de partir a cantarinha porque ela encontrou as pombas da outra?

Mas foi quando chegou a outra do barqueiro que eu desliguei a música... A Madalena não merece ouvir de uma mãe que não consegue sustentar os filhos mas que precisa tanto de atravessar o rio que deixa um dos filhos ao barqueiro! Barqueiro esse que nem é capaz de fazer uma borla a uma mãe em apuros!

Estou aqui a pensar se não será melhor a Madalena ouvir música Checa com a mãe. Mas tendo em conta que a mãe nasceu na República Socialista da Checoslováquia, tenho medo que a música de lá fale sobre os pequenos almoços daquela gente e isso ainda ia aterrorizar mais a criança.

Talvez seja melhor a Madalena passar diretamente para o fado e a bossa nova.