sexta-feira, 21 de abril de 2006

Conversa de gajos

Estava eu a almoçar numa tasquita perto do trabalho, quando entram por ali adentro três hormens daqueles à moda antiga, ou seja, mesmo com aspecto de homens barba rija daqueles que deixam a Maria em casa a cozinhar e vêm a Lisboa com os amigos e a pronúncia deles confirmava as minhas suspeições que eles eram do campo: não podiam ser mais Alentejanos!
Até aqui nada de estranho numa tasca... O que eu estranhei mesmo foi a conversa deles. Quando afinei o ouvido para ver de onde é que eles eram, apanhei este bocadinho de conversa:"ora pois, se fritares o ovo em azeite, vais ver que fica muito melhor..."
Bem, dessintonizei a minha atenção daquela mesa, mas passado um bocado veio-me outra frase, desta vez em tom mais entusiasmado, ao ouvido: "nada disso! pões antes um bocadinho de presunto na água de cozer as batatas..."
A minha alma está parva? Mas será que não há nenhum jogo de futebol, tourada ou novidade política que valha a pena ser discutida, para me estarem aqui estes marmanjões a falar de culinária???
Estava eu nestes pensamentos, quando entra um rapaz com aspecto mais franzinamente citadino: a pronúncia (ou falta dela) não enganava: era Lisboeta. Pelos vistos eram amigos e ele senta-se na mesa deles. Depois dos cumprimentos iniciais, sairam-se com esta: "estás mais magro!" E logo de seguida voltaram a comentar receitas e ainda estavam nessa quando eu saí do restaurante. Quanto ao coitado do Lisboeta, esse permaneceu sempre calado e eram os Alentejanos que animadamente trocavam dicas de como confeccionar os mais variados pratos.
É impressão minha, ou Portugal mudou enquanto eu estive na China e eu nem me tinha apercebido ainda?

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