Para se entender verdadeiramente uma pessoa, temos que vestir as suas roupas, calçar os seus sapatos e viver a sua vida ou, pelo menos, imaginar como isso seria.
Vinha agora no metro que, como podem imaginar, estava cheio e vinha mesmo ao meu lado um homem negro com dois filhos: uma miúda de uns 5 anos com umas trancinhas muito bem feitas a acabar nuns bonequinhos, vestida com todo o cuidado e a vestir umas sandalias côr-de-rosa e um miúdo de uns 3 anos com calções e camisas impacávelmente passados e também com umas sandálias, mas estas azuis.
Já o homem estava vestido com menos cuidado: umas calças e uma tshirt com manchas de tinta indiciavam que devia ser pintor.
Falavam os três numa língua crioula que só dava para entender uma ou outra palavra solta e parecia que, apesar de irem apertados entre a multidão que enchia o metro, iam sózinhos no seu mundo bem longe daqui, com a sua língua, as suas graças e os seus gestos próprios.
E foi aí que eu me imaginei na situação deles: a viver num país de gente diferente, a fazer trabalhos cansativos e desgastantes, a não querer desligar-me do meu país e a ensinar Português aos meus filhos sem eles nunca terem conhecido Portugal (que é o que provavelmente acontecia com aqueles miúdos). E tudo isto posto perante a alternativa entre viver assim ou voltar a um país miserável onde os meus filhos, agora tão limpinhos e bem apresentados, iriam passar fome e ser privados de estudar.
E vem isto a propósito do alarme que se gerou quando mais umas centenas de imigrantes clandestinos tentaram há uns dias entrar nas Canárias para daí seguir destino para a Europa. Será que eles querem mesmo viver num continente frio, de gente tão diferente e onde serão recebidos com desconfiança e até violência? Não me parece...
O que me parece é que eles querem fugir de uma vida condenada à miséria, à guerra, à doença e ao analfabetismo; que eles querem alimentar os filhos, pô-los na escola a estudar e ter a certeza de que a sua casa não vai ser invadida durante a noite por uns quaisquer guerrilheiros a soldo de um qualquer barão da guerra movidos pelas piores intenções; que eles querem que os filhos possam ser atendidos em hospitais quando estão doentes e comer à hora das refeições.
E nós? O que é que nós queremos?
Queremos que eles morram de fome, doença ou numa qualquer guerra sem sentido?
Queremos que os seus filhos creçam sem saber ler ou escrever e que venham a ser os pequenos guerrilheiros que ou morrem antes da idade adulta ou se tornam em barõezinhos que recrutam novos pequenos guerrilheiros?
Queremos que as suas filhas morram de parto com 20 ao dar à luz o 5.º filho e que os seus filhos apanhem e dessiminem a SIDA que se tornou numa epidimia incontrolável em África?
Se não queremos isso, o que é que queremos fazer?
4 comentários:
O problema é que não são fáceis as respostas a essas perguntas.
Oh Di,
Uma coisa que não tem nada a ver, porquê mudaste o layout do blog :(? Gostava mais do outro!!!
Filipa
Eu também gostava mais do outro, mas tudo começou com uma tentativa de fazer uma alteração qualquer, aquilo ficou tudo desconfigurado e eu, com o meu jeitinho natural para informática, não consegui arranjar nada e tive que pôr um outro layout porque já não encontrava o 1.º...
C'est la vie!
Primero: cambiaste de layout, porque como ya tenes 26 años, ya querese ser mas "serio e intelectual"
Segundo: Con lo de los inmigrantes tenes razon, es dificil, pero depende hacia donde decidis inmigrar, yo en China soy un famoso profesor de ingles, y hasta futbolista, pero en Europa, me tocaria ser un mesero o un pintor... y en estados unidos, seria peor, por tanta discriminacion... La inmigracion es favorable para algunos, solo que es dificil encontrar un pais donde sentirse bien...
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