Quando o Filipe me propôs irmos fazer um curso de pára-quedismo, disse-me que podiamos lá ficar a dormir de graça. Ora, quem me conhece sabe bem que se há coisa que eu gosto mesmo é de coisas de graça. Aliás, até há muita gente que poderá, com toda a justiça, achar que um dos principais motivos porque fui tirar o tal curso foi porque lá podia dormir sem pagar!Quando chegámos ao aeródromo foi-nos dito que íamos dormir num monte que havia do outro lado da pista e a visão não podia ser melhor! A casa era a de um típico monte alentejano, baixa, branquinha, com uma vinha sobre a porta de entrada e um ar mesmo rústico e castiço. Eu nem podia em mim de contentamento: não só não pagava nada pela dormida, como ainda para mais dormia numa casa mesmo gira (eu a pensar que ia dormir num armazém qualquer!). Devo confessar que durante todo o dia olhei com contentamento a casa onde ia dormir, sentindo-me já um bocadinho Alentejano* e tudo.
Ao fim do dia fomos pôr as nossas coisas ao encantador monte e devo dizer que o seu interior não era exactamente muito caiadinho e decorado com aquela mobília Alentejana pintada com flores, como eu tinha imaginado. Digamos que aquilo era assim mais do género daquelas casas que permitem um contacto mais directo com a Natureza.
As paredes, bastante esboroadas, continham uma fantástica variedade de espécies de aranhas, digna de ser estudada por biólogos de renome; o tecto permitia ver o céu laranja do pôr-do-Sol Alentejano; o chão pouco diferia do chão fora de casa e passear descalço naquela casa podia ser uma aventura quase tão entusiasmante como saltar de pára-quedas.
Já desde que saí dos escuteiros que não dormia tão bem integrado na Mãe Natureza!
Aliás, o Manel até me contou que ouviu um urso a dormir no quarto que estava entre os nossos quartos. Eu, graças a Deus, dormi que nem uma pedra, embalado pela mão carinhosa da Natureza naquela acrobacia de dormir em cima de uns bancos todos juntos, mas não consigo perceber como é que o Filipe, que dormiu nesse tal quarto, conseguiu dormir com um urso a ressonar ao pé dele! E eu que não sabia que havia ursos no Alentejo!
*Para quem não saiba, as minhas origens são Beirãs, motivo porque sibilo um bocadinho quando rezo o terço.
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