É aquela semana em que toda a gente passa o seu ano em revista. Eu, que não gosto de ser exceção, decidi fazer o mesmo. Mentira... Eu gosto de ser exceção, mas decidi não sê-lo agora.
Entrei em 2020 em Harare a viver numa casa absolutamente vazia. Vazia, mesmo! Dentro da casa tinha uma cama e um mini-frigorífico, ambos emprestados, e na varanda tinha uma mesa e umas cadeiras desdobráveis, também emprestadas. Nessa altura a empresa de transportes que levou o meu contentor para África dizia-me que este estava atrasado... E como a minha mobília ia chegar, eu não ia começar a comprar mobília nova, pelo que, para me sentar a ler, por exemplo, sentava-me no chão e encostado à parede. Foram, certamente, os meses mais desconfortáveis da minha existência!
Passados dois meses, lá nos foi dito que o contentor estava perdido. Um contentor de 20 pés perdeu-se! Evaporou-se... Desapareceu sem ser notado do porto de Durban! Eu, que absolutamente detesto fazer compras, passei o ano a comprar coisas para ter uma casa minimamente apresentável. Esta necessidade constante de fazer compras já bastaria para me estragar o ano.
À medida que o novo ano ia entrando com mais força, cresceu o alarme com esta nova Pandemia vinda de Wuhan. Este alarme teve alguns aspetos positivos - um deles foi a OMS em Harare passar a precisar de uma consultora médica para questões epidimiológicas. E a Jana estava à procura de trabalho... As duas vontades casaram-se lindamente e desde fevereiro que a Jana se tornou uma OMSista em Harare.
Perante o aumento de casos da COVID no Zimbábue, o Governo decidiu entrar em lockdown em março. Os dois meses em que a Jana e eu trabalhámos a partir de casa até foram bons. Por exemplo, tivemos mais tempo para estar juntos, para delinearmos o que gostamos de fazer como casal (omelete ao pequeno-almoço, passeio ao fim do dia, etc.). Apesar de ter muitas reuniões online, escrever muitas análises e atender muitos telefonemas de cidadãos a querer regressar a Portugal, desses dois meses guardo a recordação de que tinha tempo para fazer tudo! O facto de termos alguns amigos a viver no mesmo condomínio, o que nos permitia continuar a ter alguma vida social, apesar de não podermos sair à rua, também ajudava.
O pior da COVID estava mesmo para vir... O nosso casamento estava marcado para se realizar na Chéquia em Abril e logo no início de março vimos que a pandemia não ia deixar. Remarcámos para Outubro porque não havia outras datas disponíveis até lá, mas também essa data foi cancelada. Estes adiamentos "até mais nunca" deixaram-nos aos dois tristíssimos mas de certa forma até nos aproximou como casal.
Desde o fim do lockdown, que a Jana e eu aproveitámos para conhecer o Zimbábue. Até porque não podíamos ir a mais lado nenhum. Mas isso valeu mesmo a pena! É um país lindíssimo e com muito para oferecer em termos de natureza. Infelizmente, os preços são tão caros que torna incomportável à comum pessoa lá ir passar umas férias. Nós conseguimos aproveitar os preços terem sido cortados por causa da Pandemia, chegando os hoteis a fazer 1/3 dos preços originais.
Este ano teve a particularidade de ser a minha entrada nos entas. Ah pois é, nascido em 1980... Entrei da melhor forma! A Jana organizou-me uma festa com muitos amigos de Harare lá em casa. Não apenas é uma casa com jardim, pelo que estávamos todos ao ar livre, como nessa altura os números de novas transmissões estavam longe de alarmantes.
Infelizmente, os planos para outras viagens em África tiveram de ser adiados até um pós-COVID que o permita.
O ano acabou em Portugal. Não era suposto ter acabado cá, porque devíamos voar no dia a seguir ao Natal . No entanto, à hora do dito regresso estou eu estendido numa maca no Hospital de São Francisco Xavier à espera de uma cirurgia urgente! Foi o meu apêndice que não quis regressar a África... Não posso deixar de ver a mão de Deus em que esta situação macaca se tenha passado em Lisboa e não no voo ou até em Harare! Claro que preferia que o meu apêndice nunca se tivesse manifestado mas, se ele tinha que dizer alguma coisa, ao menos deixou-me viver o Natal mas não me deixou viajar!
Assim, a poucos dias do fim do ano vi-me nas mãos de uma equipa de absoluta excelência a ser operado em Lisboa. Mas isso já é matéria para um post futuro.
Bom ano novo a todos!
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