Trabalhando perto do Chiado, é raro o dia em que não sou abordado por umas quantas pessoas que fazem malabarismos com fogo e sei lá mais o quê e que pedem dinheiro. Os cabelos com rastas, as roupas com um ar de que já não sabem o que é uma máquina de lavar e as caras, braços, pernas e tudo o mais cobertos de tatuagens e piercings... Tudo junto, dá um ar bastante assustador que nos remete para aqueles filmes de ficção tipo o Eragon passados numa Idade Média imaginária cheia de gente feroz que luta a soldo de tiranos perversos.
Um dia perguntei a um rapaz que havia de ter a minha idade (26, anos para quem não sabe) mas bastante mais alto e encorpado que eu, porque é que ele não ia trabalhar. Sugeri-lhe que ganhar o seu dinheiro com o trabalho, viver numa casa com a renda paga por si e comer às suas prórpias custas seriam coisas que o iam deixar bastante realizado.
Respondeu-me que era Anarquista e que não se conformava com esta sociedade capitalista e que vivia em função do dinheiro, ao que lhe respondi que muito estranhava essas suas ideias, uma vez que ele estava ali a insistir comigo para lhe dar dinheiro.
De facto, é muito fácil sermos anarquistas e esperar que toda a restante sociedade, composta principalmente por não-anarquistas, nos sustente, nos dê umas esmolas por causa de uns malabarismos e de umas músicas meio estranhas que eu faço no meio da rua. O difícil é trabalharmos todos os dias, aturarmos indisposições de chefes ou até de colegas, aguentarmos os stresses e as noitadas com coisas que nos aparecem hoje "para ontem", etc. Tudo isso é difícil, mas francamente a mim realiza-me mais.
Gosto de chegar à casa paga pelo meu trabalho, ler um bom livro pago com o meu trabalho, jantar a comida que paguei com o meu trabalho, etc. Gosto de sair de casa com um aspecto que seja agradável aos outros, com um cheiro que não incomode ninguém, com a roupa minimamente em condições.
No fundo, gosto de ser agradável aos outros, sei que os outros não têm que me sustentar a não ser que por uma infelicidade qualquer eu não possa trabalhar ou não consiga encontrar trabalho.
Faz-me uma certa impressão quem ache que todo o mundo lhe deve e que o seu mundo é constituído por direitos sem obrigações...
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