Há bocado o Alexandre, que é um Chinês de Shanghai que dá cá aulas na faculdade, veio como de costume, buscar-me ao meu gabinete para irmos almoçar com a Estrela, outra Chinesa mas esta de Macau.
Como eu estava a trabalhar ao som de um CD do Carlos Paredes começámos a falar de fado e eu disse-lhe que a maior fadista do momento em Portugal era a Mariza e fiz uma busca no google para lhe mostrar uma fotografia e para meu espanto ele sai-se com um:
"- Ela parece lésbica. A minha outra namorada também era lésbica."
Eu fiquei bastante surpreendido mas como a Estrela chegou nessa altura, não desenvolvi a conversa, mas percebi logo que alguém lhe deve ter dito que lésbica queria dizer outra coisa e como o Português dele ainda não é muito bom, ele acreditou.
No fim do almoço, quando nos despedimos da Estrela, eu decidi que para ele não continuar a cometer gafes mais valia explicar-lhe o que é que lésbica quer dizer.
"- Oh Alexandre, o que é que tu achas que lésbica quer dizer? É que lésbica quer dizer uma mulher que gosta de outras mulheres..." Quer dizer, um homem não pode deixar um amigo andar aí ao engano a dizer que anda a namorar com lésbicas, não é?
Qual não é o meu espanto quando ele me diz que sabia muito bem o que era uma lésbica e que a ex-namorada agora tinha uma namorada e vivia com ela e que em Pequim e Shanhai havia muitos homosexuais e muitas lésbicas.
Ora, para quem viveu em Shantou, como eu vivi, isto foi um choque porque só me lembrei do Tom, o dono da New Time, a jurar-me a pés juntos que não haviam gays na China e que essas coisas só se passavam no "dissoluto Ocidente." Como era impossível que em 1,4 biliões de Chineses não houvesse um único gay, eu percebi que eles ainda deviam viver muito escondidos e ser um tema tabu. De facto, a China está a mudar enormemente mas neste momento ainda há duas Chinas em muitas coisas: a China das grandes metrópoles urbanas e a China tradicional.

