sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Desnoticiário em Portugal

Na Terça acabei as aulas às 20h e fui para casa só por uma meia hora já que ia ter com a Leonor passado um bocado logo que ela me telefonasse. Como era tão pouco tempo, não ia ler um livro para não deixar um capítulo a meio, não ia ver um filme no DVD também para não o deixar a meio e como não tinha comprado nesse dia o South China Morning Post cometi o erro de ligar a televisão para ver o noticiário da tarde da RTP (sim, quando é tarde em Portugal, aqui é noite).
Digo "cometi o erro" porque já há muito tempo que tinha percebido que ver os noticiários Portugueses me deprime e tinha decidido não ver mais... Então, numa altura em que a Índia sofre os piores atentados bombistas da sua História, a Islândia se afunda economicamente, a Tailândia se afunda politicamente, o euro e a libra caem como se não houvesse amanhã, o Presidente eleito dos EUA apresenta a sua equipa, etc., as prioridades do noticiário da RTP (se bem me lembro o da SIC ainda é pior e o da TVI é de fugir) são as seguintes:
- NOTÍCIA DE ABERTURA: despiste de um autocarro com crianças que derrapou no gêlo para lá do sol posto. Bem, isto até podia ter sido uma notícia importante se alguém tivesse morrido ou, pelo menos, deslocado um ombro. Nada disso! Ninguém morreu, o ferido em estado mais grave tinha sofrido uma entorse, o condutor não estava bêbado... Mesmo assim enviaram uma reporter para o local, ocuparam os primeiros 10 minutos do noticiário com a notícia. Ah, mas a rpóter tinha um escândalo na manga! E o escândalo disto tudo é que ela, baseada no testemunho de uma miúda de 5 anos com pronúncia do Norte desconfiava "vivamente" (aliás, o que ela era mais era uma vivaça) que tinha sido uma falha nos travões...;
- SEGUNDA NOTÍCIA: mais 10 minutos a falar do gêlo na Serra do Marão. O gêlo que tinha cortado as estradas, que tinha levado turistas a ver a Serra (filmaram um casal de turistas numa Serra para além disso deserta), entrevistaram condutores e depois a repórter que, para mal dos nossos pecados, tinha ido ao local, falou dois minutos à beira da estrada com carros a passarem a 20 cm dela. Aliás, isso foi a grande emoção do noticiário: por cada um que passava eu torcia os dedos para ver se o gêlo na estrada o fazia despistar, atropelar a repórter e fazer uma notícia com mais substância...
- TEMPO: Depois disso puseram um venerando senhor de idade a falar do tempo porque, pelos vistos, essa agora é a maior preocupação em Portugal. Ora, lá vão os bons velhos tempos em que para dizer exactamente a mesma coisa punham umas respeitáveis raparigas de saia curta e decote rasgado que tornavam esta apresentação do tempo bem menos enfadonha.
Foi mais ou menos por esta altura que eu adormeci para só acordar com o telefonema da Leonor e sair de casa. Fui a considerar se seria abertura do telejornal em qualquer país do mundo pôr-se uma bomba nas sedes de todos os canais de televisão portugueses...

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